EUA: Ação contra imigrantes ilegais afeta crianças

Phoenix, EUA, 19/08/2009 – O “comissário mais duro dos Estados Unidos” intensifica as ações contra trabalhadores imigrantes ilegais no Estado do Arizona, apesar de o governo de Barack Obama tentar que a repressão se concentre nas empresas infratoras e não nos empregados. Katherine Figueroa, de nove anos, não vê seus país há dois meses, desde que a polícia do condado de Maricopa prendeu o casal sem documentos em uma blitz na empresa onde trabalhavam.

Figueroa brincava com uma amiga na casa de uma tia quando ouviu na televisão a notícia da blitz em um lava-rápido. Correu para ver as imagens e pôde observar seu pai sendo levado algemado. Seus pais, Sandra e Carlos Figueroa, estavam entre os 25 detidos nesse dia. São acusados de roubo de identidade, por usarem documentos falsificados para conseguir trabalho no Arizona, sudoeste dos Estados Unidos. Podem passar seis meses na prisão antes de serem julgados, e depois até dois anos em liberdade condicional.

De todo modo, no final devem ser deportados para o México, seu país natal. A polícia de Maricopa, onde residem quase quatro milhões de habitantes, mais da metade da população do Arizona, realizou 22 blitzes e prendeu 264 trabalhadores desde 2008. A máxima autoridade policial do condado é o comissário Joe Arpaio, que se orgulha de ser o mais duro dos Estados Unidos. “O roubo de identidade é um crime grave. Embora pareça que o presidente Obama e o Departamento de Segurança Interna perseguirão exclusivamente as empresas, eu continuarei perseguindo os estrangeiros ilegais nos estabelecimentos comerciais que tiram empregos valiosos dos cidadãos norte-americanos”, disse Arpaio em recente comunicado à imprensa.

A legislação do Arizona contra as empresas que contratam trabalhadores ilegais é uma das mais rigorosas do país. As companhias podem perder suas autorizações de funcionamento e, em caso de reincidência, podem ser fechadas. Mas desde que a lei entrou em vigor em 2008 só é utilizada para prender os empregados. A Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que não se pode acusar de roubo de identidade os trabalhadores imigrantes se estes não se apropriaram intencionalmente do número de identidade que utilizam para trabalhar. Mas essa decisão não afeta o Arizona, que conta com suas próprias leis sobre roubo de identidade.

A pequena Figueroa, que é cidadã norte-americana, participou de uma manifestação no dia 7 com dezenas de crianças para exigir o fim da perseguição que separa as famílias. “Obama, Obama, queremos nossos pais”, gritavam enquanto caminhavam sob o forte sol do verão do Arizona desde a prisão onde estão seus país até o escritório do comissário Arpaio, no centro de Phoenix, capital do Estado. “É preciso acabar com as blitzes, não é justo o que fazem com a gente”, afirmou a menina, que carregava um cartaz com a imagem de uma borboleta laranja e negra. A borboleta monarca, que migra entre México e Estados Unidos para sobreviver, foi o símbolo da manifestação. “Q uero dizer ao comissário Arpaio que deixe meus pais tranqüilos e os liberte. E que tire os trabalhadores da prisão e em seu lugar coloque os assassinos e ladrões”, acrescentou.

As blitze contra trabalhadores no Arizona colocam as famílias de imigrantes, frequentemente com filhos nascidos nos Estados Unidos, diante da necessidade de obter assistência jurídica e apoio financeiro, mas não existe a infraestrutura para ajudá-las. “Penso em como vou comprar as fraldas para minha filha”, disse Maria, imigrante ilegal de 20 anos e mãe de um bebê de oito meses cujo marido foi preso. María, grávida de quatro meses pediu para que seu nome ficasse no anonimato. “Não havia motivo real para prendê-los. Estavam apenas trabalhando para alimentar seus filhos”, acrescentou.

Algumas comunidades armam pontos de venda de rua e lavagem de carros para conseguir dinheiro. Outras encontram ajuda nas igrejas que lhes oferecem um lugar para se reunirem e se organizarem. “Muitas famílias não estão preparadas para resolver o cuidado dos filhos”, disse Sarah Myklebust, ativista do Phoenix Repeal Coalition, grupo comunitário que oferece orientação e organiza a população imigrante. Outro problema é que as famílias não têm dinheiro para contratar advogados, e nos tribunais faltam tradutores para que entendam o processo, acrescentou. “Existe uma grande escassez de advogados especializados em imigração”, acrescentou. E, além disso, há as necessidades básicas. “São grávidas que dependem de seus maridos e não têm dinheiro para pagar uma ultrassonografia ou coisas do cotidiano”, afirmou Myklebust.

A situação dos Figueroa é muito difícil. A família teve de vender os móveis de casa para conseguir dinheiro e pagar parte dos honorários dos advogados que defendem os presos. O processo legal também é confuso. “Estou triste e confusa”, disse à IPS Sandra Figueroa em uma conversa na prisão Estrella para mulheres. “Os advogados me informaram que se quiser ficar livre tenho de acusar meu chefe”. Ela acredita que recebeu péssima assistência jurídica, e contou que um advogado chegou a sugerir que se casasse com um cidadão norte-americano para conseguir seus documentos legais.

As blitzes de Arpaio não estão livres de protestos e polêmicas. “Passei três meses na prisão e nunca recebi atenção médica”, afirmou Celia Alvarez, detida em fevereiro em uma ação realizada na empresa de paisagismo em que trabalhava. Ela não pode amamentar seu filho. “Não prejudica apenas a nós, mas também nossos filhos”, disse a respeito de Arpaio. Sua filha Heidi Portugal, cidadã norte-americana de 11 anos, participou da manifestação deste mês. “Quero que Arpaio deixe de roubar o sorriso das crianças. Acredito que deveria ser deportado para o México para poder ver como as pessoas sofrem ali, o quanto é difícil cruzar a fronteira para os Estados Unidos. Nunca que ocorreu perguntar por que vieram? Quantos sorrisos deixaram para trás?”, perguntou. Apesar de tudo, há alguns sinais positivos.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos investiga supostas violações dos direitos civis cometidas pelo escritório do comissário de Maricopa. Em razão de um acordo com o Departamento de Segurança Interna, Arpaio conta com a força mais numerosa do país para aplicar as leis federais sobre imigração. Mas suas atribuições federais estão em xeque devido a uma recente disposição adotada pela secretária de Segurança Interna, Janet Napolitano, solicitando à polícia que se dedique a prender os imigrantes que cometem crimes e não os que estão sem autorização de residência no país. Salvador Reza, um ativista da Puente, organização contrária às práticas de Arpaio, disse esperar que a manifestação das crianças “chegue ao coração” do comissário, se é que ele tem um.

Buffalo Rick Galeener, partidário do comissário Arpaio é um dos poucos que protestaram contra a manifestação das crianças, disse que “isto é uma forma de abuso infantil. Estes pais estão se separando de seus filhos, quando poderiam levá-los de volta ao México”.

(IPS/Envolverde)

Valeria Fernández

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