Nova York, 07/04/2005 – Quando o porta-voz da ONU, Fred Eckhard, anunciou que o secretário-geral, Kofi Annan, falaria aos oito mil funcionários da instituição, lhe perguntaram se puniria quem lhe fizesse perguntas comprometedoras. "Isto não é um gulag", respondeu Eckhard. "É a Organização das Nações Unidas", disse. E, então, sob uma e chuva de críticas de meios de imprensa direitistas e neoconservadores dos Estados Unidos, Annan decidiu na terça-feira dirigir-se ao seu pessoal em um esforço para levantar a moral da organização, com sede em Nova York. "Sei que estes problemas lançaram uma sombra sobre nós. Não têm idéia da dor que significa para mim, como secretário-geral e como pai, ter de enfrentar esta situação", afirmou.
Em uma sessão de perguntas e respostas de uma hora, na sala da Assembléia Geral, Annan se mostrou afligido pelos escândalos que afetam sua organização. "Ver a instituição para a qual você trabalha atacada dia a dia, com ou sem razão, afeta a moral", disse aos funcionários. Guy Candusso, vice-presidente do sindicato do pessoal da ONU, disse à IPS que "muitos empregados tinham perguntas" para fazer a Annan, mas não tivera oportunidade. "Não deveria ser necessária uma crise para o secretário-geral se reunir com seu pessoal. Deveria fazê-lo mais regularmente, talvez mensalmente, ou a cada três meses", disse Candusso. Enquanto isso, os escândalos de má administração, corrupção, nepotismo e assédio sexual em todo o sistema das Nações Unidas resistem em desaparecer.
Talvez as críticas pessoais mais fortes ao secretário-geral têm a ver com as ligações de seu filho Kojo com uma companhia suíça que teve contratos com o programa Petróleo por Alimentos. Este programa permitiu ao Iraque vender quantidades limitadas de petróleo entre 1996 e 2003 para adquirir bens humanitários, como exceção ao embargo internacional que sofria nessa época. Uma comissão investigadora independente nomeada pelo Conselho de Segurança da ONU concluiu na semana passada que Kojo Annan não revelou ao seu pai o alcance de seus negócios com a empresa suíça Cotecna, e livrou de toda responsabilidade o secretário-geral pela irregularidades constatadas no programa iraquiano. Kofi Annan considerou "uma infelicidade" que seu filho "tenha aparecido associado de alguma forma com este programa" de petróleo por alimento.
"Vocês trabalham para uma grande organização. Não acreditem na caricatura que lhes é apresentada pela imprensa. Quero que todos nós sintamos orgulho da organização para a qual trabalhamos e de nosso trabalho, e tenhamos a determinação necessária para seguir em frente", afirmou. Além das irregularidades denunciadas no programa Petróleo por Alimentos, outros escândalos foram se acumulando sobre a ONU nos últimos meses. Iqbal Riza, ex-chefe de pessoal de Annan, foi acusado de destruir documentos de 1997. Riza argumentou que o fez porque estava ficando sem espaço em seu escritório. Embora a destruição de documentos seja rotina em uma organização que é uma verdadeira fábrica de papel, a acusação serviu para gerar diversas teorias conspiratórias.
Além disso, pelo menos dois dos subsecretários-gerais de Annan foram acusados de agirem de maneira inapropriada: um por utilizar o dinheiro obtido com o programa Petróleo por Alimentos para criar um novo posto para um compatriota de Cingapura, e outro por terminar em menos de 24 horas uma investigação que deveria ser feita com maior profundidade. Em fevereiro, outro subsecretário-geral, Ruud Lubbers, ex-primeiro-ministro da Holanda, foi obrigado a renunciar após ser acusado por várias funcionárias de assédio sexual. Na semana passada, foram conhecidos informes sobre uma série de abusos na Divisão de Assistência Eleitoral da ONU, que incluíam humilhação de funcionários, favoritismo e assédio sexual. Essa divisão supervisionou as eleições de janeiro passado no Iraque.
A todos estes escândalos somam-se acusações de violação e abuso sexual por parte de integrantes de missões de paz da ONU na República Democrática do Congo e no Haiti. Talvez, nenhum secretário-geral nos 60 anos de história das Nações Unidas tenha recebido tantas críticas quanto Annan. Muitos vêem por trás dessas acusações a mão do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, como represália pela oposição de Annan á guerra contra o Iraque. Mas, formalmente, Washington apóia o secretário-geral, como os demais 1919 países-membros. A questão é se um secretário-geral tão assediado tem capacidade política para levar adiante seu ambicioso plano, revelado no mês passado, para reestruturar de forma radical a organização. (IPS/Envolverde)

