CIDADE DO CABO, 31/03/2009 – As igrejas da África do Sul e da Alemanha estão a questionar de forma critíca a globalização neo-liberal, um processo que elas querem promover ao nível das Nações Unidas e também entre os fiéis “de forma a estimular a responsabilidade entre os povos por aquilo que está a acontecer no mundo”. Em 2004, a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas (WARC) adoptou a Confissão de Acra, uma apreciação rigorosa da ordem mundial capitalista neo-liberal. O planeta e a sociedade humana são vistos como estando a passar por uma crise devido a crenças neo-liberais que apontam que “a concorrência desenfreada, o consumismo, o crescimento económico sem limites e a acumulação de riqueza são a melhor coisa para todo o mundo”.
Segundo a Confissão de Acra, estas crenças indicam que “a posse de propriedade privada não implica obrigações sociais, podendo a especulação de capital, a liberalização, a não existência de regras no mercado, a privatização de companhias públicas e recursos nacionais, o acesso sem restrições a investimento estrangeiro e a importações, os impostos mais baixos e o movimento de capital sem limites criar riqueza para toda a gente”.
Além disso, o neo-liberalismo é criticado por sugerir que “as obrigações sociais, a protecção dos pobres e dos fracos, os sindicatos e as relações entre pessoas estão subordinadas aos processos de crescimento económico e de acumulação de capital”.
A Confissão de Acra critica a globalização neo-liberal por “reivindicar que não existem alternativas e por exigir inúmeros sacrifícios aos pobres. Também insiste na falsa promessa que pode salvar o mundo através da criação de riqueza e prosperidade, reclamando uma supremacia sobre a vida e exigindo lealdade total, o que equivale à idolatria”.
Depois da Confissão ter sido adoptada em Acra, capital do Gana, país da África Ocidental, começaram a surgir tensões entre as igrejas acerca deste documento.
Com vista a promover um entendimento mútuo sobre estas questões, a Igreja Reformada Unida da África do Sul e a Igreja Reformada Evangélica da Alemanha estão a trabalhar em conjunto naquilo que é conhecido como “o projecto de globalização”.
O objectivo do projecto de três anos consiste em analisar a melhor forma de divulgar o entendimento da globalização neo-liberal através das igrejas, congregações, pastores e organizações da sociedade civil, para que as pessoas comuns possam começar a falar destas matérias e a assumir responsabilidade por elas.
A Confissão de Acra seguiu o modelo adoptado pelas igrejas reformadas negras sul africanas. Em 1982, elas adoptaram a Confissão de Belhar que condenava o apartheid. Naquela altura, o clérigo fundador da organização anti-apartheid intitulada Frente Democrática Unida, Dr. Allan Boesak, dirigiu o processo.
O projecto de globalização é chefiado por Boesak e pelo seu homólogo alemão, Johann Weusmann, vice-presidente da Igreja Reformada Evangélica. Recentemente, realizaram o seu segundo encontro conjunto, onde investigadores académicos e representantes da sociedade civil apresentaram as suas comunicações, juntamente com teólogos.
Faith Manuel falou com Boesak, que lidera este projecto na qualidade de professor extraordinário no Centro de Teologia Pública Beyers Naudé da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul.
IPS: Esta crise económica mundial será uma afirmação daquilo que as igrejas avisaram em 2004?
Allan Boesak: A WARC previu alguns destes problemas em 2004 e chamou a atenção para eles. Falámos de idolatria – esta situação de agir como se o mercado fosse Deus, de aceitar que o mercado dê “ordens”, que “responde”, como se o mercado fosse uma divindade e como se nós estivessemos à sua mercê.
Agora podemos mostrar que esta divindade tem pés de barro. Os efeitos do colapso dos mercados financeiros na Europa podem ser vistos por todos.
A crise financeira é o resultado directo do desejo desmedido do capitalismo mundial de não ser regulado – o chamado mercado livre –, essa entidade básica segundo a qual o mercado dita tudo. As pessoas e as suas necessidades não são importantes. O mercado vai responder.
O mercado faz isto e faz aquilo – a isto a igreja chamou idolatria em 2004. Tem havido uma quase escravidão às exigências do capitalismo nos últimos anos.
IPS: Falemos na construção do projecto de globalização e das ideias por detrás deste projecto.
Allan Boesak: A WARC continua sensível a questões como justiça e injustiça e a questões que estão sob a nossa alçada no mundo, a níveis diferentes e sobre diversas matérias. Assim, começámos a reflectir acerca deste fenómeno chamado globalização que foi encorajado pelo capital mundial.
O que é que dizemos sobre a guerra e da paz e sobre o papel das igrejas – a chamada guerra contra o terror? O que é que acontece se toda a gente aceitar a militarização? Para um país do terceiro mundo é muito simples. Cada dólar que é gasto em armas não pode ser gasto na saúde, educação, criação de empregos e alimentação.
Os efeitos destas decisões nos últimos anos têm sido terríveis. Não há outra forma de descrever a situação. As igrejas levantaram a sua voz para explicar que apenas um número restrito de pessoas beneficia da globalização – um pequeno número de países ricos no Norte.
Nos países subdesenvolvidos existe uma classe elitista que beneficia mas as massas continuam pobres e estão a ficar mais pobres. A distância que separa os países ricos e pobres continua a crescer, assim como a distância que separa os ricos e pobres em países como a África do Sul.
IPS: Quais são as questões que mencionou em termos das suas deliberações até este momento? Em que ponto se encontra?
Allan Boesak: Discutimos questões como este fenómeno bizarro segundo o qual a União Europeia, um bloco de países ricos e poderosos do Norte, enceta negociações comerciais com um único país, como a África do Sul, apelidando-as de “bilaterais”.
Apresentámos certas questões tais como osmercados financeiros que costumavam controlar o mundo e que entraram em colapso desde que iniciámos este projecto. Também falámos da militarização global e do impacto da globalização sobre o género. Estamos a meio caminho.
Os defensores da globalização dizem, “é como se fosse um tsunami. Não se pode parar. Os governos quase que não têm poder”. O governo sul africano (por exemplo) “não tem poder” porque as corporações transnacionais só precisam de ameaçar retirar os seus investimentos e encerrar fábricas.
Descobrimos que não é verdade que os governos nacionais não tenham poder. Isto quer dizer que os povos numa democracia não deixam de ter poder.
O aspecto desanimador é o facto de nos encontrarmos só a meio caminho e irmos descobrindo coisas às quais não podemos dar atenção suficiente mas que podem ser cruciais. Por exemplo, não vamos poder dar atenção à questão importantíssima da religião.
IPS: Então quais são as alternativas?
Allan Boesak: A igreja está a começar a compreender que o capitalismo neo-liberal não é aquilo que pretende ser. Não é uma fase inalterável da história sobre a qual ninguém pode fazer nada.
Começamos a ver que, se é verdade que podemos reivindicar o espaço democrático nos nossos países, onde vivemos e trabalhamos, isso quer dizer que podemos ajudar as pessoas a compreender a forma como devem desafiar a situação existente – seja através do protesto, da educação, da analíse critica dos meios de comunicação ou da união entre as igrejas.
IPS: Qual é o destino deste projecto?
Allan Boesak: Se eu conseguir o que quero e se o projecto avançar, o nosso relatório final não será só entregue às nossas duas igrejas mas também será encaminhado para a WARC e todas as igrejas membros da organização no próximo ano.
Também pedimos ao (eminente) Arcebispo Desmond Tutu e ele disse que sim, que é uma boa ideia entregar este assunto ao Grupo dos Mais Velhos, de que é presidente. Através desse grupo esperamos levar o processo até as Nações Unidas (O grupo dos Mais Velhos é composto por líderes mundiais como Desmond Tutu e Nelson Mandela, entre outros, que dão conselhos sobre problemas globais).
Assim podemos levar esta questão à ribalta mundial e explicar que esta é a forma como as igrejas responderam aos desafios que são nossa responsabilidade como cidadãos do mundo, especialmente em termos do que está a acontecer no mundo e aos seus povos.

