Jerusalém, 11/02/2009 – As campanhas eleitorais em Israel costumam se caracterizar por debates explosivos, contrastes ideológicos e rivalidades acesas entre o religioso e o secular.
Entre os judeus, enorme maioria do eleitorado, a guerra de 22 dias contra o Hamas em Gaza teve um apoio quase universal. A “política de paz” ficou relegada quase ao status de tabu, mesmo em partidos manifestamente pacifistas, como o esquerdista Meretz. Seu lema de campanha foi “não transigiremos”, embora sem se referir às negociações de paz, mas que marca posição frente ao arrasador sentimento nacionalista que dominou a curta campanha eleitoral.
“Lamentavelmente, nenhum dos principais candidatos para dirigir Israel apresentou nada remotamente esperançoso sobre o processo de paz”, disse o primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina, Salman Fayyad. Nenhum lema de campanha se referiu à esperança e à ilusão, como as lançadas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.estes conceitos não estão em lugar algum, mas sim o medo e a “necessidade de firmeza”, tanto nas campanhas quanto na boca dos eleitores.
É provável que isso se reflita em outro grande giro da população à direita, o que caracterizou as últimas três eleições israelenses depois da eclosão, em 2000, da segunda intifada (revolta popular palestina contra a ocupação). O paradoxo é que, nesta ocasião, os israelenses não enfrentam a ameaça iminente de atacantes suicidas nem terroristas. Pelo contrário, a maioria dos entrevistados pelos institutos de pesquisa diz que teria sido preferível manter a guerra em Gaza até a total eliminação da ameaça do Hamas, mas, também reconhecem que a capacidade de dissuasão de Israel aumentou e que a segurança também aumentará com o iminente acordo que tem o Egito como mediador.
Um jornalista perguntou ao líder do Partido Trabalhista, ex-primeiro-ministro e atual ministro da Defesa, Ehud Barak, de que se tratavam estas eleições. “Para dizer em uma palavra, de liderança”, respondeu. Tanto ele quanto os dois grandes candidatos a primeiro-ministro (Benjamin Netanyahu, do direitista Likud, e Tzipi Livini, do Kadima, de centro-direita) querem convencer os eleitores de que são capazes de assumir os desafios, em tempos de grande ressentimento do eleitorado pelo que vê como uma grande distância entre os políticos e os cidadãos comuns.
Mas o problema vai além disso. No jornal mais vendido do país, o Yediot Ajronot, o colunista Nahum Barnea recordou que numerosos dirigentes costumam alertar que para Livni a chefia do governo é um cargo “muito grande”. Também ironizou os demais candidatos. “Podemos dizer o mesmo sobre Netanyahu e Barak. Seus retratos nas vias púlicas podem ser grandes, mas seu tamanho fica eclipsado pelos enormes problemas que Israel enfrenta hoje: Irã, crise econômica…”, escreveu.
As pesquisas destacam que no último trecho da campanha, quase 20% dos eleitores ainda anão declaravam sua intenção de voto. As pesquisas constataram duas tendências. Primeiro, à direita, uma fuga de votos do Likud ao racismo de extrema-direita do partido Israel Beiteiun (Israel nossa casa), de Avigdor Lieberman. A segunda, um fechamento da brecha entre Likud e Kadima, embora as pesquisas do último fim de semana dessem vantagem muito pequena para permitir falar em um resultado.
Alguns analistas políticos estão alarmados porque o sistema está muito perto de ser funcional. É possível que o próximo primeiro-ministro receba hoje menos de 25% dos votos. A maioria dos especialistas prevê que, mesmo se o Kadima vencer o Likud, Livni terá uma grande dor de cabeça se o presidente, Shimon Peres, lhe der a missão de formar uma coalizão de governo estável. Em qualquer hipótese, o bloco direitista (do Likud para a direita, incluídos os partidos judeus ortodoxos) tem uma inquestionável vantagem sobre o centro e o centro-esquerda.
Livni não se deixa intimidar. “Dividir o mapa político em direita e esquerda é antiquado. Fora de moda. Se vencer o Likud teremos ganho. Teremos direito a formar o novo governo e o faremos”, afirmou ontem. Mas, em um sistema eleitoral como o de Israel, onde rege a representação proporcional absoluta e, portanto, todo voto conta, a afirmação de Livni soa oca. Por outro lad, Netanyahy voltou à sua habitual grandeloquência, a mesma que levou muitos eleitores tradiconais do Likud a rejeitá-lo há três anos, quando obteve um catastrófico resultado eleitoral. Quem tem mais possibilidades de conduzir o próximo governo, segundo as pesquisas, é Netanyahu. (IPS/Envolverde)


