Lisboa, 07/04/2005 – Nas últimas semanas, desde as eleições legislativas, ocorridas em 30 de Janeiro, em Bagdad – aliás eleições muito sui generis, sublinhe-se – a imprensa internacional tem feito eco do que não pode deixar de ser uma campanha organizada, por serviços de inteligência, insinuando na opinião pública esta idéia: afinal, talvez Bush tivesse tido razão, ao atacar o Iraque e ao destruir o regime do ditador Saddam Hussein.
Porquê? pergunta-se. Resposta: o caminho para a democracia começa a dar alguns sinais no Iraque e em outros países árabes, como no Líbano, para não falar no acordo incipiente que parece ter começado a esboçar-se entre Israel e a Palestina, problema chave do Oriente Médio. Por outro lado, velhas autocracias como a Arábia Saudita, a Síria e o próprio Egito parecem ter começado a tremer nos seus fundamentos…
Será assim? Só uma visão muito superficial e necessariamente interessada, na propagação dessa idéia, poderá pintar assim, tão cor de rosa, a realidade do que está ocorrendo no Iraque e em todo o Oriente Médio, bem como as nefastas – e gravíssimas – conseqüências da guerra "ilegal" do Iraque, como foi chamada por Kofi Annan. Vejamos…
Primeiro faz-se tábua rasa, ignoram-se as mentiras que justificaram o ataque ao Iraque: a existência, que se revelou falsa, de armas de destruição maciça na posse de Saddam Hussein e o pseudo-apoio do ditador do Iraque ao terrorismo islâmico ou global. Depois, finge-se desconhecer as devastações provocadas pela guerra do Iraque – no plano humano, civilizacional e material – e as suas nefastas conseqüências no plano do Oriente Médio, do chamado Ocidente e do Mundo em geral.
Porque a guerra preventiva e unilateral contra o Iraque – não nos esqueçamos – foi um verdadeiro divisor de águas para o Mundo, visto que veio colocar a prova valores essenciais, que julgávamos para sempre adquiridos, como o respeito pelo Direito Internacional, pelos Direitos Humanos, pelas Convenções de Genève, pelo plurilateralismo da ONU, pelo multiculturalismo e pelo diálogo ecumênico entre civilizações e religiões, com exclusão absoluta do recurso à força.
Para além das mortes que a guerra contra o Iraque provocou – tanto do lado muçulmano (incomparavelmente maiores) como do lado anglo-americano (mesmo assim não negligenciáveis) e das devastações civilizacionais – a destruição de um dos berços da civilização – e materiais, a guerra não só não acabou com o terrorismo global como,ao contrário, transformou o Iraque num campo de recrutamento e de treino de terroristas.
Mas o mais grave foi o desgaste que produziu em relação aos valores ocidentais, que considerávamos universais. A revelação de um choque de fanatismos de sinal contrário: o islâmico e o evangélico, o ortodoxo judaico e a intifada palestina. Ora quando se esquecem os valores, tantas vezes invocados, descredibilizam-se as causas e perde-se a autoridade moral, o pior que pode surgir numa confrontação.
Acresce que não é pensável – nem realista – pretender impor a democracia de cima para baixo, e sobretudo pela força das armas, que deixaram o Iraque em ruínas e pior ainda: criaram ressentimentos profundos, que não se apagam numa geração, entre as populações que as sofreram na carne.
Condoleezza Rice, no início do segundo mandato de Bush,disse: "que chegara a hora da diplomacia". Tratava-se de preparar a viagem de Bush à Europa, não para visitar os "amigos" – Blair, Berlusconi, Aznar, Barroso – esses estão cooptados e, portanto, contam pouco. Mas tão só para fazer "amende honorable" (pedir perdão) e distribuir sorrisos "la noblesse oblige". Traduzo: no "atoleiro" em que a América se meteu, importa tranqüilizar a "Velha Europa", Chirac, Schröeder e, curiosamente, Putin. Mas a turnê de George W. Bush não mudou nada de substancial, nem anulou as divergências de fundo quanto aos princípios e aos valores. Quando muito parece ter permitido que a União Européia "engolisse" Paul Wolfowitz para Presidente do Banco Mundial, um "falcão" ultraconhecido, agora com falas mansas… Uma vergonha! Como é muito negativo nomear John Bolton como embaixador junto da ONU quando se sabe que se trata de um ultra direita, que acha a ONU inútil e um empecilho para a política americana.
Será que as eleições alteraram alguma coisa de fundo no Iraque? Há uma Assembléia eleita, com larga maioria xiita, uma razoável representação curda e a constatação do apagamento dos sunitas. Isso irá funcionar? É o que veremos. Para já, constata-se a ironia da história: os xiitas vencedores, tradicionalmente muito próximos dos xiitas do Irã, certamente não estarão de acordo que o Irã continue incluído nos países do chamado "eixo do mal". É certo que os xiitas iraquianos já pediram, pela voz do seu mais alto representante, "a retirada dos americanos do Iraque". Mas como e quando? Agora que os países que enviaram tropas para o Iraque, aceitando a pressão americana, começam a retirar-se discretamente – dos italianos aos romenos e aos polacos?
Note-se que a retirada dos americanos, no estado atual, seria provocar de novo o caos, com uma provável secessão curda e o apagamento dos sunitas, inclinados a um certo laicismo, logo os muçulmanos mais próximos do Ocidente. Pelo contrário, a dominação xiita no Iraque trará, a prazo, fatalmente, uma aproximação com o Irã. Outra grande ironia da história…
Na Palestina a situação está longe de estar bem, embora tenham sido dados alguns passos no bom sentido, depois da morte de Arafat e do encontro entre Sharon e Abu Mazen. Estão marcadas eleições na Palestina para 17 de Julho. Mas segundo todos os observadores, as tensões internas estão longe de diminuir. O muro – que passa às vezes por dentro das próprias casas, dividindo-as – é uma vergonha inaceitável e um fator permanente de conflitos. Mais de quinze anos após a histórica queda do muro de Berlim!
Sharon está sendo atacado pelas facções de direita (ultras) do seu Partido e pelos ortodoxos a propósito da deslocação dos colonatos. Do lado palestino, pensa-se que será o Hamas, mais radical que vai ganhar as eleições. Donde resulta o reforço dos extremistas e o recuo dos moderados. Assim, os jogos estão longe de estar feitos…
Quanto ao Líbano, depois do assassinato do primeiro ministro Rafik Hariri, o Povo, cansado de conflitos, saiu à rua para reclamar por paz e democracia. Um bom sinal! Mas aí também, apesar da retirada parcial das tropas sírias, dada a pressão conjugada de americanos e europeus, a incerteza quanto ao futuro, parece continuar a ser a regra. O Hezbollah, continua a dar cartas e os drusos, de Walid Jumblatt voltaram a reivindicar o seu lugar, o que anuncia novas complicações à vista.
Concluindo, Bush não tem razão para cantar vitória, nem para tentar fazer crer que fez avançar a democracia – e muito menos a paz – no Oriente Médio. Para não falar dos problemas econômicos internos, que a guerra agravou e do desprestígio que continua causando a sua administração com as políticas desastradas, unilateralistas e agressivas que continuamente promove.
* Mário Soares é ex-presidente de Portugal

