DESENVOLVIMENTO: Cooperação suíça enfrenta a depressão

Berna, 10/02/2009 – A crise econômico-financeira mundial acentua as incógnitas na equação da ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD), pois crescem as duvidas sobre a manutenção do volume global dessa assistência e, ao mesmo tempo, surgem incertezas sobre as novas necessidades que o fenômeno acarretará. A quantia da ajuda aos países pobres, que em 2007 chegou a US$ 117,576 bilhões, pode diminuir em até um terço devido à crise, segundo previsões de especialistas. Entretanto, o chefe da Direção de Desenvolvimento e da Cooperação (DDC) da Suíça, Martin Dahinden, minimizou o risco de uma redução desses fluxos.

Naturalmente agora há temores sobre os volumes disponíveis para a cooperação ao desenvolvimento, reconheceu o diretor da DDC à IPS. Mas, “não sou nada pessimista, como outros”, afirmou. Na Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, realizada em Doha no começo de dezembro passado, “quando já estávamos conscientes da crise econômica e financeira, todos os países doadores tradicionais ratificaram seu apoio firme”, recordou Dahinden. E, no momento, não vemos uma redução, insistiu. Por outro lado, é provável que com a depressão surjam necessidades muito maiores, acrescentou o diplomata suíço. Nesse caso, a questão é saber se essas necessidades podem ser atendidas com os recursos disponíveis, acrescentou.

Por outro lado, Dahinden se declarou muito otimista a respeito da cooperação da Suíça, país que em 2007 destinou 0,37% de seu produto interno bruto à ajuda ao desenvolvimento dos países pobres. O orçamento da DEC para este ano chega a 1,4 bilhão de francos suíços, mais de UD$ 1,2 bilhão. O otimismo de Dahinden se baseia em uma decisão do parlamento suíço que em dezembro último, depois da eclosão da crise, cobrou do governo um aumento da ajuda pública ao desenvolvimento até 0,50% do PIB.

O Legislativo convidou o governo a apresentar um projeto de lei estabelecendo a nova contribuição. A DDA prepara o rascunho que será levado ao parlamento neste semestre, de maneira que possa ser votado antes do final de 2009. A Organização das Nações Unidas recomendou em 1970 às nações industrializadas que contribuíssem para a ajuda oficial com 0,70% de seu PIB. Os dados de 2007 indicam que apenas cinco países haviam alcançado esse objetivo.

Na oportunidade, a Noruega liderava, com uma ajuda de 0,95%, seguida da Suécia com 0,93%, Luxemburgo 0,91% e Holanda e Dinamarca com 0,81% do PIB de cada um. Em último lugar estavam os Estados Unidos com 0.16%. A cooperação suíça, que dedica seus programas de ajuda aos países do Sul e da Europa oriental, incluídas algumas ex-repúblicas soviéticas, estima que as consequências da tríplice crise, financeira, alimentar e climática, atingem em especial as populações dos países em desenvolvimento ou em transição.

O descalabro financeiro originado nos países do Norte prejudica o mundo em desenvolvimento porque dificulta o acesso aos pequenos créditos e suspende os investimentos estrangeiros diretos programados. A queda dos preços e da demanda dos produtos básicos influi no aumento dos impostos sobre exportações, segundo a DDC. Dahinden destacou o problema das remessas de dinheiro feitas por imigrantes aos seus países de origem, geralmente para o sustento de seus familiares. Uma questão frequentemente subestimada, mas que globalmente representa mais que o triplo de toda ajuda oficial ao desenvolvimento, afirmou.

Uma diminuição das remessas afetará os países em desenvolvimento, embora nem todos igualmente, acrescentou Dahinden. O diretor da DDC se referiu especialmente ao México, “duramente afetado pelo que está ocorrendo nos Estados Unidos”, origem da depressão que afeta o mundo. Dahinden disse à IPS que a cooperação suíça tentará influenciar as políticas das instituições multilaterais de maneira a beneficiarem os países mais afetados. Por outro lado, nos preocuparemos em adaptar os programas e os projetos da cooperação suíça para que seus benefícios alcancem os que mais necessitam deles.

A Bolívia é um dos países prioritários para a DCC, que decidiu aumentar seus programas nessa nação andina. Esses investimentos irão se concentrar nas regiões rurais, onde residem as populações mais pobres, explicou Dahinden. Dois fatores prejudicam a Bolívia. Por um lado despencam os preços e a demanda de suas matérias-primas de exportação e, por outro, quase um quarto da população que trabalha no exterior deixará de enviar dinheiro ou reduzirá as remessas. Muitos desses imigrantes regressarão ao país, onde não encontrarão emprego, previu.

A cooperação alertou também que a redução da renda fiscal e o custo dos programas conjunturais reduzirão os recursos orçamentários que os países doadores do Norte destinavam à ajuda ao desenvolvimento. Dessa maneira, se colocará em perigo a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos em 2000 pelos governos na ONU com a finalidade de diminuir a pobreza, o analfabetismo, doenças, as desigualdades e outros males sociais, disse a DDC. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *