BELÉM, 02/02/2009 – -TerraViva.- Se o Fórum procura uma causa comum, essa não será a da legalização da maconha. A causa foi defendida por mais de uma centena de pessoas, quase todas jovens, a maioria brasileiras, e mesmo atraindo a aparente simpatia da maioria, uma minoria silenciosa não aprovou.
Como era de esperar viram-se muitas rastas, barbas compridas, cores da bandeira jamaicana e ate alguns peitos nus mostrando um coração contendo a folha de marijuana. A marcha iniciou-se ao som do reagge, depois juntaram-se percussionistas, e finalmente surgiu o talento musical dos manifestantes que com as suas vozes e pegando saltos tornaram os sloganes em versos musicais no que se tornou um verdadeiro concerto ambulante. Nem um debate da comissão episcopal pastoral resistiu ao charme musical canabinoide e o orador principal perdeu metade da plateia que decidiu virar-lhe costas ate o desfile acabar. O único a resistir foi um corajoso guitarrista que, com uma fé inabalável no heavy metal, decidiu mostrar o seu desgosto pelo ambiente 'hippie' exprimindo o ritmo do metal a todo volume.
Mas sem duvida a manifestação atraiu a simpatia de grande parte das pessoas que com ela se encontraram. Seguidos por uma cadeia de televisão brasileira, e fotografados por inúmeros jovens, nem os homens de uniforme resistiram a tentação de fotografar a folclórica marcha. “Isso e para identificar?” uma jornalista loira pergunta. “Não, a gente quer por isto no nosso site. Somos bombeiros!” Mas nem todos olham com simpatia. Paulo Kayapo, um indígena amazónico que observa os jovens com olhar não duvida em exprimir a sua opinião: “Deve ser proibida. Os caras fumam maconha e depois ficam malucos, roubam, e matam,” diz.
Entretanto o cheiro da controversa substancia começa a sentir-se, e os desesperados consumidores europeus tentam aproveitar a oportunidade para comprar o 'fruto proibido', perguntando aos estudantes brasileiros se conseguem “arranjar um pouquinho,” mas sem sorte. Pouco depois um estudante acende um charro de meio metro, que resulta ser falso. Também as muitas plantas que os manifestantes erguem no ar não sao o que parecem: “tudo bem, não é marijuana, mas porque a marijuana e ilegal e esta planta não?” diz Valter. “Mas que planta e essa?” pergunta TerraViva. “Sei lá, e uma planta qualquer da Amazónia!” sentença Valter.
Antes da marcha os organizadores, megafone na mão, treinam os manifestantes com os sloganes que deverão repetir durante a longa caminhada: “Basta de morte, basta de prisão, queremos já a legalização!”. Porque? “Se legalizassem a maconha acabava-se com a violência,” explica o estudante Alan Sauer, que ato seguido acusa a classe politica: “O traficante não sai do morro, a maconha chega de avião, e depois sao os congressistas que ganham muito dinheiro com o fato dela ser ilegal,” explica. Atrás dele, um jovem montado sobre pernas de pau e afiando três catanas brinca com um companheiro “tamos preparados para a guerra.”
No Brasil não é considerado crime fumar, mas sim comprar, plantar, e possuir quantidades elevadas. Um carro da policia dispersa momentaneamente os manifestantes: não se trata de um ato de provocação, mas simplesmente de uma delegação oficial que esta de saida do fórum. Os policias e a delegação sorriem do interior do carro enquanto ouvem o berro coletivo: “O, policia, a maconha é uma delícia!” Louise, uma rapariga caminhando de charro na mão diz que no Brasil a marijuana pode levar a prisão, mas insiste em não sentir-se minimamente intimidada: “Não é por estar dentro do fórum, costumo fazer o mesmo na na rua,” explica.
“E uma questão da liberdade individual, e tem levado ao genocídio da sociedade, em função de proibirem só algumas drogas.” diz Renato Cinco, organizador dum coletivo que veio de Rio de Janeiro. O coletivo de Cinco juntou-se em Belém ao de outras cidades brasileiras lutando pela legalização de todas as drogas, e conjuntamente emitiram um comunicado que identifica o maior entrave a legalização na “moral religiosa reacionaria que ainda encontra grande espaço na nossa sociedade.”
Mas como o fórum é um espaço de enorme heterogeneidade social e ideológica, lá se cruzaram os manifestantes com nada mais nada menos que uma freira da congregação do preciosíssimo sangue. Num ataque prolongado de tosse, demora em responder a pergunta de TerraViva: “desculpe, e por causa do fumo,” justifica-se. Sónia e contra a legalização do Cannabis. “A maconha destrói a juventude que refugia-se nela quando na verdade tem tantos meios para viver uma vida espiritual independentemente de qualquer religião,” explica. Apressada, dirige-se a saída, na direcção contrária à dos manifestantes que marcham em frente, decididos. Afinal para muitos deles, o cannabis e uma questão espiritual, quase uma religião. (IPS/ TerraViva)

