Belgrado, 19/08/2009 – A indústria armamentista da Sérvia cresce em bom ritmo, em contraste com a crise que afeta outros setores da economia. As exportações de equipamento militar atingiram US$ 520 milhões em 2008 e chegarão aos US$ 650 milhões este ano, segundo a Câmara de Comércio Sérvia.
Aproximadamente 90% do armamento produzido neste país são vendidos ao exterior. “A indústria bélica da Sérvia se recuperou. Serão vendidos 20 aviões de treinamento Lasta ao Iraque até meados de 2010”, informou o ministro da Defesa, Dragan Sutanovac, ao retornar de Bagdá, onde assinou contrato no valor de US$ 305 milhões. “É um dos maiores contratos que nossa indústria militar já teve, permitirá criar quase 20 mil postos de trabalho e significará o regresso de nosso país à cena internacional nessa área”, acrescentou o ministro. O Iraque receberá a primeira aeronave construída na fábrica de Utva, localizada em Pancevo, vizinha de Belgrado, no final deste mês. “Inauguramos uma semana trabalhista de seis dias, contratamos cem novos empregados e aumentamos significativamente os salários”, disse o gerente da Utva, Tomislav Bjelogrlic.
Os salários da indústria militar aumentaram para o equivalente a US$ 923 por mês, o dobro do que é pago nos demais setores. “A recuperação da indústria militar, especialmente o contrato com o Iraque, permitirá o florescimento de outros setores”, disse Sutanovca à Rádio e Televisão da Sérvia. “Nossas construtoras ergueram o grosso da infra-estrutura do Iraque nos anos 70 e 80. Talvez possamos voltar no futuro, pois esse país pretende investir US$ 70 bilhões em projetos de reconstrução”, acrescentou. Antes das guerras de dissolução da antiga Iugoslava nos anos 90, o setor bélico da Sérvia gerava vários milhares de milhões de dólares por ano, uma das principais indústrias de exportação. A produção se concentrava em seis fábricas, que tinham o Estado como sócio majoritário.
Os principais clientes eram membros do Movimento dos Países Não-Alinhados (Noal), como Iraque e Líbia. Com as guerras dos Balcãs, a Organização das Nações Unidas impôs um rígido embargo sobre a exportação e importação de armas na região. As fábricas de armamento foram alvos recorrentes dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra a Sérvia em 1999, em razão da brutal repressão lançada pelas autoridades deste país contra as pessoas de origem albanesa de sua então província de Kosovo.
A região declarou sua independência unilateral em fevereiro de 2008, que foi rapidamente reconhecida por algumas potências ocidentais, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas considerada ilegítima pelos próprios sérvios, além de Rússia e China, entre outros países. O bombardeio de 11 semanas da Otan destruiu fábricas de rifles, armas pequenas, mísseis, artilharia antiaérea e de munições, entre outros dispositivos, localizadas no centro do país. A única que se salvou foi a gigante de explosivos Prva Iskra, a 37 quilômetros de Belgrado.
“Agora se voltou às armas, mas para a produção e a indústria, não para a guerra”, disse à IPS o analista militar Aleksandar Radic. “É um negócio totalmente transparente, com contratos acordados de antemão, supervisionados por autoridades responsáveis e competentes no âmbito local e no exterior”. O grosso dos US$ 30 milhões exportados este ano, 30% mais do que em 2008, pela fabricante de armas pequenas Zastava Oruzje, foi para as missões de paz do Afeganistão e Iraque e para as forças regulares iraquianas, disse o gerente da companhia, Rade Gromovac. A empresa também produz rifles de assalto, a maioria vendida para os Estados Unidos. Os países do Noal são um destino promissor para os produtos industriais e agrícolas sérvios.
O presidente sérvio, Boris Tadic, propôs na cúpula do Noal, realizada no Egito no mês passado, que a reunião de 2011, quando serão comemorados os 50 anos do movimento, seja em Belgrado, onde aconteceu a primeira, em 1961. “O restabelecimento da cooperação como os países do Noal, alguns grandes, como Índia ou Indonésia, ou muito interessados em investir como os do Oriente Médio, servirá para reavivar a economia” local, disse à IPS o porta-voz da Câmara de Comércio, Ivan Jaksic. “Há uma grande necessidade de especialistas da indústria militar nesses países. Mas, também há uma grande demanda por produtos agrícolas e de serviços como gestão, construção, medicamentos, transporte, engenharia e tecnologias da informação”, acrescentou.
(IPS/Envolverde)

