Economia: O ouro do FMI para pagar as dívidas dos pobres

Washington, 18/04/2005 – Especialistas norte-americanos recomendaram ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que venda parte de suas reservas de ouro para pagar a dívida externa do Sul em desenvolvimento, mas é improvável que a entidade decida medidas para paliar o problema durante sua reunião conjunta com o Banco Mundial. O presidente do Banco, James Wolfensohn, disse que não esperava uma decisão final durante a reunião do último final de semana por parte dos representantes do mundo industrializado, em Washington. É possível, acrescentou, que os ministros das Finanças dessas nações queiram esperar até julho para realizar um anúncio a respeito. Nessa época acontecerá na Escócia a cúpula do Grupo dos Oito (G-8) países mais poderosos do mundo.

A maior parte da dívida do Sul em desenvolvimento quem detém é o Grupo dos Sete (G-7) países mais industrializados do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão). O G-8 inclui, além dessas nações, a Rússia. "Isto é como a overture: se ouvirá primeiro os temas que serão desenvolvidos nos atos subseqüentes, mas, as árias, ao que parece, serão cantadas pelas estrelas em diferentes momentos", disse Wolfensohn antes da reunião. "Por isso, minha expectativa é que se ouça agora uma boa overture, ou prelúdio", acrescentou. Segundo diversas versões, Wolfensohn e o diretor-gerente do FMI, Rodrigo Rato, disseram que esperavam um exame sério do assunto, incluídos mecanismos financeiros para o perdão de dívidas.

Entre as propostas figura uma segunda a qual o FMI usaria suas enormes reservas de ouro para custear um programa de alívio da dívida. Com a venda de apenas 15% de suas reservas de ouro o Fundo poderia obter até US$ 7 bilhões, soma que permitiria o perdão total do crédito dos países qualificados para programas de alívio da dívida do FMI, disseram o Centro para o Desenvolvimento Global e o Instituto para a Economia Internacional, duas instituições acadêmicas norte-americanas. O FMI avalia seu ouro em US% 9 bilhões, com base em seu custo histórico, mas, muito abaixo de seu preço atual de mercado, que chegara a cerca de US$ 45 bilhões.

O dinheiro necessário para o plano dos especialistas norte-americanos seria obtido mediante a venda de 16 milhões de onças de ouro do Fundo a uma cotação de US$ 425 por onça. "Vender o ouro do FMI constituiria a transformação de uma reserva estéril em um recurso produtivo. O ouro não é sós, nem mesmo basicamente, um bem do Fundo, mas um recurso mundial", com o qual se pode "atender um desafio mundialmente reconhecido", afirmaram as duas instituições. O FMI já lançou mão de seu ouro para aliviar a pobreza no passado. No final dos anos 70, as vendas dessas reservas permitiram ao Fundo destinar US$ 3,3 bilhões em empréstimos a juros baixos a países de baixa renda.

Em 1999, a Junta do FMI autorizou transações em ouro para financiar sua participação na iniciativa para os países pobres altamente endividados. Essas transações aconteceram fora dos mercados abertos, pelo temor de uma queda de preços expressada por países produtores de ouro como Canadá, gana, África do Sul, Uganda e Estados Unidos. Os riscos se reduziram desde então, pois o preço do ouro aumento 50%, o que permitiria uma venda valiosa, segundo os autores do informe do Centro para o Desenvolvimento global e do Instituto para a Economia Internacional. Canadá e África do Sul apóiam a proposta de uma venda gradual e limitada de ouro destinada ao alívio da dívida.

"O FMI diz promover a transparência, mas, seus próprios livros contábeis perdem o exame. Entre seus bens figura um super avaliado – empréstimos aos países pobres fundamentalmente impagáveis – e um subavaliado, suas reservas de ouro", diz o documento. Esta operação requer a aprovação de 85% dos votos da Junta do FMI. Os Estados Unidos têm 17% dos votos, o que converte seu governo em peça-chave para implementar o plano. Organizações de ajuda ao desenvolvimento e ativistas pelo perdão da dívida externa dos países pobres manifestaram sua desilusão pelos atrasos no exame do problema. "Desde a reunião do G-7 em fevereiro, outros dois milhões de pessoas morreram por causa da pobreza", disse Berenice Romero, da Oxfam Internacional, organização com sede em Londres e de perfil católico.

Os países pobres gastam US$ 100 milhões cada dia em pagamento da dívida externa. Por exemplo, Zâmbia gastou no ano passado, nesse item, US$ 150 milhões a mais do que com educação. "Entre 1970 e 2002, a África recebeu US$ 540 bilhões em empréstimos, e já pagou mais de US$ 550 bilhões a credores ricos como os países do G-7, o Banco Mundial e o FMI", disse Neil Watkins, coordenador da coalizão norte-americana pelo perdão da dívida Jubilee USA Network. "Mas, a carga dos juros mantém a dívida africana em quase US$ 300 bilhões", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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