Têxteis: UE aumenta pressão sobre a China

Bruxelas, 26/04/2005 – Inundada por blusas, calças, abrigos, roupas íntimas e tecidos chineses em geral, a União Européia ameaçou Pequim com sanções comerciais se não deter o que chamou de "ruinosa" onda de exportações têxteis e, assim, proteger a indústria desse bloco regional. Peter Mandelson, comissário de Comércio da UE, exortou a China a considerar medidas mais rígidas para conter o aumento registrado em suas exportações têxteis desde que terminou o sistema internacional de cotas, no dia 1º de janeiro. Durante uma reunião informal de ministros do Comércio da Europa, realizada domingo em Luxemburgo, Mandelson confirmou que Bruxelas lançaria uma investigação sobre nove categorias de têxteis e peças de vestuário afetadas pela competição chinesa.

"A Europa não pode ficar sentada esperando as coisas acontecerem. Chegou o momento de agir", disse Mandelson aos ministros. O comissário anunciou que esta semana recomendará que a Comissão Européia (órgão executivo do bloco) inicie investigações formais sobre a onda de importações têxteis, com vistas à possível adoção de medidas de salvaguarda. "Se os fatos justificarem, usarei as salvaguardas", ameaçou, em referência a medidas que permitiriam a bloco europeu de 25 membros restringir as importações que ameaçam os produtores europeus. "Exorto a China a revisar as medidas que adotou recentemente e a estudar se não pode fazer mais alguma coisa", acrescentou.

Se a Comissão decidir que se justifica a aplicação de medidas de salvaguarda, pode introduzi-las no prazo de 150 dias. De acordo com o antigo sistema de cotas do Acordo Multifibra (1974), cada país tinha limites de exportação. Porém, o sistema de cotas terminou no primeiro dia deste ano, e a China aproveitou sua mão-de-obra barata e seus baixos custos de manufatura. Segundo cifras da Organização Mundial do Comércio, à China correspondem 20% das exportações mundiais de têxteis. A UE previu que essa porcentagem pode aumentar para 50% nos próximos cinco anos. de acordo com as normas da OMC, a União Européia pode limitar as importações de têxteis e peças de vestuário se aumentarem entre 10% e 100% acima dos níveis de 2004.

Pequim advertiu que seus vínculos com a UE poderiam sofrer uma deterioração caso Bruxelas imponha salvaguardas. "Convidamos nosso sócio europeu a ser muito cuidadoso com o uso das salvaguardas. Não prejudiquem nossa relação bilateral com medidas unilaterais", advertiu Youhou Liu, assessor comercial da embaixada chinesa, em uma audiência do Parlamento Europeu sobre o futuro da indústria têxtil, realizada no último dia 19. em um tom conciliatório, Liu convidou a Comissão Européia a "aprofundar o diálogo". Mas a indústria têxtil européia afirma que onda de importações chinesas custa dezenas de milhares de empregos e exige ações imediatas.

A Eunex, a associação têxtil européia, recebeu com beneplácito e cautela a decisão da UE de iniciar investigações sobre as importações têxteis da China. "O anunciou da Comissão é um primeiro sinal claro de que as autoridades européias não permanecerão passivas diante do aumento sem precedentes das importações chineses, de até 543% em algum produto, a preços que caíram até 47%", afirmou na segunda-feira Filiep Libeert, presidente da Euratex. Libeert recordou que "as salvaguardas são um instrumento legal, previsto justamente para estes casos excepcionais".

Alguns países-membros da UE, como Itália e França, pedem urgência a Bruxelas para tomar medidas imediatas, mas, outros, como os escandinavos, se opõem a qualquer ação protecionista. Organizações não-governamentais de desenvolvimento advertiram que as medidas da União Européia poderiam ameaçar o progresso da China para a redução da pobreza. "A indústria européia teve mais de 10 anos para se preparar para o fim das cotas", disse Phil Bloomer, diretor da campanha pelo Comércio Justo da organização humanitária Oxfam. "Mas, decidiu não fazê-lo. A China não deve ser castigada porque a Europa manteve a maioria dos cotas até o último minuto, em lugar de reduzi-las gradualmente", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Stefania Bianchi

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