Pequim, 02/06/2009 – A China aprovou o chamado turismo de desastres como forma de subsídio econômico para as áreas devastadas por um dos terremotos mais mortais da história recente. As casas derrubadas e setores inteiros de cidades e aldeias parcialmente arrasadas pelo enorme sismo do ano passado no sudoeste do país agora serão abertos aos turistas, anunciaram na semana passada órgão de comunicação estatais. “Nas ruínas há um enorme mercado turístico. Não podemos impedir a passagem dos turistas, e também esperamos que estes não firam os sentimentos dos sobreviventes do terremoto”, disse à agência de notícias Xinhua o vice-diretor do Departamento de Turismo da província de Sichuan, Wu Min.
Em 12 de maio do ano passado, o sismo abriu a terra nas áreas montanhosas de Sichuan, matando 90 mil pessoas. A gravidade do terremoto e a inicial tolerância do governo aos informes procedentes da área do desastre geraram um enorme interesse em uma audiência chinesa desacostumada a receber notícias oficiais sobre sofrimento público e devastação. As ruínas se converteram em uma atração para os turistas, que chegam às centenas de milhares, informou a agência estatal. A aldeia de Donghekou, onde apenas 300 dos mais de 1.400 habitantes sobreviveram a um deslizamento de terra causado pelo sismo, agora está entre os destinos mais concorridos da província. Mais de 260 mil turistas visitaram o parque de restos do terremoto de Donghekou desde sua inauguração em novembro.
A China foi palco de alguns dos tremores mais devastadores da historia moderna. Mas, um ano depois do terremoto de Sichuan o país não sabe como homenagear os mortos sem gerar perguntas incômodas. Os líderes chineses cumpriram suas promessas, e dias antes do aniversário divulgaram os primeiros dados oficiais sobre mortes de estudantes, dizendo que 5.335 crianças morreram ou desapareceram no terremoto. Mas, não há uma lista de nomes de mortos e as autoridades se negam a enfrentar as acusações dos pais sobre o papel da corrupção e da má administração no colapso de milhares de prédios escolares.
Temendo que a dor possa se transformar em indignação e distúrbios, os funcionários do governo não autorizaram os pais a celebrarem seus lutos entre os escombros das escolas onde seus filhos morreram. Foram proibidas as cerimônias comemorativas e anuladas as iniciativas civis para construção de memoriais na região do desastre. “Me falaram que essas lápides rotulariam Sichuan como área de desastre, e que agora devemos nos concentrar em reconstruir, não em recordar”, disse ao jornal Southern Weekend o artista Zhong Guangmao, que mora em Chengdu, capital da província. Zhong e foi um dos primeiros a apresentar propostas para substituir monumentos públicos em Chengdu, todas rejeitadas.
Porém, os funcionários incentivaram o auge do turismo de terremotos, insistindo que isso ajudará a recuperação econômica da região. Cerca de 46 milhões de pessoas foram afetadas pelo sismo de 7,9 graus na escala Richter. Foi o mais destrutivo dos que açoitaram a China em mais de 30 anos. As autoridades de Sichuan estimam que 1,5 milhão de pessoas perderam seus trabalhos e suas terras. A quantidade de turistas que se dirigiram a essa região nos últimos meses é assombrosa. Segundo o Escritório de Turismo de Sichuan, durante o feriado do Ano Novo Chinês mais de sete milhões de pessoas chegaram à montanhosa região. O fim de semana do 1º de maio também foi um ponto alto para o turismo: 2,9 milhões de pessoas chegaram a Chengdu, participando de visitas de um dia pela área do terremoto.
Os pacotes turísticos incluem visitas a parques com restos do terremoto, cemitérios públicos onde estão enterradas as cinzas de muitos mortos no desastre e plataformas de observação panorâmica da destruição. O auge do turismo de desastres recebeu aprovação não apenas de autoridades locais, mas também de líderes partidários. Um informe elaborado pela escola do governante e único Partido Comunista em Dujiangyan – uma das cidades mais devastadas – exortava os funcionários a “promoverem ativamente o turismo de terremotos” para transformar a destruição em um “valioso recurso turístico”.
Algumas localidades inclusive incentivaram os moradores a viajar a área do terremoto na qualidade de turistas e a ajudar, assim, na sua recuperação. O governo da Região Administrativa Especial de Macao, por exemplo, subsidiou os visitantes que partiam da li para Sichuan com vales de US$ 220 cada um. Alguns vêem a loucura do turismo de terremotos como um sinal perturbador. “Necessitamos de um museu do terremoto. Não podemos deixar que a lembrança de Sichuan seja enterrada com as lições do terremoto de Tangshan”, disse o analista Huang Xiaowei no The Economic Observer. “Sem um lugar adequado para recordar e refletir, a dor dos sobreviventes é transformada em objeto de consumo”, acrescentou.
Uma das maiores calamidades naturais da China ocorreu em meio ao isolamento político do país, na era de Mao Zedong (1949-1976). Entre 250 mil e 650 mil pessoas morreram em julho de 1976, quando um terremoto de 7,8 graus arrasou a setentrional cidade de Tangshan. Nessa oportunidade o governo proibiu as atividades não-governamentais de socorro e quis fazer tudo sozinho. Acredita-se que milhares de pessoas morreram devido à negativa da China de receber ajuda externa. Os governantes comunistas demoraram três anos para divulgar o número de vítimas. Apenas em 1986 foram publicados os primeiros testemunhos. Mas todo resto físico do terremoto foi removido e a cidade reconstruída, deixando pouco lugar para a história da catástrofe.
Os desastres continuam sendo temas delicados hoje, quando a quantidade de vítimas já não é considerada um segredo de Estado. Em Chengdu, perto da falha de Longmenshan, onde ocorreu o terremoto do ano passado, poucas pessoas sabiam da atividade sísmica na região. “Nos demos conta de que vivíamos à beira de um desastre sem saber disso. A ninguém foi ensinado nenhum preparativo para desastres, ou a história dos terremotos na província”, disse Zhou Jianzghong, um advogado morador em Chengdu. A memória histórica sobre estes fenômenos também é importante como vínculo emocional entre as pessoas, insistiu Fan Jianchuan, dono e curador do único museu existente sobre os terremotos na China, na localidade de Anren, em Sichuan.
“Uma tragédia como o terremoto de Sichuan traz à tona a humanidade em todos nós. Perdeu-se tanto de nossos valores morais tradicionais no caminho para fazer dinheiro que é importante ver o desafogo da dor e o apoio que Sichuan experimentou após o desastre, para lembrarmos a nós mesmos quem somos”, afirmou Fan.
Segundo os últimos dados fornecidos pelas autoridades de Sichuan, houve 11.687 escolas destruídas. E estimativas não oficiais indicam que morreram oito mil crianças. Mas os que tentaram redigir suas próprias listas foram intimidados. Os pais das crianças mortas sob os escombros das salas de aula disseram que os prédios estavam mal construídos e foram os primeiros a desmoronar, enquanto só edifícios do governo suportaram os tremores. Mas as autoridades negaram-se a aceitar críticas, insistindo em que a gravidade do terremoto foi a causa dos desmoronamentos. IPS/Envolverde

