SAÚDE-ZIMBÁBUE: Sem esperança no hospital

Bulawayo, Zimbábue, 27/08/2009 – Antes, os habitantes do Zimbábue levavam seus parentes doentes a clinicas rurais onde havia remédios disponíveis e planos de pagamento acessíveis. Mas agora os levam a esses locais apenas para morrerem. Milhões de zimbabuenses já não têm acesso a uma atenção básica de saúde. Os centros que fornecem esses serviços estão em declínio há vários anos, e a greve que realizam os médicos há três semanas somente piorou a terrível situação. No último dia 21, o governo anunciou a demissão de todos os profissionais em greve, argumentando não ter como atender suas demandas salariais, por salários de até US$ 2 mil. A situação obrigou muitas famílias a tomarem decisões de vida ou morte em relação aos seus entes queridos.

Na cidade de Bulawayo os pacientes desesperados vão ao hospital somente para serem atendidos por praticantes de enfermagem. Os aparelhos que antes salvavam vidas deixaram de funcionar e as unidades de cuidados intensivos estão vazias. A situação pôs em destaque o crescente desespero de milhões que com o passar dos anos se resignaram a sucumbir a doenças curáveis. “Ninguém mais vai ao hospital, e algumas famílias que não podem receber uma atenção adequada enviam seus familiares doentes para morrerem nas áreas rurais”, disse Tabeth Gumpo, que trabalha com um grupo de 20 mulheres que atuam como cuidadoras no lar.

Há poucos anos, enquanto o país começava a afundar na crise econômica, as pessoas levavam seus familiares às clinicas rurais, porque estas não exigiam um pagamento inicial e davam remédios que não estavam disponíveis nas clinicas e nos hospitais urbanos. Mas, tudo isso mudou. Para os lares rurais, o problema passou a ser mais de como reduzir os gastos com tratamento medico e também com reduzir despesas com os funerais.

Nas zonas rurais do Zimbábue, as famílias não têm de comprar elementos como caixões e túmulos para sepultamentos, como nas cidades, disse Simoso Macheke, uma enfermeira que está entre os muitos profissionais que se integraram à greve dos médicos. “Os moradores de áreas urbanas sabem que os funerais se tornaram um assunto caro, por isso tão logo veem que um parente está muito doente e não podem pagar pelos serviços de saúde, simplesmente os levam para suas casas rurais”, disse Macheke à IPS. “Naturalmente esta não é maneira de tratar um ser humano, mas estes são os tempos que vivemos”, acrescentou.

Algumas organizações não-governamentais que operam nas zonas rurais da província de Matabeleland do Sul disseram que embora as famílias cuidem de seus membros doentes, se veem limitadas em seus esforços por falta de profissionais capacitados que os assistam. Isto se complicou pelo fato de as clinicas estarem muito longe das aldeias onde vivem estes pacientes. “A situação piorou, já que também não temos remédios. E a lista de pessoas que buscam antiretrovirais (para casos de HIV/aids) continua aumentando”, disse à IPS Gillian Sibanda, diretora do Departamento de Saúde da Igreja Católica em Bulawayo. “Há muito pouco para estas famílias fazerem além de ver seus membros morrerem”, acrescentou.

A greve dos médicos, à qual logo uniram-se os enfermeiros, acontece apesar dos compromissos assumidos pelo governo de coalizão durante sua formação. Um dos desafios imediatos era garantir a reconstrução do setor da saúde, vítima de anos de mau financiamento. Agências com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) se comprometem a financiar parte dos salários públicos para que seja fornecidos serviços essenciais como os da saúde, mas ainda têm de intervir para evitar uma crise humanitária. Os maiores hospitais do país estão notoriamente carentes de médicos. Com a falta de fundos dos doadores, é provável que a reconstrução do setor da saúde demore muito mais tempo, cobrando muitas vidas.

“Meu irmão teve diagnosticado tuberculose, e tem de ir regularmente ao hospital para receber tratamento. Mas hoje ninguém nem olhou para ele, porque não há médicos. Estes enfermeiros jovens não têm idéia do que estão fazendo”, disse à IPS Johanes Lubimbito. Este homem fez essas afirmações enquanto levava para casa seu irmão, de 30 anos e visivelmente debilitado, em um carrinho de mão. Ambos procediam do Hospital de Mpilo, onde seu irmão não recebeu tratamento algum. O de Mpilo é um dos maiores hospitais do país e está sendo muito prejudicado pela greve dos médicos.

“Queremos que o governo pague salários superiores a US$ 1 mil, e US$ 500 em complementos. Os atuais US$ 170 que paga são inadequados e não incluem complementos por plantões, nem para transporte e moradia”, disse Brighton Chzhanje, presidente da Associação de Médicos de Hospitais do Zimbábue. Cerca de 300 dos profissionais que integram essa entidade aderiam à greve. O estatal Conselho de Serviços de Saúde diz não ter dinheiro para atender a demanda e na sexta-feira o governo anunciou a demissão de todos que participavam da greve.

Estes péssimos salários “obrigaram muitos profissionais a abandonar o país”, disse Owen hadzisa, médico de 31 anos radicado na África do Sul, que há pouco regressou de férias ao Zimbábue. As pessoas que proporcionam cuidados nos lares se converteram na vanguarda da atual crise, na falta de profissionais capacitados. Segundo Gumpo, que trabalha no distrito de Tshabalala, um dos mais densamente povoados de Bulawayo, de 30 pacientes que havia ali no começo do ano agora restam apenas 19. Os demais morreram. “Podemos fazer muito pouco, e dentro de nosso grupo no lar alguns se queixam cada vez mais que não conseguem apoio de profissionais da saúde que deveriam orientá-los”, disse Gumpo à IPS. A greve acontece em meio a advertências de organizações humanitárias com Médicos sem Fronteiras, que se preparam para outro possível foco de cólera, com a iminente estação chuvosa no país. Em agosto do ano passado, essa doença deixou mais de quatro mil mortos, em um momento em que a maioria dos profissionais da saúde havia deixado o Zimbábue em busca de trabalho melhor remunerado. IPS/ Envolverde

Ignatius Banda

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