ENERGIA-BOLIVIA: Um colosso em retirada

La Paz, 02/04/2009 – A decisão do Brasil, principal destino do gás natural boliviano, de reduzir em um terço o volume projetado de suas compras afetará severamente as finanças públicas do governo de Evo Morales, afirmam analistas “Em janeiro, as exportações baixaram 30%, em relação a igual mês de 2008, o que determinará redução da entrada de divisas do setor petroleiro no Tesouro nacional, municípios e prefeituras”, explicou à IPS o diretor da Fundação Milenio, Napoleón Pacheco. O presidente da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), Carlos Villegas, confirmou que o Brasil agora compra apenas 20 milhões de metros cúbicos diários em lugar dos 31 milhões anteriores, embora a Argentina mantenha sua compra habitual.

Em um ato realizado há algumas semanas em Brasília, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, um pouco em tom de piada e um pouco a sério, que um dia chamaria seu colega boliviano e diria: “Evo querido, queremos que fique livre para vender o gás a quem desejar, porque somos auto-suficientes”. Entretanto, Lula esclareceu de imediato que o País não deixará de comprar gás boliviano, pois estrategicamente é necessário ajudar o desenvolvimento da Bolívia, “porque não interessa ao Brasil crescer cercado de pobres”, segundo a agência de notícias HidrocarburosBolivia.com.

Porém, nem todos se manifestam preocupados. A política de reduzir as importações de gás natural boliviano chegou no momento oportuno, porque a produção caiu substancialmente e é impossível cumprir as obrigações simultaneamente com Brasil e Argentina, disse à IPS o economista Armando Méndez, ex-presidente do Banco Central da Bolívia. O ministro de minas e Energia, Edison Lobão, anunciou em janeiro a redução das compras desde o máximo voluma acertado de 31 milhões de metros cúbicos por dia, ao mínimo negociado no contrato bilateral de venda de 19 milhões de metros cúbicos.

A renda obtida com impostos, exportação de gás natural e derivados de petróleo somaram US$ 1,519 bilhão em 2007 e chegaram a US$ 1,807 bilhão no ano passado. Em 2008, o dinheiro obtido por este setor representou 32% da arrecadação fiscal, explicou Pacheco, que, entretanto, acredita que só bons resultados não se repetirão. O produto interno bruto da Bolívia chegou no ano passado a US$ 14 bilhões e a contribuição das exportações de gás natural e derivados de petróleo somaram quase US$ 2,8 bilhões, um salto espetacular diante dos escassos US$ 96,8 milhões de 1998.

A mudança fundamental para a melhoria desta renda fiscal se deu em 1º de maio de 2006, quando o governo de esquerda de Morales decidiu rever 44 contratos petroleiros e, com isso, aumentar a porcentagem dos tributos à exploração de hidrocarbonos, de 18% para até 80%, no contexto de um processo inclinado à nacionalização do setor. No entanto, a decisão teve impacto na produção porque os investimentos privados foram paralisados.

Em seu livro “Hidrocarburos: Hasta aqui llegamos?”, o especialista em assuntos petroleiros Carlos Alberto López afirma que o investimento privado no setor hoje é, em média, de US$ 200 milhões por ano, enquanto entre 1998 e 2000 chegava a US$ 800 milhões ao ano. Sobre uma alternativa em matéria de divisas para substituir as perdidas pela retração da demanda externa e queda do preço do gás natural exportado ao Brasil, Méndez disse laconicamente: “não há opções”. A crise econômico-financeira mundial e a queda dos preços no setor deixam escassa margem de ação ao governo e apenas é recomendável um manejo fiscal prudente, “tranquilidade política e não atiçar o fogo”, acrescentou.

Paulatinamente a Bolívia entra em um período eleitoral que culminará em 6 de dezembro com eleições presidenciais e parlamentares. Evo Morales pretende a reeleição pelo período de cinco anos, sob as normas da Constituição que entrou em vigor em fevereiro. Em ano de eleições, a prudência será afetada pela campanha, disse Méndez, ao expressar seu temor por um excesso de gasto fiscal, quando somente em janeiro já diminuiu em US$ 83 milhões a arrecadação com exportações de hidrocarbonos, em relação a igual mês do ano passado.

A redução no volume de vendas de gás natural e no preço internacional do petróleo em até US$ 50, base de cálculo para os preços de exportação, pode gerar uma queda este ano de até 40% na renda com gás natural, segundo o especialista. Em 2008, o preço médio do gás natural de exportação foi de US$ 6,22 por milhão de Unidade Térmica Britânica (BTU) e estima-se que este ano a média do preço baixará para US$ 3,15, disse Pacheco. O impacto será direto no programa de investimentos, na renda dos 327 municípios e nas nove prefeituras de departamentos e universidades com uma queda nas fontes de emprego, acrescentou. IPS/Envolverde

Franz Chávez

Franz Chávez es corresponsal de IPS en Bolivia desde noviembre de 2003. En busca de una cobertura adecuada de la compleja realidad boliviana, en especial para una audiencia internacional, Chávez se focaliza en esos temas en general ignorados por los grandes medios, poniendo esfuerzo en el contexto de uno de los países más pobres de América Latina. Nacido en La Paz, Franz trabajó para Radio Cristal entre 1985 y 1990, y luego formó parte del equipo editorial de los canales de televisión 2, 4, 7 y 11. Fue uno de los fundadores de los diarios La Razón, en el que se desempeñó entre 1990 y 1995, La Prensa (1998-201), y La Prensa-Oruro. Estudió sociología y comunicación en la Universidad Mayor de San Andrés en La Paz.

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