EUROPA: Democracias do leste à sombra da Rússia

Moscou, 08/05/2009 – Muitos dos países que integravam a União Soviética continuam sem poder consolidar um sistema democrático nem sua economia após 18 anos de independência. “Creio que a principal causa da instabilidade política nas ex-repúblicas soviéticas é a debilidade de sua tradição democrática, a fragilidade de sua sociedade civil e a falta de respeito às leis”, disse à IPS Yevgeni Volk, chefe do escritório de Moscou do grupo de estudos conservador Heritage Foundation. “Seu passado e o legado totalitário de suas instituições sob o regime comunista continuam sendo de peso”, acrescentou. Além disso, interessa à Rússia “desestabilizar esses países para desprestigiá-los aos olhos da opinião pública ocidental e evitar que se convertam em membros confiáveis da União Européia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)“, disse Volk.

Os governos dessas nações não têm muito como melhorar sua economia nem diversificá-la, nem diminuir sua dependência dos recursos energéticos russos. Tampouco impulsionaram o emprego nem estimularam o consumo. Geórgia, Moldávia e Ucrânia atravessam profunda crise política. A Ucrânia, vizinha de Bielorússia, Hungira, Moldávia e da Rússia, conseguiu organizar a “revolução laranja” em 2005, mas agora seu terceiro presidente, Victor Yushchenko, cujo mandato terminal no fial deste ano ou começo de 2010, não é muito popular. Por revolução laranja é conhecido o levante popular que levou o partido pró-russo Nossa Ucrânia, liderado por Yushchenko, à Presidência.

Na Geórgia, a oposição protesta em todo o país contra o presidente, Mikhail Saakashvili, e criticam sua intenção de tentar integrar essa ex-república soviética à União Européia e à Otan, bem como sua crescente inclinação ao totalitarismo. Além disso, a dura repressão à oposição lhe valeu duros questionamentos do Ocidente. O próprio mandatário chegou ao governo mediante protestos de rua em 2003. Sua popularidade caiu em queda livre após a desastrosa guerra com a Rússia em agosto de 2008 e sua incapacidade de implementar as reformas prometidas depois da revolução que o levou à chefia do governo.

Depois da “revolução rosa”, que levou Saakashvili ao poder, na Geórgia, e da “revolução laranja”, na Ucrânia, a democracia ucraniana ficou paralisada e a georgiana retrocedeu. Enquanto nesses dois países a instabilidade política restringiu as liberdades políticas e de imprensa, na Moldávia ocorreu o contrário. Essa nação goza de bastante estabilidade após a chegada ao governo dos comunistas, em 2001, e, novamente em 2005. “Os comunistas usam seu poder para controlar os Poderes Executivo e Judicial”, disse à IPS George Dura, pesquisador do Centro de Estudos de Política Européia, com sede em Bruxelas.

“As autoridades moldavas também começam a restringir a liberdade de imprensa. Creio que o principal motivo dos protestos é o fracasso da democracia em um contexto de maior controle e crescente estabilidade política sob um regime cada vez mais autoritário”, acrescentou. A Moldávia era um dos países mais pobres da Europa em 1991, quando a União Soviética se dissolveu. Mais de um quarto dos quatro milhões de moldavos trabalham na União Européia e na Rússia e suas remessas de dinheiro representam quase 40% do produto interno bruto, segundo o Banco Mundial.

Os moldavos mais velhos consideram a Rússia como principal aliado do país, enquanto os jovens se identificam mais com a Europa e a vizinha Romênia, com a qual compartilham tendências linguísticas, étnicas e têm vínculos históricos. Muitos manifestantes reclamam da unificação com a Romênia, membro da UE e da Otan. O presidente da Moldávia, Vladimir Voronin, acusou as autoridades romenas de apoiaram os protestos violentos e de ajudar a oposição a organizar o levante. Por outro lado, nos países vizinhos muitos criticam o papel da Rússia.

“Nas ex-repúblicas soviéticas a democracia não fracassa, as autoridades russas a atacam deliberadamente”, afirmou o ministro de Reintegração de Geórgia, Temuri Yakobashvili, ao ser consultado pela IPS através de correio eletrônico. “Os êxitos democráticos ainda frágeis requerem condições para amadurecer, ou, pelo menos, nem tempestades e nem furacões. O Ocidente também deve desempenhar seu papel”, disse Yakobashvili, também ex-presidente da Fundação de Estudos Internacionais e Estratégicos da Geórgia, com sede em Tiflis.

A oposição luta por uma mudança democrática de autoridades, disse o porta-voz do opositor Partido Conservador da Geórgia, Kakha Kukawa. “A lista de erros cometidos por Saakasvhvili é longa e inclui restrições à liberdade de imprensa, uma incompreensível militarização e a inexplicável retórica belicista que nos levou ao conflito de agosto”. Além disso, derivou no “desprestigio do sistema judicial, na pressão estatal sobre as empresas, em eleições fraudulentas e a conseqüente falta de oposição real no parlamento e, ainda pior, negligência do Estado de direito”, disse Kukawa à IPS, desde Tiflis.

“Os esforços para impulsionar reformas democráticas em países pobres como Ucrânia, Geórgia e Moldávia invariavelmente são submetidos a uma exigência maior devido à gravidade da crise econômica internacional”, afirmou Chris Walker, da organização não-governamental Freedom House, com sede em Londres, dedicada a estudar as democracias do mundo. “Os governantes dessas democracias nascentes e parcialmente consolidadas devem buscar a forma de promover a participação e buscar políticas capazes de vencer esses enormes desafios”, acrescentou.

Para os Estados que integram a União Soviética continua sendo um enorme desafio implementar reformas e, virtualmente, todas as nações da região terão de lidar com graves problemas de governabilidade, disse Walker. “Todos os governos das ex-repúblicas soviéticas têm enormes desafios pela frente, mas os que tentarem impor mias transparência e governabilidade estarão melhor situados para funcionar em um ambiente moderno e globalizado, concluiu. IPS/Envolverde

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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