Doha, 01/04/2009 – Os mouros invadiram e conquistaram grande parte da península Ibéria a partir do ano 711 antes de Cristo e, apesar de sua expulsão total em 1492, deixaram uma marca racial e cultural indelével. Tanto a língua portuguesa quanto a espanhola possuem marcada influência árabe. Mas, quando espanhóis e portugueses cruzaram o Atlântico para conquistar a América, a estreita ligação com o mundo árabe se perdeu. Mais de cinco séculos depois, a chegada de chefes de Estado sul-americanos a Doha, capital do Qatar, para a II Cúpula da América do Sul-Países Árabes (ASPA) é um esforço consciente das duas partes para redescobrir o outro e forjar uma relação que hoje é considerada uma longa conta pendente.
Para o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, isto é uma prioridade. “É imperativo para os países da América do Sul conseguir um entendimento real com as nações do Oriente Médio, com o mundo árabe, para estabelecermos relação não apenas comercial, mas também política e cultural, de maneira a sermos livres dos laços e das decisões dos chamados países ricos”, disse o Presidente Lula em entrevista exclusiva ao canal de televisão Al Jazeera.
Laços comuns
O esforço para encontrar um terreno comum com a região árabe reflete as novas prioridades latino-americanas. Nos últimos oito anos, o mapa político da região mudou radicalmente. Os países maiores da América do Sul, com exceção de Colômbia e Peru, têm governos de centro-esquerda. Desde o duro discurso do presidente Hugo Chávez na Venezuela até os mais moderados de Michelle Bachelet no Chile e Lula, todos são firmes partidários de um mundo multipolar, não dominado por uma superpotência nem por um bloco de nações industrializadas.
“Há 10 anos teria sido impossível pensar em uma reunião com esta entre árabes e América do Sul”, disse Chávez. “agora que os movimentos de esquerda obtiveram o poder político e lideram governos na América Latina, essa possibilidade se abriu, porque antes nossos governos sempre se ajoelharam diante do Departamento de Estado norte-americano”, acrescentou.
Vínculos limitados
Embora estejam de lados opostos do globo e possuam culturas e estruturas políticas muito diferentes, as duas regiões compartilham experiência colonial comum. Diante do instável mapa político e econômico mundial, a América do Sul e a região árabe tentam unir forças para que suas vozes tenham maior peso, especialmente em fóruns multilaterais como o Grupo dos 20 de países industrializados e emergentes, cujos líderes se reunirão nesta quinta-feira em Londres.
O Brasil, centro nevrálgico da América do Sul, conta com apoio árabe para promover sua candidatura a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Se conseguir esse feito, o mundo árabe passará a ter um aliado em um posto estratégico. A ASPA é uma criação do Presidente Lula, anfitrião do primeiro encontro realizado em 2005 em Brasília. Então era pouco mais que uma declaração de boas intenções para fortalecer laços, mas, de todo modo, foi um primeiro passo significativo.
“Nossas relações são muito limitadas, muito pequenas. Tínhamos um intercâmbio comercial de US$ 8 bilhões com o mundo árabe, e depois desta reunião, após essa iniciativa de nosso governo, nosso intercâmbio subiu para US$ 20 bilhões”, afirmou Lula. Algo semelhante ocorreu na Argentina, onde, em apenas três anos, as exportações desse país para a regia árabe saltaram de US$ 1,8 bilhão para US$ 4,5 bilhões, segundo o secretário-geral da Câmara de Comércio Argentino-Árabe, Sattam Al Kaddour.
Origens árabes
Tudo isto não deveria ser uma surpresa, há mais de 20 milhões de árabes e descendentes na América Latina, a maioria na América do Sul. Só no Brasil há cerca de 10 milhões, dos quais aproximadamente oito milhões são libaneses, isto é, mais do que a população do próprio Líbano. A Argentina tem cerca de 3,5 milhões de habitantes de origens síria e libanesa, e o próprio ex-presidente Carlos Menem (1989-1999) é filho de imigrantes sírios. O Chile tem a maior comunidade de palestinos fora do Oriente Médio, na maioria cristãos emigrados de Beit Jala e Belém.
O primeiro êxodo ocorreu em meados do século XIX, quando a Palestina era governada pelos otomanos. Após a criação do Estado de Israel em 1948, quando centenas de milhares de palestinos perderam suas casas, muitos árabes cristãos seguiram seus ancestrais para as Américas. A maioria foi para o Chile, onde as montanhas e o clima do vale central de Santiago lhes pareciam familiar. Hoje, muitos chilenos-palestinos são membros destacados da comunidade política e empresarial.
Entretanto, apesar de haver um grande número de sul-americanos de origem árabe, o contato direto entre as duas regiões é limitado. Somente no ano passado foi inaugurado o primeiro voo sem escalas entre uma cidade sul-americana, São Paulo, e uma cidade árabe, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Benefícios comerciais
Então, por que esta aproximação demorou tanto? “Até agora, as duas regiões sempre olhavam para os Estados Unidos, para a Europa, nunca uma para a outra”, disse o chanceler brasileiro Celso Amorim. “O movimento sem precedentes para aproximar as duas regiões está sendo aplaudido, especialmente pela comunidade empresarial sul-americana”, acrescentou. “O potencial aqui é inimaginável porque, se virmos o mundo árabe como um todo e a América Latina, veremos que as economias das duas regiões se complementam entre si perfeitamente”, ressaltou Amorim.
Por sua parte, Al Kaddour disse: “na região árabe há grandes desertos e um clima muito seco, e na América Latina temos terrenos verdes e férteis, e 26% do fornecimento mundial de água doce”. A balança comercial está hoje em dia a favor da América do Sul. “O setor de exportações de alimentos é o mais importante atualmente, porque a região árabe é grande compradora de produtos alimentícios e a América do Sul, especialmente Brasil e Argentina, são países com uma grande agroindústria”, acrescentou Kaddour. Espera-se que a cúpula da ASPA em Doha dê um novo impulso às relações.
Para isto poderia contribuir a propaganda solidária na América do Sul com a causa palestina, especialmente depois da última ofensiva israelense contra Gaza. Venezuela e Bolívia chegaram ao ponto de expulsar os respectivos embaixadores israelenses, enquanto Brasil e Chile fizeram fortes condenações à ofensiva, na qual morreram mais de 1.300 palestinos. “É muito interessante trocar pontos de vista entre os líderes árabes e sul-americanos para estabelecer acordos”, disse o Presidente Chávez. “O mais importante, porém, é a relação geopolítica. Creio que este é o começo de um caminho que estamos abrindo, na construção de um mundo multipolar”, acrescentou. IPS/Envolverde
* Publicado sob acordo com a Al Jazeera.

