Argentina: Violenta repressão deixa professores em pé-de-guerra

Buenos Aires, 05/04/2005 – O protesto de professores na província argentina de Salta, em greve há 35 dias, se fortaleceu com novos apoios às suas reivindicações de melhores salários depois da inesperada e feroz repressão que sofreram. "O que aconteceu na sexta-feira não foi repressão, foi selvageria", disse à IPS Alessandro Wardi, secretário do Interior da Associação de Trabalhadores do Estado, em comunicação por telefone celular de dentro da maciça mobilização realizada nesta segunda-feira em Salta, capital da província de mesmo nome, convocada para protestar contra a brutalidade policial.

Cerca de 1.700 fardados realizaram na noite de sexta-feira, de surpresa, uma repressão contra aproximadamente 300 professores, em sua maioria mulheres acompanhadas dos filhos, que faziam uma vigília próximo da catedral que fica no centro da cidade e onde fiéis católicos oravam pela saúde do papa João Paulo II. A província, perto da fronteira com a Bolívia, a mais de dois mil quilômetros de Buenos Aires, é governada por Juan Carlos Romero, do Partido Justicialista e membro de uma família que conduz há décadas os destinos desse distrito de forma autoritária e com base no clientelismo político.

Romero colaborou com o ex-presidente Carlos Menem (1989-1999) em sua tentativa de voltar em 2003 ao governo argentino pela terceira vez, frustrado quando renunciou para competir em segundo turno com o esquerdista Néstor Kirchner, também justicialista, mas no extremo ideológico dos primeiros. Os professores de Salta – cada província tem autonomia educacional nos ensinos primário e secundário – se preparavam para marchar diante do prédio do Legislativo local, onde Romero inaugurou as sessões anuais, mas a forte presença policial que impedia o acesso ao prédio os obrigou a permanecer na praça 9 de Julho, diante da catedral.

O governo da província havia advertido para que não instalassem barracas, e os professores somente tentaram estender um toldo de plástico à noite, quando começou a chover, e foi nesse momento que a polícia chegou, distribuindo cacetadas, pontapés, puxões de cabelo, socos, disparo de gás lacrimogêneo e balas de borracha. O resultado dessa repressão foi cerca de 30 detidos e numerosos feridos, incluindo uma menina de 6 anos que ainda permanece hospitalizada. O arcebispo de Salta, Dante Bernacki, presente durante esses atos, denunciou que "foi uma covarde e selvagem repressão" e acusou as autoridades provinciais de "ostentarem um poder violento, ditatorial e desmesurado".

Porém, o governo de Romero respondeu que a violência foi provocada por "ativistas" infiltrados entre os que protestavam. A violência policial fez com que, nesta segunda-feira, a manifestações dos professores de Salta contasse com as presenças de outros sindicatos e das escolas particulares, que fecharam suas portas aderindo ao protesto. Além disso, houve manifestações de solidariedade dos professores de Buenos Aires, bem como de partidos de esquerda. Uma jornalista do Nuevo Diário de Salta, Elena Corvalán, informou á IPS que até sexta-feira uma rádio do governo provincial estimava em pouco mais de 60% a adesão á greve. "Nesta segunda-feira, depois da repressão, a adesão subiu para 82%, e olha que estamos falando de uma emissora oficial", salientou.

Corvalán contou que o epicentro do protesto em Salta está a alguns quilômetros do centro histórico da cidade, na localidade de Grand Bourg, onde fica a sede do governo. Ali há algumas semanas foram erguidas barracas que os grevistas ocupam de modo permanente. Mas na sexta-feira, na praça 9 de Julho no centro histórico de Salta, um grupo de professores chegados do interior resolveu passar a noite em frente à sede do Legislativo. Mas, apesar de acatar a ordem de não acampar, a polícia os atacou de noite, disse a jornalista. A repressão foi a resposta do governo às reivindicações de melhoria salarial que os professores pedem desde 2004. Este ano, diante da falta de resposta aos seus constantes pedidos, decidiram entrar em greve no primeiro dia de aula, em 1º de março.

Desde a chegada ao poder federal de Kirchner, em maio de 2003, o salário de professor, que varia em cada uma das 24 províncias em que se divide o país, aumentou, em média, de 473 pesos mensais (US$ 162) para 607 pesos (US$ 208). Ao começar o ano escolar, foi anunciado novo aumento. No discurso de abertura dos trabalhos do Congresso Nacional, o presidente disse que a partir desse dia nenhum professor receberia menos de 700 pesos (US$ 240) líquidos por mês, e comprometeu o envio de fundos do governo nacional para garantir que todas as províncias alcancem essa base mínima igual para todos.

Os professores de Salta recebem por mês o salário básico de 239 pesos (US$ 82), e sobre esse mínimo soma-se pequenas quantias por diversos conceitos que estão fora do salário fixado. Desse modo, a renda chega a 550 pesos (quase US$ 190). Entre as reivindicações de melhores salários está a incorporação desses adicionais ao salário regular. Até agora não houve por parte do governo provincial nenhuma resposta para as reivindicações, por isso a greve continua por tempo indeterminado. Wardi explicou que o governo de Salta pretende aumentar os salários paulatinamente durante o ano, mas através de novos adicionais.

Isso é fortemente rejeitado pelos sindicatos, porque afetam os trabalhadores que estão perto da aposentadoria, para cujo cálculo conta apenas o salário-base. Além disso, os dirigentes sindicais dizem que dessa forma anula-se as diferenças entre os novos e os que estão perto de se aposentar. Os trabalhadores vão "continuar em greve por tempo indeterminado", para que o governo se apresse a dialogar e chegar a uma solução, disse Wardi. No entanto, o governo federal se ofereceu para mediar a crise. "Nossa intenção não é de confronto com o governo, mas se não faz o que deve fazer, terão de ir", advertiu o sindicalista. Mais tarde, em assembléia, os professores decidiram pedir o julgamento político de Romero pela repressão contra os grevistas. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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