ALIMENTAÇÃO: É preciso melhorar a qualidade da ajuda aos países pobres

Roma, 26/02/2009 – Quase cinco milhões de crianças morrem por desnutrição no Sul pobre a cada ano antes de completar 5 anos de idade. A ajuda alimentar, pródiga em carboidratos pouco nutritivos, não serve para minimizar a falta de uma dieta diversa. A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras pediu urgência aos governos no sentido de melhorarem a qualidade da ajuda ao mundo em desenvolvimento e incentivarem a segurança alimentar. Mas, também é preciso investir na agricultura de pequena escala nos países africanos para garantir a autonomia alimentar e combater a desnutrição no longo prazo.

Mais de 20 milhões de crianças sofrem de má nutrição severa nos países pobres. A causa de metade dos 9,7 milhões de mortes de menores de 5 anos é essa, segundo a Organização Mundial da Saúde. Custará US$ 5 bilhões, somente em um ano, alimentar os menores de 3 anos nos países em desenvolvimento, afirmou o MSF. A má nutrição não é apenas uma questão de quantidade, mas de qualidade. É particularmente grave em áreas como o Sahel africano, onde as crianças carecem de uma dieta diversa em minerais, proteínas e vitaminas. Em muitas nações em desenvolvimento, as famílias dependem excessivamente de alimentos com milho e sorgo.

“O primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, reduzir pela metade a pobreza e a fome até 2015, e o quarto, reduzir em dois terços a mortalidade infantil no mesmo prazo, estão fortemente ligados. A fome influi diretamente sobre a mortalidade infantil”, disse o gerente de programas do MSF, Huub Verhagen. “Além disso, a má nutrição é mundialmente subestimada como problema, e nem mesmo é especificamente mencionada nos Objetivos como uma das causas da mortalidade infantil”, acrescentou.

Essas metas, definidas em 2000 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, incluem reduzir à metade a proporção de pessoas que sofrem pobreza e fome em relação aos índices de 1990; garantir educação primaria universal; promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e materna. Também figuram dos objetivos combater a Aids, a malaria e outras doenças; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento, tudo isto com 2015 como data limite.

Proporcionar qualquer alimento para encher o estômago dos famintos não é suficiente para solucionar o problema. A assistência alimentar deve ser diversa para formar uma base nutricional sã, recuperar a força dos que sofreram fome, ganhar peso e reconstruir sua musculatura. Mas, a maior parte da ajuda que atualmente é enviada a regiões de fome e pobreza generalizadas é composta por alimentos produzidos com cereais, ricos em carboidratos, mas pobres em vitaminas, que foram desenvolvidos há mais de 30 anos.

Esses alimentos “estão completamente abaixo do padrão, porque carecem dos nutrientes e das proteínas corretas que as pessoas nutridas necessitam”, explicou Verhagen. Também sugeriu que os governos e as agências de assistência se concentrem em alimentos muito nutritivos especialmente produzidos para que os desnutridos se recuperem com rapidez.

Abaixo do padrão

Em grande parte, a fome e a má nutrição na África continuam sem solução por motivos políticos, explicou Verhagen. Os governos resistem em reconhecer o alcance do problema e não estão dispostos a investir em ajuda porque “os alimentos são um tema politicamente delicado. Frequentemente, a fome parece financeiramente impossível de ser resolvida, por isso os governos procuram jogá-la para debaixo do tapete. Não querem atrair a atenção mundial para o fato de serem incapazes de alimentar suas populações”, ressaltou o representante do MSF. O governo da Nigéria, por exemplo, proibiu esta organização de analisar a desnutrição no país.

Em última instância, a fome não é evitada fornecendo assistência alimentar de alta qualidade, mas permitindo que as pessoas alimentem a si mesmas, através de investimentos na agricultura local. “A ajuda alimentar é uma forma necessária de alívio de emergência, mas deveria ir além de uma solução rápida. Precisamos desenvolver políticas econômicas de longo prazo para abordar o problema”, acrescentou Verhagen. Infelizmente, este não é o caso nas últimas duas décadas.

“Houve uma importante redução na destinação de fundos para a agricultura, apesar de no mundo haver mais de um bilhão de famintos”, disse Laurent Thomas, diretor de operações de emergência da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). “A má nutrição se tornou uma emergência crônica”, acrescentou Thomas. São necessários US$ 30 bilhões ao ano para combater a fome no mundo, mas esse investimento não acontece, ressaltou.

Emergência crônica

Houve poucos avanços no aumento do apoio à agricultura, especialmente a pequenos camponeses de países pobres, e nenhum no aumento de produção alimentar. “Se queremos reduzir a fome, isso deve acontecer antes”, disse Thomas. “Os programas como o Programa Mundial de Alimentos (PAM) hoje não são factíveis porque levam alimentos aos países de uma maneira muito cara”, concordou Pio Wennubst, segundo da delegação da Suíça junto a esta agência da ONU, à FAO e ao Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida).

“Esse dinheiro poderia ser investido em agricultura, para que as pessoas plantem e comam alimentos produzidos localmente”, afirmou Wennubst. Os programas internacionais de assistência precisam incluir cláusulas de proteção da agricultura dos países em desenvolvimento, particularmente a de pequena escala, e torná-las sustentáveis, explicou. Mais de 80% das terras agrícolas no mundo são cultivados por minifundiários com menos de dois hectares, segundo a Fida. Mas esses camponeses, em sua maioria mulheres, em geral carecem de acesso a irrigação, infra-estrutura e mercados para distribuir e vender seus produtos. Além disso, devido à discriminação de gênero, com frequência as mulheres não conseguem os títulos de suas propriedades nem têm acesso a empréstimos e recursos.

Dessa forma, seus rendimentos e suas vendas são muito reduzidos. “A agricultura de pequena escala tem rosto de mulher”, disse a conselheira sobre gênero e segurança alimentar domestica do Fida, Annina Lubbock. “As mulheres produzem entre 60% e 80% dos alimentos do mundo, mas seu trabalho não é reconhecido”, acrescentou. Thomas concordou. Paradoxalmente, a maioria dos famintos são os que produzem os alimentos. Para abordar as causas da crise alimentar precisamos apoiar os produtores de pequena escala e os donos de animais de criação”, afirmou.

Os governos e as agências de assistência necessitam implementar políticas e programas de longo prazo que busquem aumentar a capacidade de produção dos agricultores, reclamou Thomas. “A boa notícia é que a recente crise criou uma renovada consciência internacional em torno da importância da produção alimentar local, e não tanto em construir redes de segurança”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Kristin Palitza

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