NOUAKCHOTT, 08/06/2009 – Enquanto que a Mauritânia se prepara para eleições presidenciais no dia 6 de Junho, associações de mulheres apresentaram uma agenda clara e convincente para as mulheres. O difícil será convencer os políticos no país, na maioria homens, a ouvirem as mulheres. Os indicadores que medem a qualidade de vida das mulheres mauritanas mostram que há muito a fazer. Por exemplo, de acordo com a UNICEF, menos de 50 por cento das raparigas matriculadas na escola secundária acabam os seus estudos e duas em cinco raparigas na Mauritânia nunca vão à escola, mesmo a nível primário.
Este organismo das Nações Unidas também aponta que existem índices muitos elevados de mortalidade materna – 1.200 mulheres e raparigas morrem todos os anos na Mauritânia devido a complicações relacionadas com a gravidez. Além disso, 24.000 mulheres e raparigas sofrem lesões e incapacidades durante o parto.
Mariam Mint Mustapha, activista dos direitos das mulheres e membro do partido União Para a Democracia e Progresso, falou à IPS sobre a sua luta em prol da visibilidade das mulheres na política.
IPS: Durante anos, as mulheres na Mauritânia têm sido meras espectadoras na cena política, sendo visíveis apenas quando se vão organizar eleições. Desta vez, o que é que deseja na prática no que diz respeito às questões de desenvolvimento das mulheres?
Mariam Mint Mustapha: Tem razão quando afirma que, na maior parte do tempo, os políticos só falam das questões que afectam as mulheres durante as eleições. Logo que a campanha acaba, fecham as portas às mulheres.
É por isso que, desta vez, estamos activas no terreno, dizendo às mulheres que devem tomar uma posição forte e unida que sirva de plataforma comum para todas nós.
Desta vez, queremos que os nossos representantes apresentem leis que promovem oportunidades iguais para que homens e mulheres progridam na sociedade, como o acesso a crédito para a criação de pequenos negócios.
Também queremos assegurar que um maior número de mulheres qualificadas seja nomeado para cargos influentes no governo, de modo a servirem de exemplo a outras mulheres. Lembre-se que este é um país de nómadas, onde até muito recentemente a educação das raparigas era considerada uma prioridade muito baixa.
Também defendemos que o parlamento aprove leis que eliminem todo o tipo de discriminação e práticas tradicionais perniciosas que afectam os direitos das crianças e mulheres.
Por outras palavras, estamos a apelar à igualdade e justiça para todos.
IPS: A senhora é uma política que trabalha com mulheres nos bairros de lata em redor da capital. Se for eleito um novo presidente, o que é que quer que ele faça pelos pobres?
MM: Muito!!! Já viu qual é a situação das pessoas que vivem nos beirros de lata.
Não há serviços de saúde nesses bairros, não há electricidade nem água potável… absolutamente nada que nos possa orgulhar de residirmos numa cidade. De facto, estes locais são como guetos.
É por isso que, ao longo dos anos, tem sido difícil convencer as pessoas dos bairros de lata a recensearem-se, porque sentem que os sucessivos governos não se interessam por elas.
Agora, em colaboração com algumas pessoas no governo e com os líderes das comunidades dos bairros de lata, tenho estado a preparar um documento de trabalho para o desenvolvimento e melhoria da vida em geral nestes bairros. Algumas das ideias incluem o abastecimento de água canalizada, energia solar, centros de saúde e escolas públicas com estruturas permanentes.
É interessante notar que quase todas as escolas públicas nos bairros de lata são só estruturas temporárias, montadas em tendas.
Também apelamos ao governo que providencie financiamento para projectos que gerem rendimentos nos bairros de lata para que, ao fim de algum tempo, estas pessoas consigam prover à sua própria sobrevivência.
IPS: A senhora também gostaria que o número de mulheres em cargos ministeriais aumentasse do seu actual número de quatro, de um total de 26 cargos?
MM: Temos instado que o número de mulheres em cargos ministeriais aumente. Porém, a nossa exigência é que essas nomeações ministeriais tenham em conta não só o aspecto quantitativo mas também o aspecto qualitativo.
O que acontece agora é que as mulheres ficam com os cargos ministeriais menos relevantes e queremos que esta situação mude. Não é justo que 52 por cento da população continue a estar sub-representada.
Além de mais cargos ministeriais, queremos que as mulheres sejam visíveis nos cargos elevados que ocupam no governo, para que isso sirva de bom argumento contra os pais conservadores e os convença que não é uma perda de tempo enviarem as filhas para a escola.
Também existe uma nova tendência preocupante na Mauritânia: o elevado nível de divórcios no país… esse fardo recai sobre as mulheres.
Por isso, é importante que as mulheres recebam a educação correcta para poderem tornar-se independentes e manterem-se a si próprias.
IPS: A senhora está à espera do dia em que haja uma mulher presidente na Mauritânia?
MM: Uma mulher como presidente da Mauritânia? Oh não, não agora. Porque isso pode ser visto como estando a pedir muito…
Lembre-se que estamos a lutar por questões básicas para as mulheres e, mesmo assim, encontramos muita resistência. Imagino o que poderia acontecer se exigíssemos a presidência?
Sabe que a Mauritânia é quase 100 por cento muçulmana, e também uma sociedade muito conservadora. Por agora, vamos deixar a presidência para os homens, mas eles têm de nos conceder ministérios importantes.

