Washington, 27/05/2009 – O teste subterrâneo de uma bomba nuclear pela Coréia do Norte levou os Estados Unidos a promoverem no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas novas sanções contra esse país. Washington tampouco destaca medidas unilaterais. A detonação de domingo foi ligeiramente mais forte do que a realizada pelo próprio regime norte-coreano em 2006, segundo a não-governamental Organização para o Tratado de Proibição Total de Armas Nucleares, radicada em Viena. Analistas em Washington previram que a operação coloca em dificuldades a China, que, apesar de defender a Coréia do Norte na arena internacional, condenou o teste.
Em teoria, Pequim tem uma enorme influência sobre Pyongyang, pois lhe facilita grande quantidade de alimentos e combustível. A China teme que retirar essa ajuda precipite o colapso do regime comunista de Kim Jong II e cause uma crise de refugiados em seu território e na Coréia do Sul, além de uma intervenção norte-americana. O Conselho de Segurança da ONU condenou por unanimidade o teste nuclear em sua sessão de emergência de segunda-feira. Também anunciou que vai elaborar uma nova resolução em resposta à “clara violação” do direito internacional pela Coréia do Norte. “A grande dúvida é se as sanções irão de fato ‘doer’, e isso dependerá da China, que enfrenta decisões muito difíceis”, disse Alan Romberg, especialista em assuntos asiáticos e ex-funcionário do Departamento de Estado norte-americano, hoje com a instituição acadêmica Centro Henry Stimson de Washington. O teste seguiu o lançamento de dois mísseis de curto alcance, o que faz Romberg e outros analistas preverem a proximidade de novas ações provocativas por parte de Pyongyang, como outros projeteis e a montagem de incidentes navais hostis para Seul. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, havia oferecido os trabalhos de seu enviado especial, embaixador Estephen Bosworth, à Coréia do Norte, que respondeu elevando a pressão.
A escalada começou em 5 de abril, com o lançamento de um míssil de curto alcance. Pyongyang garantiu que era um foguete de uso civil, mas o Ocidente considerou que o teste violava a resolução do Conselho de Segurança que proíbe o regime de suspender todos seus programas balísticos. China e Rússia rechaçaram o projeto de resolução apresentado pelo Ocidente no Conselho para sancionar a Coréia do Norte, mas concordaram no dia 13 de abril que o presidente do órgão condenasse o lançamento e que o comitê de sanções da ONU enumerasse as empresas que colaboraram com o teste, para sanções adicionais.
A reação de Pyongyang foi se retirar permanentemente das negociações entre seis partes sobre a península coreana (da qual participam as duas Coréias, China, Estados Unidos, Japão e Rússia) e ordenar aos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) que removessem os mecanismos de vigilância de sua quase inativa usina nuclear de Yongbyon e se retirassem do país. Depois, o regime de Kim anunciou, no final de abril, que iniciaria outro programa de enriquecimento de urânio, reconstruiria Yongbyon e faria provas nucleares e balísticas.
Assim, a única surpresa da última prova, cuja potência foi equivalente à bomba que os Estados Unidos lançaram sobre Hiroxima e Nagasaki em 1945, é que não demorou muito desde a ameaça norte-coreana. A maioria dos especialistas previa que aconteceria mais para frente. Obama disse segunda-feira que tanto o teste nuclear quanto os lançamentos de mísseis não eram surpresas, mas preocupantes, pois “representam uma ameaça para a paz e a estabilidade internacionais”.
“A Coréia do Norte não só aprofundo seu próprio isolamento, também convida a uma pressão internacional mais forte”, disse à imprensa. “Isso é evidente também porque Rússia e China, assim como nossos tradicionais aliados, Coréia do Sul e Japão, chegaram à mesma conclusão: a Coréia do Norte não terá respeito nem segurança com ameaças e armas ilegais”. Obama propôs “redobrar esforços” para um “regime internacional robusto de não-proliferação” de armas nucleares. Por sua vez, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Susan Rice, afirmou ontem que a Coréia do Norte “pagará o custo por suas provocações”
A crescente agressividade de Pyongyang é alvo de diferentes interpretações pelos especialistas norte-americanos. Alguns a atribuem a uma crescente luta pela sucessão no poder após um suposto infarto coronário sofrido por Kim no ano passado. Outros acreditam que os testes têm o objetivo de conseguir assistência humanitária e econômica dos Estados Unidos, além de concessores em matéria de segurança. Mas, quase todos coincidem que Obama não responderia de acordo com esses aparentes desejos. Se Washington reconhecer Pyongyang como Estado nuclear, por exemplo, haveria uma “crise de confiança” com a Coréia do Sul e o Japão, segundo Victor Cha, especialista em assuntos coreanos da Universidade de Georgetown e membro do Conselho de Segurança da presidente de George W. Bush. IPS/Envolverde

