Caracas, 02/04/2009 – A crise econômica global deixará este ano seis milhões de novos pobres na América Latina e no Caribe, por isso a aposta é na recuperação dos Estados Unidos, onde teve origem, segundo exame de conjuntura do Sistema Econômico Latino-americano (Sela). Ao terminar 2008, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) calculou que 182 milhões de pessoas – um em cada três latino-americanos vivia em condições de pobreza. “A pobreza aumentará com a queda do investimento, do comércio, dos preços das matérias-primas que exportamos, com importações mais caras pela desvalorização de nossas moedas, com baixas na manufatura, no turismo e nas remessas por emigrantes”, resumiu para a IPS o secretário permanente do Sela, o mexicano José Rivera, ao apresentar o estudo, ontem, em Caracas.
Por isso, “o melhor cenário para nós é que no curto prazo – alguns meses – os Estados Unidos comecem a sair de sua crise e que sua recuperação se consolide em2010 e 2011”, disse em uma mensagem à reunião do Sela o brasileiro Rubens Ricupero, que entre 1995 e 2004 foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). A reunião com reunião com representantes dos 27 Estados-membros do Sela colocou a recuperação do principal sócio comercial na cabeça das ações que a região deve fazer ao negociar novos termos de sua relação com os Estados Unidos.
Em seguida, falou da necessidade de evitar o protecionismo comercial norte-americano e da necessidade de conclusão da Rodada de Doha, de acordos globais no contexto da Organização Mundial do Comércio. Esta rodada de negociações para liberalizar mais o comércio está paralisada desde 2007 por negativas de países industrializados de derrubarem as barreiras ao mercado agrícola e industrial, eliminar subsídios e compensar países em desenvolvimento.
O comércio da América Latina e do Caribe com os Estados Unidos cresceu nesta década. A região exportou ao seu sócio industrializado do norte US$ 196 bilhões em 2001 e US$ 374 bilhões em 2008, tendo importando dos Estados Unidos US$ 143 bilhões em 2001 e US$ 252 bilhões no ano passado, segundo a Comissão de Comércio Internacional norte-americana. Com a renda assim obtida a América Latina e o Caribe contribuíram para o auge nos preços de suas matérias-primas, pelas quais os Estados Unidos gastaram US$ 35 bilhões em 2001 e quase US$ 130 bilhões em 2008, mas uma queda da demanda acarretará uma redução na arrecadação da região este ano.
Naturalmente, um dos países cujo comércio com os Estados Unidos mais cresceu foi Cuba, que comprou desse país US$ 7 milhões em 2001 e US$ 447 milhões em 2007, US$ 718 milhões em 2008, em especial alimentos, mas, devido ao bloqueio de Washington não pode vender aos americanos todos estes anos nem um único dólar. O Sela, do qual Cuba faz parte, reiterou sua demanda para que Washington levante o bloqueio que mantém há meio século sobre a ilha. “Seria o melhor sinal que poderíamos receber sobre um novo relacionamento hemisférico”, disse Rivera.
Outro sinal que Rivera gostaria de ver é a identificação, por parte de Washington, do mecanismo que deveria substituir o projeto de Área de Livre Comércio das Américas (Alça), que os Estados Unidos defenderam desde meados dos anos 90 e que “já não é uma opção viável”, segundo o secretário do Sela. Também se cobra de Washington a aprovação dos tratados de livre comércio com Colômbia e Panamá, a reincorporação da Bolívia aos benefícios da Lei de Promoção Comercial Andina e Erradicação das Drogas e o compromisso de renovar o sistema Generalizado de Preferências, que desregula tarifas para listas de países e produtos.
O Sela reconhece que o presidente norte-americano, Barack Obama, “conta com popularidade, fortaleza e favoráveis expectativas sem igual desde a chegada dos presidentes Franklin Roosevelt em 1933 ou John Kennedy em 1961”. Porém, o otimismo de Rivera é muito cuidadoso, porque a questão comércio não se destacou na campanha eleitoral de Obama e, após assumir, “a única diretriz que dele ouvimos é que trabalhamos com o Grupo dos 20 para promover a demanda de produtos norte-americanos no mercado mundial”. Os líderes do G-20 se reúnem hoje em Londres para avaliar alternativas a fim de reduzir o impacto da crise econômica e encaminhar o mundo para sua recuperação.
Rivera também recordou que tradicionalmente o Partido Democrata, agora no governo e com maioria no Congresso, se mostra mais fechado diante do comércio internacional do que o Partido Republicano. Ricupero também considerou que a agenda dos Estados Unidos para a região “é muito pobre, porque se centra em três temas que esse país vê especialmente desde sua perspectiva, como as migrações, o narcotráfico e o livre comércio”. O primeiro “visa a limitar os movimentos migratórios; o segundo, as operações para impedir a entrada de drogas em seu território, e o terceiro a consolidar as posições comerciais norte-americanos”, disse Ricupero.
“Essa agenda nem mesmo tende à dimensão humana que, com todas as críticas que possa receber, estava inserida em programas como Aliança para o Progresso lançado pelo presidente Kennedy em 1961”, disse Ricupero. Os governos da América Latina e do Caribe deveriam propor a Washington uma relação equitativa em comércio e também “cooperação como sócios hemisféricos para cuidar do meio ambiente e dos recursos naturais, para a modernização dos sistemas educacionais, frente a ameaça da criminalidade transnacional e para que os avanços tecnológicos norte-americanos sejam colocado à disposição de nossos países”, acrescentou o brasileiro. Tudo isso é “o rascunho”, disse Ricupero, pois “ninguém ainda sabe qual será o poder destrutivo total desta crise, quanto tempo vai durar nem se manterá o sistema econômico que temos até hoje ou se será outro diferente”.
O Sela também considera que os Estados Unidos devem facilitar o acesso da região a financiamento de baixo custo e sem condições, com o aumento de fundos nas instituições multilaterais. Um sinal nesse sentido chegou da cidade colombiana de Medellín, onde no último fim de semana aconteceu a assembléia anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do qual os Estados Unidos são o principal acionista e deu sua aquiescência para uma reposição de capital, o que permitirá à entidade contar com US$ 6 bilhões no curto prazo.
“Acreditamos, como o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que a nova relação com Washington deve ser vista pelo trabalho e pela produção, e não pelo narcotráfico e o crime organizado”, afirmou o embaixador uruguaio em Caracas e presidente do Conselho do Sela, Gerónimo Cardozo. As conclusões e recomendações do Sela serão enviadas às chancelarias e ministérios do Comércio de seus Estados-membros como contribuição para quando os governantes da região, menos Cuba, se encontrarem com Estados Unidos e Canadá na Cúpula das Américas no próximo dia 17 em Trinidad Tobago. Entretanto, “não sabemos até onde nos levará esta crise, em cujo desenvolvimento pouco ou nada influenciaram os países em desenvolvimento embora, como sempre, paguem pelos pratos quebrados”, finalizou Cardozo. IPS/Envolverde

