Pequim, 08/04/2005 – A morte de João Paulo II, que dedicou longos anos de seu pontificado a combater o comunismo, poderia provocar um degelo diplomático entre o Vaticano e a China, mais de 50 anos depois de Pequim ter expulso todos os sacerdotes estrangeiros e cortado os vínculos com a sede da Igreja Católica. Mas, as esperanças de restauração desses vínculos são limitadas devido à rígida insistência chinesa para que seja o governante Partido Comunista, e não o Vaticano, o responsável pela designação de todos os bispos católicos no país. A notícia de que o presidente de Taiwan, Chen Shui-bian, participará dos funerais do papa nesta sexta-feira complicaria a já tensa situação. O Vaticano é o único aliado diplomático na Europa de Taiwan, a quem Pequim considera uma província rebelde.
As expectativas de que o sucessor de João Paulo II normalize os vínculos com a China aumentaram esta semana quando o chefe da Igreja em Hong Kong anunciou à sua congregação e à imprensa local que o Vaticano está disposto a sacrificar as relações diplomáticas com o país para poder se aproximar de Pequim. "A Santa Sé pensa em cortar relações com Taiwan. É uma decisão difícil, mas está decidida a fazê-lo", teria dito o bispo Joseph Zen Ze-kiun em uma missa em memória do papa realizada em Hong Kong. Por outro lado, o Vaticano obteria maior liberdade religiosa para os católicos dentro da China, sugeriu Zen, acrescentando que "o bispo de Taiwan entende isto, porque se a Santa Sé não estabelecer vínculos diplomáticos com a China, os católicos desse país não terão liberdade".
Por sua vez, o escritório de imprensa do Vaticano informou que todas suas atividades e iniciativas diplomáticas estarão suspensas até que o conclave, que se reunirá a partir do dia 18, escolha o novo papa. Porém, dois dias depois da morte de João Paulo II, o cardeal belga Godfried Daneels viajou a Pequim para se reunir com Ye Xiaowen, diretor-geral da Administração Estatal de Assuntos Religiosos, e depois foi recebido pelo vice-primeiro-nministr, Hui Liangyu. Considerado um dos principais candidatos a suceder João Paulo II, o cardeal provocou especulações sobre uma possível aproximação entre Pequim e o Vaticano. Sua reunião com Hui foi uma das de mais alto nível realizadas na China continental entre um religioso católico e um funcionário do governo chinês.
Por várias vezes o Vaticano esteve prestes a retirar o reconhecimento de Taiwan, a última vez foi em 2001, quando o papa se desculpou em nome da Igreja Católica pelos erros cometidos e pela dor causada aos chineses durante seu passado colonial. O ato de contrição papal foi incluído em uma mensagem a uma conferência sobre Matteo Ricci, o sacerdote jesuíta que introduziu o catolicismo na corte imperial chinesa há mais de 500 anos. João Paulo II disse que a proteção de poderes políticos europeus havia limitado a liberdade de ação dos missionários cristãos e os impedira de cumprir sua missão de serviço ao povo chinês. Apesar disso, as delicadas negociações desmoronaram quando Pequim minimizou o chamado do pontífice à reconciliação, declarando que não era suficiente porque o papa não havia se desculpado pela canonização de mártires católicos em 2000. O Vaticano canonizou 120 mártires no dia 1º de outubro daquele ano, feriado nacional chinês, afirmando que foram assassinados durante a Rebelião dos Boxer de 1900 por lealdade à sua fé.
Por outro lado, Pequim afirma que se tratava de "traidores" que foram executados por quebrarem a lei quando forças estrangeiras invadiram a China, depois do levante. Cerca de cinco milhões de católicos chineses estão registrados como membros da Igreja Patriótica Chinesa, controlada pelo governo, e calcula-se que outros oito milhões pertencem a uma igreja clandestina que reconhece o papa. A China prendeu numerosos sacerdotes católicos que se negaram a renunciar a lealdade ao pontífice, perseguindo seus seguidores e demolindo igrejas. O governo também impõe severos limites ao número de seminários de formação sacerdotal. Além disso, Pequim insiste em afirmar que tem o direito exclusivo de designar sacerdotes e bispos dentro da China.
Enquanto o cardeal Daneels se encontrava em visita a Pequim, o Vaticano denunciou que dois bispos católicos idosos, um sacerdote e um laico católico haviam sido presos na China. Este país insiste em duas condições para normalizar os vínculos com o Vaticano: que este retire seu reconhecimento a Taiwan e que prometa não interferir nos assuntos internos chineses, inclusive os religiosos. "Estamos dispostos a melhorar nossas relações com o Vaticano desde que corte seus vínculos diplomáticos com Taiwan e não interfira em nossas questões internas em nome da religião", confirmou na terça-feira Qin Gang, porta-voz da chancelaria chinesa. (IPS/Envolverde)

