AIDS: Antiretrovirais para prevenir, e não apenas para tratar

Durban, África do Sul, 03/04/2009 – Cientistas garantem que a ingestão de antiretrovirais pode prevenir a infecção com o vírus causador da Aids, e não apenas impedir o dano no sistema imunológico dos que já são portadores do HIV.

 - Cynthia Johnson/CDC

- Cynthia Johnson/CDC

“Este é um ponto de inflexão na pesquisa sobre o HIV/Aids”, disse Mitchell Warren, diretor da Coalizão pro uma Vacina contra a Aids (Avac). “Chegamos a um momento em que a prevenção e o tratamento devem se casar”, explicou na Quarta Conferência Sul-africana sobre Aids, na cidade portuária de Durban, com as presenças de pesquisadores, cientistas, profissionais da saúde e ativistas de 52 países.

Os tratamentos de prevenção com antirretrovirais têm o objetivo de proteger os não-portadores do HIV da infecção, de maneira semelhante ao uso da cloroquina para impedir a malária. “A profilaxia de pré-exposição (estratégia terapêutica conhecida com PrEP) é biologicamente convincente e os modelos matemáticos sugerem substanciais benefícios potenciais de saúde pública”, disse Salim Abdool Karim, diretor do Programa Sul-americano de Pesquisas sobre Aids (Caprisa). Esta abordagem do problema “poderia impedir milhões de novas infecções a cada ano”, estimou.

Em janeiro de 2008, pesquisadores da Comissão Federal Suíça para HIV/Aids informaram que os portadores do vírus submetidos a tratamento antirretroviral podem não transmiti-lo aos seus companheiros sexuais. Esta conclusão é valida para todo portador que siga rigidamente a terapia, cuja carga viral diminui em seis meses muito abaixo do nível detectável (40 replicas do vírus por milímetro cúbico de sangue) e que não sofra outras infecções de transmissão sexual, explicaram os pesquisadores suíços ao analisarem dados epidemiológicos e biológicos procedentes de 26 estudos internacionais.

Estes cientistas também afirmaram que o tratamento efetivo com antirretrovirais elimina o HIV das secreções genitais. Além disso, o acido ribonucléico do vírus, medido no esperma e nas secreções genitais femininas, também reduz sua presença abaixo da margem de detecção. Esta revelação abriu um debate sobre as implicações de médicos, portadores, programas públicos contra o HIV/Aids e sistemas legais. Hoje estão em fase de planejamento em todo o mundo três testes de PrEP com uso de antirretrovirais contra a transmissão sexual do HIV para mulheres heterossexuais.

Mas Abdoll Karim alerta que antes de lançara em grande escala campanhas de prevenção com antirretrovirais os pesquisadores devem responder perguntas como estas: O quanto é seguro fornecer medicamento crônico a pessoas saudáveis? Contribuiria para desenvolver cepas de HIV resistente a antirretrovirais? Com que frequência deverá ser feito exame de HIV em pessoas submetidas ao PrEP? “Se conseguirmos que as pessoas façam o exame uma vez por ano e que seja fornecida terapia antirretroviral imediatamente aos que resultarem ser soropositivos, temos uma boa possibilidade de baixar a taxa de transmissão”, disse François Venter, da Universidade de Whitwatersrand, em Johannesburgo. “Dessa forma poderemos reduzir a prevalência atual da doença”, afirmou.

Na África do Sul, por diretrizes do governo, os portadores do HIV recebem antirretrovirais gratuitamente se neles forem detectados menos de 200 linfícitos CD4 por milímetro cúbico de sangue. Venter enfatizou a necessidade de avançar nas mensagens de prevenção baseadas na fidelidade a programas de cunho cientifico, como os antirretrovirais. “Passamos por 25 anos de prevenção falida”, já que a prevalência do HIV continua crescendo, afirmou. “Não há um único sinal de reversão da pandemia com os atuais métodos de prevenção”, acrescentou.

Para o grupo social no qual aumenta mais rapidamente a prevalência do HIV, o de mulheres jovens, “a maioria dos métodos existentes de prevenção não são uma opção”, concordou Abdool Karim. As campanhas públicas de prevenção enfatizam a abstenção sexual, a fidelidade, o uso de camisinha, a circuncisão e o exame voluntário. “Nenhuma destas ações atende a vulnerabilidade das mulheres jovens”, disse o especialista. Venter recomendou incentivar a detecção precoce do HIV, combinada com um rápido acesso aos antirretrovirais, e recordou que apenas entre 20% e 40% dos portadores do HIV na África do Sul têm acesso ao tratamento.

“Estamos agindo mal. Devemos dar às pessoas antirretrovirais bons e atóxicos muito antes de ficarem doentes” de Aids, disse Venter. Embora o gasto inicial aumente significativamente com o fornecimento desses medicamentos a todos os soropositivos, no longo prazo se economizaria dinheiro, pois mais portadores manteriam a saúde e menos sofreriam a transmissão do vírus. Além disso, Venter considerou que a prevenção antirretroviral reduzirá dramaticamente o gasto hospitalar por infecções oportunistas como a tuberculose. “Dois dias de hospital custam tanto quanto dois anos de antirretrovirais”, ressaltou.

De todo modo, os governos deverão “melhorar maciçamente os sistemas de saúde para o cuidado dos doentes crônicos”, como é o caso dos portadores de HIV. “Se conseguirmos acertar os sistemas de modo que os portadores recebem tratamento mais cedo, não necessitaremos de tantos remédios”, acrescentou Venter. Mas, até agora houve pouco debate público sobre a prevenção antirretroviral. Para este especialista, é “como um enorme elefante em um quarto, porque originará uma enorme controvérsia”.

O debate não é novo. Começou oficialmente em agosto passado, na XVII Conferência Internacional sobre Aids, no México, quando a mesma Comissão Federal Suíça sobre HIV/Aids informou que os portadores com uma carga viral indetectável não transmitem o vírus aos seus parceiros sexuais. Mas os críticos consideram que esse enfoque prejudicará os esforços preventivos já existentes, pois incentivaria as pessoas a praticarem sexo sem proteção. Pesquisadores da Organização Mundial da Saúde avançaram um pouco mais na discussão ao informarem em dezembro do ano passado, através da revista médica britânica The Lancet, sobre potenciais benefícios da prevenção antirretroviral. IPS/Envolverde

Kristin Palitza

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