DEFESA-ONU: Privatização ainda distante

Nações Unidas, 01/04/2009 – Funcionários da Organização das Nações Unidas garantem que não está nos planos imitar os Estados Unidos na contratação de empresas privadas de segurança e defesa. Porém, observadores afirmam que a privatização das forças de paz poderia se concretizar no futuro. O principal argumento para apoiar a privatização é a noção de que a maioria dos governos não está disposta a arriscar seus próprios soldados em operações de paz internacionais.

Em um recente painel realizado na sede da ONU, Jean-Jacques Roche, chefe do Instituto Superior para Armas e Defesa da Universidade Pantheon-Assas (Paris II), mencionou o propagado uso de empresas privadas em atividades civis e militares no Iraque como evidência de um consenso entre funcionários norte-americanos e o público em geral sobre a privatização. “O que é legal no plano interno deve naturalmente se tornar natural no externo”, afirmou, indicando que o uso de serviços de segurança privados nos Estados Unidos é algo muito comum.

Roche afirmou que a proteção de civis no exterior ficaria melhor a cargo de empresas privadas, já que as baixas de mercenários são mais aceitas pelo público do que as de soldados. Mas, nem todos compartilham dessa opinião. “Esta é uma tendência perigosa”, disse Jim Paul, diretor-executivo do Fórum de Políticas Globais, centro de estudos independente que acompanha de perto as políticas da ONU e sua implementação. Paul disse que, em lugar de considerar essas opções, as Nações Unidas deveriam se concentrar em medidas para melhorar o financiamento e o treinamento dos soldados de paz. Também sugeriu maior envolvimento dos Estados Unidos e de outras potências que atualmente não enviam soldados às operações de paz.

A ONU realiza missões de manutenção da paz em cerca de 17 países, e a maioria dos soldados é de nações mais pobres do Sul em desenvolvimento. Washington se nega a contribuir com soldados nas operações de paz das Nações Unidas desde 1993, quando 18 de seus efetivos morreram e alguns cadáveres foram arrastados pelas ruas de Mogadíscio (Somália). Desde entoa, os Estados Unidos aumentaram sua dependência de mercenários nos locais mais conflitivos do mundo, particularmente Afeganistão e Iraque. Atualmente, as principais companhias envolvidas nas operações militares norte-americanas são BAE Systems, Lockheed Martin, Blackwater USA e Northrop Grumman.

A BAE, que fábrica veículos militares, também fornece antropólogos ao exército norte-americano para estudar o comportamento da resistência no Afeganistão. A Lockheed treina soldados na África; Balckwater esteve nas manchetes por vários incidentes. Em 2004, quatro de seus empregados foram assassinados e seus corpos exibidos em público na cidade iraquiana de Faluja, e, em 2007, mercenários dessa empresa mataram 17 civis iraquianos. Todas essas companhias privadas assinaram contratos o valor de centenas de milhões de dólares com o governo de George W. Bush.

Mas, considerando as opiniões dos diplomatas representantes do Sul, é pouco provável que as firmas façam negócios semelhantes com a ONU. “Não aceitaremos esse tipo de coisa. Precisamos de soldados de paz, não de mercenários”, disse à IPS um diplomata do norte da África. Atualmente, o Departamento de Operações de Manutenção da Paz da ONU (DPK), com mais de cem mil solados, a convertem na segunda força militar maior do mundo, atrás apenas da dos Estados Unidos. Suas operações na África, no Caribe, Oriente Médio, Europa e asa custam cerca de US$ 5 bilhões ao ano, dinheiro que provém em sua maior parte das nações ricas do Norte.

Entretanto, as Nações Unidas tem dificuldades em realizar suas tarefas de paz porque um de seus principais doadores não faz sua parte. Observadores e funcionários dizem que muitas das operações da ONU são prejudicadas porque Washington não entregou suas contribuições passadas que chegam a mais de US$ 1 bilhão. Porém, parecem otimistas sobre o futuro, já que o novo governo, de Barack Obama, prometeu trabalhar mais de perto com o fórum mundial, inclusive apoiando as missões de paz. “Creio que as coisas vão melhorar”, disse um funcionário da ONU próximo ao secretário-geral, Ban Ki-moon.

Por outro lado, uma fonte próxima ao aparato de segurança das Nações Unidas disse à IPS que seria melhor depender mais de indivíduos do que de grandes companhias. “As corporações privados não podem ter interesses profundos na manutenção da paz. Seu objetivo é ganhar dinheiro. O que querem é fazer fortuna, não a paz”, afirmou. Funcionários da ONU reconhecem que o debate sobre substituir os “capacetes azuis” por soldados particulares poderia mudar as coisas, mas muitos insistem que se trata de uma possibilidade remota. “O DPKO não emprega o setor privado, nem temos nenhum plano para fazer isso”, disse a IPS o porta-voz desse departamento, Nick Birnback. “Não usamos terceirizados. Acreditamos que os valores militares devem ser fornecidos por Estados-membros”, acrescentou. IPS/Envolverde

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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