Nações Unidas, 19/08/2009 – “Não creio que se possa alcançar o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio da ONU sobre saneamento”, disse à IPS Duncan Mara, professora de engenharia civil na Universidade de Leeds (Grã-Bretanha).
Duncan Mara trabalha desde meados da década de 70 no desenvolvimento de saneamento de baixo custo e em tratamento e reciclagem de esgoto em países em desenvolvimento. Em 2007, recebeu o prêmio “Fazendo um Mundo de Diferença”, concedido pela Chartered Institution of Water and Environmental Management (instituição britânica colegiada de gestão hidrológica e ambiental).
IPS- Existe algum modelo sustentável, barato e adequado de sistemas de saneamento que possa atender as necessidades dos 2,5 bilhões de pessoas que carecem inclusive de alguma forma elementar de privada e esgoto? DM- Não há realmente um “modelo”. O que é absolutamente crucial é transmitir os conhecimentos que já temos aos que mais necessitam deles: os engenheiros e planejadores dos países em desenvolvimento, tanto no plano local quanto estadual e do governo central. Se os engenheiros não conhecem a tecnologia X de saneamento, muito menos saberão como adaptá-la às necessidades locais, então, que certeza terão de estar recomendando a melhor opção para este lugar? Além disso, na realidade, não será somente a tecnologia X, mas tecnologias X, Y e Z.
Falamos de uma dezena de técnicas, no máximo, mas, precisamos que os conhecimentos sobre elas estejam disponíveis para todos os profissionais que dela necessitam. A Internet ajuda muito, mas nem todos têm uma boa conexão, e em todo caso a maioria da informação está disponível apenas em inglês. Naturalmente que parte também em francês, espanhol e português; e pouca – caso exista – em tamil ou chinês. São necessários cursos sobre gerenciamento dados via Internet, e não apenas referentes às tecnologias, mas também aos aspectos econômico-financeiros e institucionais, que as organizações não-governamentais com boas conexões à Internet podem baixar e distribuir localmente em CDs. O mundo precisa de profissionais altamente capacitados em saneamento, e precisa agora.
IPS- Por que a comunidade internacional se centra mais na água e menos no saneamento? Não são igualmente importantes, em particular para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio? DM- Agora se dá muito mais ênfase ao saneamento porque 2008 foi o ano Internacional do Saneamento, o que fez este tema subir muito na escala política. Naturalmente, todas as belas palavras ditas pelos ministros em várias conferências regionais têm de se traduzir em ações, e nós simplesmente teremos de esperar e ver os resultados. Devemos ser otimistas, não cínicos nem pessimistas, embora a história recente possa nos dizer o contrário.
Trata-se, definitivamente, de impedir que os pobres dos países em desenvolvimento defequem em si mesmos até morrerem, e temos que dizer aos governos dos países em desenvolvimento que se não investirem em saneamento estarão permitindo a morte prematura de pessoas. Anualmente, a falta de higiene e saneamento, mais a água de má qualidade matam mais pessoas do que a AIDS, e os governos têm de compreender isto. De uma perspectiva puramente sanitária, as latrinas e os esgotos são mais importantes do que a água, mas, na realidade, para uma boa saúde, deve haver bom saneamento, boas condições de higiene e água de boa qualidade, tudo junto.
IPS- Como um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em que parte da lista se situa o saneamento em termos dos avanços alcançados até agora? DM- O saneamento está muito atrasado em relação à água: 2,5 bilhões de pessoas carecem de acesso a um saneamento melhorado, enquanto menos de um bilhão não têm água potável. O preocupante é que destes 2,5 bilhões de pessoas, cerca de 1,2 bilhão não conta com nenhum tipo de privada. Essas pessoas defecam ao ar livre, e quase 60% vivem em um país: Índia. Portanto, pode-se argumentar que se queremos conseguir um impacto real na saúde mundial, devemos nos concentrar em dar acesso a um bom saneamento para esse 1,2 bilhão de pessoas que defecam ao ar livre.
Nisto é crucial a iniciativa de saneamento total liderado pela comunidade. Isto é, conseguir que comunidades se dêem conta de até que ponto não ter nenhuma instalação de latrinas é ruim para a saúde, mas, também para sua dignidade, e, no caso das mulheres e meninas, para sua segurança. E então conseguir que sejam instaladas latrinas apropriadas e adequadas a cada lugar.
IPS- Qual o papel das organizações não-governamentais na promoção do saneamento e da higiene em todo o mundo? DM- Há algumas que são realmente excelentes, com WalterAid e Sparc, sigla em inglês de uma entidade indiana que promove o desenvolvimento de latrinas administradas pelas comunidades de assentamentos urbanos, cujos habitantes são extremamente pobres para terem banheiros e privadas em cada casa. As organizações não-governamentais, especialmente as locais e quando apoiadas pelas internacionais, têm um papel real a cumprir, podem trabalhar com as comunidades e falar em seu nome às agências governamentais locais e também nacionais.
Entretanto, o papel mais importante das organizações não-governamentais, especialmente as internacionais e as grandes nacionais, é mostrar às agências com muito mais dinheiro qual é a melhor maneira de gastá-lo. As agências maiores podem copiar os êxitos de entidades menores, mas em uma escala muito maior.
IPS- Estas organizações não-governamentais são apoiadas por seus governos e pela comunidade internacional? DM- Algumas são outras não. Alguns governos parecem estar adotando o ponto de vista de que, como há algumas organizações locais, e também talvez uma internacional, atuando na área do saneamento, eles não precisam fazer mais. A comunidade internacional tem um desempenho melhor, em muitos casos apoia o trabalho de entidades não-governamentais locais e internacionais, mas esta pode ser outra razão para os governos nada fazerem.
As grandes agências, por exemplo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e o Banco Mundial, mas também agências bilaterais de assistência, deveriam dizer às nações em desenvolvimento que não estão investindo em melhoria da higiene, do saneamento e da água para suas populações urbana e rural pobres: “Vocês não podem ter X milhões de dólares para este projeto enquanto não começarem a fazer algo sensato para melhorar a higiene para seus pobres”
(IPS/Envolverde)


