Lilongwe, 25/03/2009 – As autoridades de Malawi temem que apenas metade dos portadores do bacilo da tuberculose tenha acesso a exames e ao tratamento. Mas, não podem estar certos de nada: nem mesmo possuem estatísticas sobre o alcance da doença. O especialista Daniel Nyangulu, assessor técnico do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, calculou que esta enfermidade é uma das mais mortais no país, junto com malária e HIV/Aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida).
Às vésperas do Dia Mundial de Combate à Tuberculose, nessa terça-feira, o Programa calculou que “a cada ano são tratadas até 30 mil pessoas e oito mil morrem devido à doença”, disse Nyuangulu. “É um enorme problema de saúde pública”, lamentou. Este mal se agravou muitíssimo desde a década de 80, quando os centros de saúde registravam apenas cinco mil pacientes ao ano. Os temores de que apenas metade dos infectados tenham acesso ao tratamento são apoiados pela Organização Mundial da Saúde, segundo a qual em 2008 houve mais de 50 mil novos casos de tuberculose no país.
A OMS recomenda como meta a cura de 85% dos portadores da doença. Malawi está a apenas 13% do total para atingir essa meta. Mas, todos os dados existentes são apenas estimativas. Assim, o Programa Nacional de Controle da Tuberculose iniciou uma campanha para proporcionar acesso universal aos exames e ao tratamento. Em áreas rurais de difícil alcance, onde não há centros médicos, foram instalados pontos para coleta de material destinado a exame.
Membros das comunidades locais se oferecem como voluntários para coletar material de pessoas com sintomas de tuberculose. Depois, o transportam ao centro de saúde mais próximo para exame. Segundo a Organização das Nações Unidas, até 85% da população de Malawi vivem em áreas rurais, onde 60% dos moradores estão abaixo da linha de pobreza de um dólar por dia. Para essas pessoas é difícil buscar tratamento médico quando precisam, especialmente se as instalações de saúde pública ficam longe de suas aldeias e carecem de dinheiro para a viagem.
“Mediante estudos descobrimos que a maioria dos moradores das aldeias não tem fácil acesso a serviços como exames para tuberculose. Isto se deve, principalmente, às distancias para chegar aos centros de saúde mais próximos, e também aos altos níveis de pobreza”, explicou Nyangulu. Os moradores de áreas rurais têm de se deslocar em média cinco quilômetros para chegar a um hospital ou clinica. A falta de conhecimento sobre a tuberculose também contribui para que poucos habitantes de Malawi sejam submetidos a exames, disse Nyangulu.
A maior parte da população rural carece de informação sobre a enfermidade e não reconhece os sintomas. A comunidade rural de Mtsiriza, na periferia de Lilongwe, se beneficiam das iniciativas de acesso universal lançadas pelo Programa Nacional de Controle da Tuberculose. Agora que foram criados ali centros de coleta de material para exame, a população comparece maciçamente. O Programa também incentiva serviços de cuidados em casa, feitos por voluntários da comunidade que observam e acompanham o tratamento dos pacientes com tuberculose.
John Chiguduli, de 48 anos, é um dos pacientes curados da tuberculose após ter a doença detectada no novo centro de Mtisiriza. “Estive doente por cerca de um ano, e não pude trabalhar. Me sentia muito fraco, mas não tinha acesso a serviços de exames porque o hospital está longe daqui e não tinha dinheiro para transporte. Somente diagnosticaram a doença quando foi criado um centro médico em minha aldeia”, disse à IPS. Chiguduli acredita que o que salvou sua vida foi a iniciativa do Programa de levar cuidados médicos à população, em lugar de esperar que esta chegasse aos postos habituais. “Quase morri. Os serviços de exames chegaram à minha região em tempo de me salvar”, disse Chiguduli, que agora pode trabalhar novamente em suas terras.
A iniciativa comunitária também promove a análise para todos os membros de uma família onde há um paciente com tuberculose, especialmente as crianças. Além disso, o Programa oferece “exames ativos” em seus centros de exames de tuberculose, o que significa que os exames de HIV sejam feitos em combinação com os primeiros. Deste modo, o governo tenta identificar a grande quantidade de co-infecções de tuberculose e HIV, que o Ministério da Saúde estima em 77%.
O Programa também estabeleceu centros de cuidados imediatos nas principais clinicas dopais, como os hospitais de especialidades, para permitir que a população tenha acesso a serviços de exames sem enfrentar longas filas. As horas de espera nos hospitais costumam ser muitas, porque Malawi enfrenta uma séria escassez de pessoal da área de saúde. O ministério indica que até 120 enfermeiros e enfermeiras registrados abandonam o país a cada ano, em busca de melhores salários no mundo em desenvolvimento. Atualmente, um enfermeiro, ou enfermeira, cuida de 50 pacientes, enquanto não há nem mesmo um médico para cada 64 mil, segundo o ministério.
Além de levar os exames sobre tuberculose para as áreas rurais como parte de sua estratégia para atingir o acesso universal, o Programa faz esforços especiais para fornecer exames a outros pontos onde a doença prolifera, como as prisões. “A maioria das prisões do país tem superpopulação, e isso as transforma em um caldo de cultivo para a tuberculose”, disse Nyangulu. Agora as autoridades carcerárias são incentivadas a oferecer o exame a cada novo prisioneiro, bem como fornecer regularmente esse serviços a todos os detentos, acrescentou.
Mas os especialistas em saúde veem que os esforços para deter a tuberculose serão menos efetivos se Malawi não tiver estatísticas precisas sobre a situação da doença no país. Assim, o Ministério da Saúde pretende iniciar um estudo sobre prevalência nacional este ano. “Precisamente agora temos apenas estimativas, mas precisamos de dados específicos para poder tratar todos os casos adequadamente”, disse Nyangulu. IPS/Envolverde

