LUANDA, 27/07/2009 – O quarto maior rio em África, o poderoso rio Zambeze, serve de sustento a 32 milhões de pessoas, desde a Zâmbia no interior, até Moçambique no Oceano Índico. Mas as suas benções também podem ser uma maldição. As alterações climáticas são apontadas como sendo responsáveis pelo aumento da precipitação ao longo dos 2.574 quilómetros do rio através de Angola, Zâmbia, Botsuana, Namibia, Zimbabué e Moçambique.
Nos últimos anos, centenas de milhares de pessoas perderam as suas casas, o seu gado e o seu sustento, causando uma grande insegurança alimentar, o aumento de doenças transmitidas pela água, e a degradação ambiental a longo prazo, numa área que já está profundamente afectada por elevados níveis de VIH e pela pobreza associada a essa situação.
Contar os custos
O início de 2009 testemunhou algumas das piores cheias na história desta região.
Na Namíbia, mais de 100 pessoas morreram e 55.000 ficaram desalojadas, tendo 350.000 perdido os seus meios de subsistência, o que levou o governo a declarar as cheias uma “catástrofe nacional”.
Na Zâmbia, onde as chuvas anuais aumentarem de 900 mm para 1.300 mm nos últimos anos, as comunidades que julgavam poder calcular quando deviam abandonar as planícies inundáveis foram agora apanhadas de surpresa. Este ano, dezenas de milhares de pessoas ficaram sem casa e as cheias, que destruíram as colheitas, são descritas como as piores em 150 anos.
E em Angola, ainda a recuperar da guerra civil que durou três decadas e que terminou em 2002, mais de 222.000 famílias ficaram sem casa devido às cheias que destruíram casas, afundaram estradas e arruinaram 228 hectares de colheitas, além de serem responsáveis pela morte de cabras, vacas e gado.
Comunidades vulneráveis
Uma equipa da Cruz Vermelha britânica enviada para a província do Moxico, no sudoeste de Angola, encontrou pessoas a viverem em condições desesperadas, com acesso limitado a alimentos e medicamentos, após terem perdido as suas colheitas devido às cheias, e tendo pouca esperança de poder recomeçar a sua vida sem ajuda externa.
Linda Hitchcox disse à IPS: “Esta província ainda está muito afectada pela guerra. É um ambiente selvagem, as pessoas vivem uma existência de subsistência e do que podem recolher, dependendo da pesca rudimentar para poderem sobreviver cada dia que passa. Agora perderam as suas casas, o seu meio de subsistência e o seu gado.”
“Não é que as pessoas não saibam que é perigoso viver perto do rio – claro que sabem isso – mas escolheram viver nesses locais porque o seu modo de vida é muito vulnerável. Precisam de viver perto de solos férteis para cultivarem os seus alimentos e estarem perto da água para pescar.
Como se verificou na Zâmbia, por exemplo, os ciclos tradicionais de chuva e períodos de seca já não são previsíveis e os sistemas de alerta existentes usados pelas comunidades não são suficientes para proteger aqueles que vivem na região da bacia do Zambeze.
Encontrar soluções
Numa tentativa de lidar com o impacto das alterações climáticas e os seus efeitos nestas comunidades, a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho criaram a Iniciativa transfronteiriça da Bacia do Rio Zambeze (ZRBI).
Concebida em 2008 e lançada no mês passado, o objectivo da ZRBI é aplicar a gestão de catástrofes a longo prazo a esta região.
A iniciativa inclui os seis países por onde passa o Zambeze, tendo o Malaui também sido incluído, visto que o rio Shire, um dos maiores tributários do Zambeze, está regularmente sujeito a contracorrentes e a subsequentes cheias.
Uma iniciativa transfronteiriça semelhante, que inclui as Sociedades da Cruz Vermelha do Quénia, Uganda e Tanzânia, tem sido posta em prática e testada desde 2003 nas costas do Lago Vitória, na África Oriental.
“Nos últimos anos, assistimos a um aumento dramático do número de cheias ao longo da bacia do rio”, explicou Farid Abdulkadir, coordenador de gestão de catástrofes da FICV na África Austral.
Interromper o ciclo
“Para muitas comunidades, estes acontecimentos são agora crises anuais, deixando-as num ciclo quase perpétuo de desastres, deslocações e recuperação”.
“O objectivo da iniciativa do Zambeze é interromper este ciclo, ajudar as comunidades a estarem preparadas para estas catástrofes e encorajá-las a tomarem medidas no sentido de reduzir o impacto devastador que este ciclo tem sobre as suas vidas”.
Um aspecto da iniciativa é o planeamento a longo prazo, a implementação de sistemas robustos de alertas precoces e a criação de uma abordagem mais integrada em toda a região entre os voluntários da Cruz Vermelha e as diversas delegações.
Karen Hvid, representante da FICV em Angola, afirmou: “A questão mais importante consiste em proporcionar às comunidades as ferramentas necessárias para reagirem atempadamente aos perigos e informá-las como devem reagir durante as primeiras 48 horas antes da ajuda chegar”.
“Se uma comunidade conhecer as suas vulnerabilidades e a sua capacidade, pode aprender a ajudar-se a si mesma”.
Acrescentou que mesmo as ferramentas básicas, como tambores e bandeiras a cores, podem ajudar as pessoas a transmitirem informação sobre o perigo e salvar vidas.
Os levantamentos efectuados pelas delegações da Cruz Vermelha na região constataram que as cheias, a subsequente deslocação de pessoas e a perda de colheitas têm causado vulnerabilidades extremas a nível social, económico e psicológico e ainda no campo da saúde.
Estas vulnerabilidades devem-se a uma série de factores, incluindo a falta de água potável e infraestruturas de saneamento, a existência de água estagnada, que faz aumentar as doenças transmitidas pela água como a cólera e a uma maior reprodução de mosquitos, causando mais malária, a dependência do milho, com poucas fontes alternativas de rendimento, uma maior insegurança alimentar, níveis mais elevados de VIH e SIDA, um elevado número de agregados familiares liderados por mulheres, e até mesmo uma invasão de crocodilos e hipopótamos devido a elevados níveis de água.
A ideia é resolver estes assuntos em conjunto e não isoladamente, antes e não depois da ocorrência das cheias.
O processo começa com a criação de mapas dos perigos que afectam as comunidades, por forma a melhor compreender os riscos, a gestão de catástrofes para saber reagir às cheias e a formação necessária a nível de saúde e saneamento, com vista a reduzir a propagação de doenças provocada pelo elevado nível das águas.
Depois há a melhoria da conservação dos alimentos pós-colheita para as culturas que sobrevivem, a informação sobre a protecção dos solos, os viveiros de sementes, a diversificação de colheitas e a formação sobre a nutrição.
As questões ambientais também são extremamente importantes e a ideia é envidar esforços no sentido de impedir a degradação da região a longo prazo através da plantação de árvores, a fim de reduzir a desflorestação e a subsequente erosão dos solos.
O objectivo da ZRBI é beneficiar directamente 235.800 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, durante um periodo de três anos.
Também se prevê que outras 464.000 pessoas que vivem nos distritos próximos mais afectados beneficiem indirectamente de um programa de formação sobre sistemas de alerta precoce, preparação para lidar com catástrofes e medidas de prevenção contra a malária e o VIH. Este programa deverá abarcar 700.000 pessoas.
É claro que tais iniciativas não são baratas e a FICV apela agora a fundos no valor de oito milhões de doláres para financiar o seu trabalho.
Segundo a organização, esta ajuda em dinheiro tem um impacto humanitário multiplicado por quatro se for empregue antes da catástrofe e não depois, numa operação de ajuda não ponderada.
Também espera que o Zambeze possa um dia atingir o seu potencial em diversas áreas como turismo, artesanato, intercâmbio cultural, comércio transfronteiriço, produção de electricidade e conservação do meio ambiente.

