ÁFRICA: Pequena agricultura para reduzir a fome

Cidade do Cabo, 18/06/2009 – Toda tentativa para aliviar a pobreza e a fome e incentivar a economia da África será em vão se forem ignoradas as necessidades e o potencial da agricultura em pequena escala, bem como as barreiras comerciais. “Há cerca de 80 milhões de agricultores de pequeno porte na África. Produzem muito pouco, não porque não querem, mas porque não podem”, disse Florence Wambugu, criadora da Fundação Internacional de Biotecnologia Africa Harvest. Esta organização, com sede o Quênia, promove os agricultores da África oriental incentivando o uso de mecanismos como a manipulação genética. “Elevar a produtividade desses agricultores é possível. É chave para consolidar a segurança alimentar do continente e o crescimento econômico”, disse à IPS, que o entrevistou no Fórum Econômico Mundial sobre a África, realizado este mês.

Falta infra-estrutura, de acesso a créditos e novas tecnologias, bem como de apoio governamental e de instituições financeiras, figuram entre os muitos obstáculos que devem enfrentar. “A pequena agricultora africana está sozinha”, disse o ex-secretário-geral da ONU e atual presidente da Junta de Aliança para a Revolução Verde na África (Agra), Kofi Annan. “E digo ‘a’ porque a maioria das que vivem na África é de mulheres. Carecem de seguros contra eventos climáticos, não recebem subsídios nem têm acesso ao credito”, afirmou. A não-governamental Agra está dedicada a aliviar a pobreza nas comunidades rurais.

A escassa infra-estrutura de irrigação é uma das chaves nas dificuldades pelas quais passam os agricultores da região, segundo Nick Moon, cofundador da organização Kickstart International, que desenvolve tecnologias de baixo custo para o setor. “Apenas entre 4% e 5% das terras agrárias da África estão irrigadas. O resto se serve da chuva”, explicou. Poucas pequenas propriedades estão “perto de uma fonte de água, seja superficial ou subterrânea. Isto é um problema, em especial à luz da mudança climática”, acrescentou.

“Dessa forma, quando se trata de pequenas fazendas, deveríamos dar mais atenção à infra-estrutura de água e irrigação”, acrescentou. O acesso aos mercados também é crucial, segundo Wambugu. “As barreiras comerciais com as quais os países ricos protegem seus agricultores são prejudiciais, mas também as regionais”, disse a especialista. “Criar um mercado regional para os produtos africanos estimulará sua produção, pois serão capazes de vender seus excedentes, o que melhorará a segurança alimentar do continente e, em conseqüência, toda a economia”, assegurou.

O informe de Perspectivas Econômicas Africanas, preparado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, indica que o comércio intrarregional em 2008 chegou a US$ 424,140 bilhões, dos quais 17,1% corresponderam à agricultura. Durante o Fórum Econômico Mundial sobre a África, que terminou dia 12, também se avaliou que os governos africanos deveriam se apegar aos seus compromissos de investir 10% de seus orçamentos no desenvolvimento agrícola, além de abrir suas fronteiras ao restante dos países da região.

Esse compromisso foi estabelecido na Declaração de Maputo de 2003, e deveria ter sido cumprido em 2008, no contexto das medidas recomendadas para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas relativos ao combate à pobreza e à fome. Até agora, seis nações africanas cumpriram essa meta. A média de gasto orçamentário em agricultura para toda a União Africana é de 5% a 6%. Um dos países que cumpriu sua promessa é Ruanda. “A agricultura é um importante motor do desenvolvimento econômico, especialmente na África, onde grande parte da população depende da agricultura para sobreviver”, disse o presidente desse país, Paul Kagame.

“Ajudando os camponeses a aumentarem sua produtividade, aumentará o produto interno bruto e a população sairá da pobreza. A África poderá converter-se no celeiro do mundo, mas é preciso trabalhar para isso. Investir em agricultura é mais fácil do que ter milhões de pessoas morrendo de fome”, disse Kagame.

Wambugu considera que os governos africanos devem se concentrar ainda mais no desenvolvimento rural. “Nessa área é onde vive a maioria da população. Se não a tornar atraente, as pessoas continuarão emigrando para as cidades em busca de uma vida melhor. Isso irá em prejuízo da segurança alimentar do continente”, afirmou. A taxa de urbanização da África, de 3,5 % ao ano, é a maior do mundo, segundo a ONU. Estima-se que até 2030, se a tendência se mantiver, metade da população viverá em cidades e assentamentos rurais. IPS/Envolverde

Miriam Mannak

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