ECONOMIA: Apostas muito altas para o G-20

Washington, 31/03/2009 – As conversações sobre a crise econômica mundial, que acontecerão na próxima quinta-feira em Londres, podem acabar sendo uma oportuna recordação do perigo que significa gerar excessivas expectativas sobre um encontro internacional. Gordon Brown, primeiro-ministro da Grã-Bretanha e anfitrião da cúpula do Grupo dos 20 países industrializados e emergentes prevista para o próximo dia 2, havia prometido que a reunião produziria um “novo acordo global” para resgatar o mundo de sua atual queda livre.

Espera-se o anúncio de compromissos potencialmente significativos para lubrificar a engrenagem do comércio mundial e aumentar os recursos do Fundo Monetário Internacional. Mas, os líderes provavelmente passem por alto sobre suas fundamentais e persistentes diferenças, deixando-as para seus ministros das Finanças e presidentes dos bancos centrais. Brown e companhia tentarão apresentar uma frente unida, em um exercício político destinado a garantir os mercados e tranqüilizar os consumidores.

Porém, porta-vozes governamentais já começam uma aparente tentativa de alinhar as expectativas do público com as possibilidades da cúpula. “Não veremos a economia mundial dando um giro no dia 3 de abril”, disse o secretário de Estado da chancelaria britânica, Mark Malloch-Brown. “Talvez possa ser visto como o começo do fim da crise e o momento em que os líderes conseguirão impulsionar uma nova direção e uma nova autoridade”, acrescentou.

Os integrantes do G-20 (Brasil, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Canadá, China, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, África do Sul, Turquia e União Européia) representam mais de 80% da economia mundial e cerca de dois terços de sua população.

Nesta cúpula do G-20 haverá mais em jogo do que na anterior, realizada em novembro. Milhões de empregos se perderam, mais de cem milhões de pessoas caíram abaixo da linha de pobreza e dezenas de milhões estão à beira do precipício. “Não há muito tempo para os líderes mundiais agirem em conjunto”, disse Katinka Barysch, vice-diretora do Centro para a Reforma Européia, com sede em Londres. “Os chefes de Estado e de governo do G-20 devem agora se concentrar em duas coisas: qual é a melhor forma de trabalhar em conjunto para prevenir uma recessão ainda mais profunda e como impedir futuras crises dessa magnitude”.

Por sua vez, Mike Froman, subconselheiro nacional de segurança para assuntos econômicos internacionais dos Estados Unidos, disse quais deveriam ser as prioridades da cúpula. “Adotar estímulos significativos para recuperar o crescimento. Em segundo lugar, reparar cada um de nossos sistemas financeiros para permitir que os empréstimos fluam. Em terceiro, evitar o protecionismo e, por fim, dar passos no sentido de minimizar a propagação da crise aos mercados emergentes e aos países em desenvolvimento”. Mas, em cada um destes temas há grandes divisões.

Estados Unidos e Grã-Bretanha tentavam convencer Europa e Japão de que aumentarão seus pacotes de estímulo interno para impulsionar a demanda mundial de bens e serviços. Os governos japonês e europeus aprovaram fundos de estímulo menores em comparação com Washington, Londres e Pequim, e não gostaram da pressão norte-americana e britânica. Alemanha, França e outros respondem que preferem ver se as quantias já destinadas têm efeito antes de condenar ainda mais as futuras gerações à dívida. Funcionários norte-americanos e britânicos dizem continuar convencidos de que é preciso gastar muito mais para reverter a recessão, mas decidiram não insistir mais.

O ministro de Assuntos Exteriores da Grã-Bretanha, David Miliband, assegurou que Washington e Londres não forçarão os demais membros do grupo a anunciarem compromissos específicos sobre gastos, na reunião desta semana. Este freio na pressão se deve em grande parte a imperativos diplomáticos. Também acontece quando muitas dúvidas sobre a capacidade de Grã-Bretanha e Estados Unidos para sustentarem mais gastos: o Banco da Inglaterra alertou Brown de que seu orçamento já é muito alto, e Pequim começou a questionar a solvência norte-americana. Mas o G-20 também patina em outros temas-chave.

Os europeus destacam a necessidade de rever as regulamentações financeiras em todo o mundo para impedir as fraudes que desataram a crise e os fracassos sistemáticos que permitiram sua propagação. Envergonhados pela conduta das empresas beneficiadas pelo pacote de resgate e diante da indignação pública pela opulência corporativa, seus colegas norte-americanos agora pregam melhor coordenação entre os países e responsabilizar os atores. Os europeus, porém, buscam mudanças de alcance maior na natureza e nas regras do jogo financeiro global.

Os líderes do G-20 se comprometeram de forma unânime manter o comércio aberto e combater o protecionismo. Em Londres também poderia ser anunciado um acordo para fornecer fundos ao comércio mundial, bem como assistência às economias em desenvolvimento e dependentes das exportações. Porém, segundo o Banco Mundial, 17 dos 20 países colocam tarifas e outras barreiras no caminho dos produtos e serviços estrangeiros desde que começou a crise.

Autoridades da Organização das Nações Unidas, do Banco Mundial e do FMI também estarão em Londres para falar em nome das economias frágeis e dos povos pobres, mas, também por suas próprias instituições. O FMI poderia duplicar seus fundos. Nos últimos seis meses, os empréstimos multiplicaram, bem como os chamados à instituição para que aumente a supervisão das economias-membro. Brasil, China, Índia e outros atores anunciaram que apoiariam um aumento de recursos para o FMI desde que os paises pobres tenham influência dentro desse organismo.

Se isto ocorrer, o FMI poderia emergir da crise não apenas com uma segunda oportunidade, mas também com certo grau de legitimidade política, da qual muitos de seus acionistas há muito tempo diziam que carecia e precisava para triunfar em seu papel expandido como vigilante financeiro internacional. Nisto também falta ver se haverá um caminho significativo.

Apesar das promessas, as potências ocidentais “se mostram menos dispostas a rever sua própria excessiva representação nas instituições financeiras internacionais”, disse Baryshc, do Centro para a Reforma Européia. A China também questiona a estabilidade e sustentabilidade do dólar como divisa de reservas dominantes no planeta, dizendo que favoreceria a criação de uma cesta de moedas. IPS/Envolverde

Abid Aslam

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