Washington, 08/04/2005 – Os países em desenvolvimento devem se preparar para "repentinos" ajustes econômicos e reduzir suas reservas em divisas internacionais, diante do risco de despertarem os apetites financeiros e fiscais do Norte industrial, advertiu o Banco Mundial. O crescimento econômico mundial cairá este ano para 3,1%, devido ao aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, à valorização do euro e à queda na demanda de produtos do Sul, informou o Banco nesta quarta-feira, dois meses antes da posse de seu próximo presidente, o norte-americano Paul Wolfowitz. A instituição indicou em seu informe anual sobre "fluxos mundiais de financiamento para o desenvolvimento 2005" que o crescimento médio das nações do Sul cairá dos 6,6% de 2004 para 5,7% esse ano. Mas, estes números ainda estarão acima das tendências recentes.
Esta perspectiva será alvo de intensa discussão na próxima semana, quando se reunirem em conjunto as diretorias do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), na presença de dezenas de ministros de economia e finanças. A previsão sobre a economia mundial adiará o exame de outros assuntos próprios dessas agências, como a assistência, os empréstimos para estimular o desenvolvimento e a situação das reservas internacionais dos países pobres. O crescimento da Ásia oriental ficará lento este ano e no seguinte, segundo o Banco Mundial, mas, se manterá em níveis elevados, de 7,4% e 6,9% para cada um desses anos.
O aumento dos preços do petróleo incentivará o crescimento econômico da Rússia e de outras economias da Europa oriental e Ásia central que, em conjunto, será de 5,5% para este ano e de 4,9% para 2006. O freio do crescimento da América Latina e do Caribe será moderado, de 4,3% em 2005 e 3,7% no próximo ano, contra 5,7% de 2004, indica o estudo. Trata-se, de todo modo, de uma importante recuperação desde o 1,7% de 2003, impulsionada pelo avanço da produção no Brasil, Chile e México, bem como pela melhoria da Argentina depois da desvalorização em 39% de sua moeda em janeiro de 2002.
A economia da Ásia meridional crescerá 6,2% neste ano e 6,4% no próximo, enquanto Oriente Médio e África setentrional manterão sua tendência à desaceleração com 4,9% e 4,3% em 2006. Estas duas regiões foram as únicas do mundo em desenvolvimento onde no ano passado se registrou uma queda do crescimento econômico. Ainda assim, o avanço da Ásia meridional em 2004 foi de impressionantes 6,6%, mas, menor do que os 7,5% do ano anterior. O crescimento do Oriente Médio e da África setentrional caiu de 5,5% em 2003 para 5,1% no ano seguinte. O Banco Mundial prevê que o crescimento da África subsaariana se acelerará – de 3,8% em 2004 para 4,1% este ano e 4,0% em 2006 – mas, o rendimento dessa região ainda assim ficará abaixo do resto do mundo em desenvolvimento.
O Banco considerou que o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos e a valorização de 25% do euro em relação ao dólar desde fevereiro de 2002 continuarão determinando uma retração no crescimento econômico do mundo em desenvolvimento. Por outro lado, o produto interno bruto dos países industriais será de apenas 2,4% em 2005, acrescenta o estudo. Entre os riscos que a economia mundial enfrenta, de acordo com o Banco Mundial, figuram um possível aumento abrupto das taxas de juros norte-americanas, uma maior desvalorização do dólar e um aumento maior do que o previsto no preço do petróleo. Estes fatores não só ameaçam com um esfriamento da economia como, também, com uma recessão mundial, adverte o estudo do Banco.
"O atual desequilíbrio financeiro mundial supõe o risco de movimentos desordenados de divisas ou de aumentos de taxas de juros que ameaçariam estes avanços", disse o economista-chefe do Banco Mundial, François Bourguignon. "Os países em desenvolvimento devem se preparar para ajustes, alguns dos quais podem ser repentinos", acrescentou. A maior ameaça para o crescimento econômico mundial é o déficit de seu produto interno bruto. Além disso, as melhores vendas de produtos básicos – entre eles o petróleo – leva muitos países em desenvolvimento a adquirir reservas estrangeiras, um acúmulo que, segundo o Banco, os deixa desguarnecidos diante do risco de futuros movimentos cambiários.
"Como conseqüência, os países com reservas elevadas deveriam reavaliar a sustentabilidade desse acúmulo", afirmou a instituição. As reservas em divisas dos países em desenvolvimento cresceram US$ 378 bilhões, até atingir o recorde histórico de US$ 1,6 trilhão. Os maiores desses fundos são os da China (US$ 610 bilhões), Índia (US$ 125 bilhões) e Rússia (US$ 114 bilhões). "Já não é novidade que a economia mundial se comportou muito bem em 2005, com a maior expansão em quase 30 anos", disse o diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato. O crescimento do produto mundial no ano passado foi de 3,8%. Essa proporção chegou, no caso dos países em desenvolvimento, a 6,6%, impulsionada pela expansão exportadora da China.
O Banco Mundial atribuiu aos altos preços do petróleo e à valorização do euro a debilidade sofrida por vários países ricos no segundo semestre de 2004, entre eles Alemanha, Itália e Japão. Por outro lado, todas as regiões do Sul cresceram nesse mesmo ano num ritmo maior do que em toda a década passada. Em contraste com experiências anteriores de aumento de preços de produtos básicos, países em desenvolvimento como a China foram o motor da maior demanda nos últimos anos, indicou o Banco Mundial. Por outro lado, o fluxo de investimentos estrangeiros diretos desde os países em desenvolvimento aumentou de US$ 16 bilhões em 2002 para US$ 40 bilhões no ano passado. O grosso desse fluxo procede dos mesmos países que recebem a maior parte do investimento privados de capitais, como Brasil, China, México e Rússia. (IPS/Envolverde)

