DESENVOLVIMENTO: G-20 cego diante das diferenças

Londres, 02/04/2009 – Um discurso de igualdade e equivalência rodeia a cúpula do Grupo dos 20 países industrializados e emergentes, que acontece hoje em Londres. “Uma crise global exige uma solução global”, parecem dizer todos. Também há um discurso do tipo “nações unidas”. Destaca-se que os integrantes desse grupo representam 90% do produto interno bruto mundial, 80% do comércio internacional e dois terços de toda a população do planeta.

A idéia é que se consiga na capital britânica um acordo mundial e que todos participem dele e que todos juntos se comprometam a fazer mais ou menos o mesmo: dar estímulos financeiros, incentivar os bancos a emprestar e rejeitar o protecionismo. Mas esta linguagem unificadora, segundo analistas, é enganosa e pode ser perigosa. “Existe o mito de que todos têm de seguir exatamente as mesmas regras na economia mundial”, disse à IPS o diretor-executivo do grupo de direitos humanos War on Want, John Hilary.

“Creio que um dos princípios-chave provado no comércio internacional é que deve haver um tratamento especial e diferenciado. Isto significa que aquilo que os países industrializados, como Estados Unidos, ou a União Européia, devem fazer não é necessariamente o tipo de política que os países em desenvolvimento precisam adotar”, acrescentou Hilary. Qualquer reconhecimento essas diferentes está ausente no discurso em torno do G-20, até agora. O destaque está na busca de uma solução única que sirva a todos. Este discurso não discriminatório é visto por muitos, justamente, como discriminatório. A promovida unidade não considera as grandes diferenças que existem.

“É muito claro que há certos princípios e determinadas políticas que são especificamente relevantes para os países do Sul em sua fase de desenvolvimento, mas que já não o são para as nações industrializadas”, disse Hilary. “Creio que realmente importante é ser capaz de manter esse princípio-chave”. A ignorância desse princípio é a raiz das discrepâncias nas negociações em marcha sobre um único acordo comercial mundial. Existe uma grande pressão dos líderes do G-20 para que seja concretizado um pacto, mas, no momento, não passa de um acordo de que se deve fazer um acordo, sem nenhum reconhecimento ao tratamento diferenciado e especial.

O g-20 parece representar a riqueza e a nova influência do mundo. Espera-se agora que países como China e Índia contribuam com um reformado Fundo Monetário Internacional, no qual teriam mais voz. Fala-se dos países do Sul como entidades emergentes, com pouco pensamento substancial nas centenas de milhões de pessoas que vivem neles. Estas nações não parecem ocupar o papel privilegiado dos ricos, ou, ao menos, o de nações ricas com população pobre. Há, naturalmente, um reconhecimento da pobreza em todo o mundo e que o G-20 tem de fazer algo.

Uma reunião deste tipo dificilmente poderia estar completa sem semelhantes declarações. Porém, o sucesso do encontro será medido por quantos dólares acompanharão essas palavras. Para por em número as palavras, a organização humanitária Oxfam pediu aos líderes do G-20 a criação de um pacote de resgate de US$ 580 bilhões ao ano para os países pobres, incluindo um imediato estímulo fiscal ara os mais pobres de, pelo menos, US$ 24 bilhões; um alívio da dívida e o cumprimento das promessas de aumentar a ajuda ao desenvolvimento.

Parece muito dinheiro, mas é apenas uma fração dos U$ 8,42 trilhões prometidos pelos governos ricos para resgatar os bancos da crise, afirma a Oxfam. Este tipo de pacote de resgate – segundo a organização – seria suficiente para acabar com a extrema pobreza mundial por 50 anos e significaria um enorme passo para sua erradicação. “Quando se vê o dinheiro destinado aos bancos parece inconcebível que os líderes do G-20 fiquem de lado e permitam que a crise econômica destrua a vida dos povos pobres”, disse em uma declaração a chefe-executiva da Oxfam, Barbara Stocking.

“Os países em desenvolvimento bambeiam pelas drásticas quedas no comércio, nas remessas e nos investimentos estrangeiros. As nações ricas cujas políticas contribuíram para a crise têm a responsabilidade de ajudar os que não podem pagar seus próprios resgates”, acrescentou Stocking. Sem uma ação urgente, “centenas de milhões dos mais pobres do mundo afundarão ainda mais na pobreza. Perder o trabalho é algo devastador em qualquer parte, mas para milhões de pessoas em países pobres, sem benefícios e serviços de saúde, o desemprego os empurrará para a indigência”, disse a representante da Oxfam.

Entretanto, ninguém espera que o G-20 aprove a quantia pedida pela Oxfam, ou mesmo uma parte dela. Também é improvável um reconhecimento das diferentes políticas necessárias para os diferentes países. “Penso que veremos do encontro uma declaração de propósitos e cláusulas de boas intenções, nas quais os países dirão que não vão acelerar o protecionismo”, afirmou Hilary à IPS. “Mas, não acredito que tenham a sutileza de dizer que devem criar uma regra para os países industrializados e outra para as nações em desenvolvimento”, acrescentou.

“O que realmente importa para os países em desenvolvimento é não olhar o G-20 como uma espécie de salvador para seus problemas. É um grupo de economias ricas e emergentes que velam por seus próprios interesses. Não vão preparar o tipo de futuro que o povo do mundo precisa, por isso penso que deveríamos buscar em outro lugar a verdadeira mudança que necessitamos”, ressaltou Hilary. IPS/Envolverde

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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