BRASIL: Música abre portas para a inclusão social

São Paulo, 28/08/2009 – “Caminhamos uma hora e vinte minutos, porque não temos dinheiro para o ônibus, que faz o trajeto em 30 minutos, mas as meninas nunca faltam às aulas de música, nem mesmo quando ficam sem almoço ‘por falta de tempo’”, conta a mãe, Maria da Cruz

 - Márcia Zoet, gentileza Proyecto Gurí

- Márcia Zoet, gentileza Proyecto Gurí

Naquele dia de junho, Jaqueline, de 9 anos, estava com a garganta inflamada, o que a impedia de se exercitar no violino, mas acompanhou a irmã de 13 anos para que não perdesse sua aula de percussão. “As duas precisam vir, porque não tenho com quem deixar uma delas em casa”, justificou a mãe.

O esforço de Maria da Cruz e de suas filhas se repete às terças-feiras e quintas-feiras para aproveitar a oportunidade oferecida pelo Projeto Guri em Itaquaquecetuba, município pobre de 350 mil habitantes na área metropolitana da capital paulista. Guri é uma palavra indígena guarani que significa menino. O projeto, iniciado em 1995 pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo com a missão de promover a “inclusão sócio-cultural de crianças e adolescentes por meio do ensino musical”, atende cerca de 40 mil menores e atrai uma grande maioria de pobres por ser gratuito. Essa quantidade de alunos é um recorde para iniciativas deste tipo no Brasil, mas equivale a apenas 0,5% dos estudantes primários e secundários do Estado.

Também constitui uma fonte sem precedentes de trabalho para os músicos, pois oferece 1.800 postos de professores e auxiliares. As aulas são dadas em 362 polos distribuídos em 302 municípios e administrados pela Associação de Amigos do Projeto Guri, basicamente com recursos do governo estadual, além de contribuições de sócios, como prefeituras e instituições que oferecem sedes, e patrocinadores que ajudam financeiramente.

Melhorando o aprendizado

“Meus filhos sonham em ser músicos, tocam e cantam o dia todo”, diz Eliana Mendes, que leva três de seus quatro filhos ao Projeto Guri. Além da futura profissionalização, ela comemora os frutos imediatos. O mais velho, de 12 anos, melhorou muito da dificuldade para falar graças ao coral, e a filha que estuda violão está superando uma timidez excessiva. Maria da Cruz destaca que estudar percussão reduziu a agressividade de sua filha, que também se reconciliou com a escola, antes rejeitada sob o argumento de que “basta saber ler e escrever”.

As mães lamentam que o Polo Itaquaquecetuba, com 428 alunos, deixou de oferecer merendas no começo deste ano, quando foi transferido do amplo edifício de uma escola especial para o vestiário e oficinas de um estádio de futebol no mesmo bairro do Morro Branco. As novas instalações, pequenas e sem ventilação, muito quentes ou muito frias, segundo a época do ano, não permitem que os 120 componentes da orquestra ensaiem juntos e é preciso fazer isso em grupos separados, queixa-se a coordenadora da unidade local do Guri, Jocimara Caetano. Além disso, em razão da umidade, alguns instrumentos apareceram com mofo.

A prefeitura transferiu o pólo este ano porque precisava de mais salas de aula na escola para atender as crianças de um novo conjunto habitacional recém-construído, que aumentou muito a população do bairro. A prioridade é o ensino regular. “Só queremos um local adequado para um projeto sério e bom, que socializa e forma cidadãos”, reclamou Raimundo Siqueira, que tem uma filha e um sobrinho no pólo, criticando a Secretaria Municipal de Cultura por esta negligência.

Márcia de Camargo, dona de um pequeno comércio vizinho, também deseja uma sede melhor, agradecida porque cantar no coral ajudou seu filho de 9 anos a vencer uma boa parte de seu déficit de atenção e má dicção. “A arte é a melhor educação”, reconheceu Luci Arena, diretora da escola de onde o pólo foi desalojado. A música desenvolve “a atenção, a disciplina e a convivência. Uma aula convencional não estimula a concentração, mas a música sim”, além de emocionar e, por isso, impulsionar o aprendizado, disse a Arena.

A escola tinha um aluno com deficiência mental que “entrava e saía da sala de aula quando queria, com se estivesse em sua casa”, mas ao freqüentar o Projeto Guri entendeu a necessidade das regras e de escutar os professores. A partir de então, progrediu muito também no ensino regular, contou a diretora. Ela, que não tem poderes para manter o projeto na escola porque suas funções são apenas pedagógicas, explicou que seus alunos aumentaram para 1.400 este ano, 300 a mais do que em 2008, e serão necessárias novas salas em 2010.

Viés social

Entretanto, o Projeto Guri tem “objetivos sociais”, não educativos nem de fomento do emprego, segundo sua diretora-executiva, Alessandra Costa. Busca-se “democratizar o acesso à cultura musical”, mas principalmente como uma iniciação, pois “não pretendemos formar artistas”, afirmou. Em sua visão, o ensino musical fornece “instrumentos para a vida”, fomentando “capacidades cognitivas, sensoriais e físicas” para qualquer carreira ou emprego que o aluno seguir, por isso o projeto se define como sócio-cultural.

Nesse aspecto, somente se admite o ensino coletivo e não se faz distinção de classe, mas estimula-se a mistura para proporcionar uma convivência “saudável, igualitária” de alunos de diferentes camadas sociais, o que favorece o desenvolvimento da sociedade, explicou a diretora. A descoberta de talentos é “algo que acontece, mas não é uma meta”, acrescentou. Porém, essas limitações definidas no projeto contradizem os sonhos e objetivos de provavelmente a maioria dos alunos, estimulados pela formação de orquestras nos pólos mais numerosos e pelas apresentações que fazem em ocasiões especiais.

Boa parte dos professores é de ex-alunos do Grui, como Valdir Maia, de 27 anos, que estudou cinco anos no projeto, onde sentiu “amor pelo violoncelo ao ouvir o primeiro som”, e passou depois à universidade. Agora dá aula no Pólo de Achiropita, uma paróquia católica do tradicional bairro paulista do Bixiga.

A descentralização administrativa do Projeto Guri está criando 13 Polos Regionais para coordenar um conjunto de polos locais e que oferecem um ensino mais qualificado, incorporando novos instrumentos e formando bandas populares, o que incentiva a busca pela profissionalização. Em um desses Pólos Regionais, que pode chegar a 500 alunos, cada instrumento terá seu professor, enquanto nos locais um professor dá aula para um conjunto de instrumentos, como os de sopro ou de cordas, explicou Ideli Costa Nichele, coordenadora do Pólo Regional de Jundiaí, a 60 quilômetros de São Paulo. Isto poderia acentuar as desigualdades entre polos grandes e os mais precários das pequenas cidades. Em Cordeirópolis, município de 20 mil habitantes a 160 quilômetros da capital paulista, o Projeto Guri local só funciona no período da tarde, excluindo os alunos do turno vespertino. Um terço de sua capacidade, de 129 alunos, está ocioso.

De todo modo, a presença do projeto beneficia “uma juventude esquecida” e os pobres, destacou o secretário de Cultura de Cordeirópolis, Nivaldo Menezes, destacando que a sede do polo é mantida pela contribuição privada. Os políticos, segundo ele, não gostam da cultura por seu “lento retorno. Um ator demora anos para se formar, enquanto uma ponte é construída em poucos meses”, disse. O inevitável florescimento de talentos levou a administração do projeto a decidir criar um Fundo de Bolsas para ajudar alguns ex-alunos a prosseguirem seus estudos em instituições de excelência, nacionais e estrangeiras.

A idéia ganhou força quando Anna Murakawa, de 18 anos, foi convidada no ano passado a aperfeiçoar seus estudos de violino na Academia Nacional de Sofia, capital da Bulgária, onde vive desde março com apoio financeiro do Projeto Guri. A próxima beneficiária será Milena Salvatti, que descobriu tardiamente, aos 17 anos, sua paixão pelo violoncelo, após sonhar com a dança e o desenho. Em seis meses no Projeto Guri e apenas três de aulas efetivas com o instrumento, revelou talento suficiente para ganhar uma bolsa de preparação e depois se graduar na universidade. Agora, aos 25 anos, a jovem cuja mãe é aposentada por invalidez e que não conheceu o pai, pois abandonou a mãe antes de seu nascimento, tem de aprender rapidamente a língua alemã para fazer mestrado na Suíça, como convidada de uma orquestra de Zurique.

MÚSICA PARA A PACIÊNCIA

“Com a música ganhamos paciência”, destacam as jovens detidas no Centro de Atendimento Sócioeducativo ao Adolescente (CASA) do bairro paulistano da Mooca. Respeito ao outro e às regras, disciplina e força de vontade são outras virtudes que puderam desenvolver, mas, talvez não estivessem ali se houvessem aprendido antes a serem pacientes. A paciência se adquire nos ensaios coletivos, porque um tem de esperar vários minutos, observando a execução dos demais, para intervir com seu instrumento no momento preciso, em alguns casos uma única vez e por escassos segundos em toda uma obra, explicam as jovens.

Orientadas por três professores, uma dezena de internas do centro já compõem uma pequena orquestra de flautas, saxofones, violinos e percussão, cujo som conseguem combinar lendo partituras. São adolescentes pobres que jamais se imaginaram tocando instrumento e tendo aulas de música. O Projeto Grui oferece cursos de música em 46 unidades de internação da Fundação Casa. Fazem parte da reforma executada desde 2006 no tratamento de adolescentes infratores em São Paulo, para torná-lo realmente sócioeducativo. Os centros CASA substituíram os grandes locais de detenção da extinta Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), onde eram freqüentes as rebeliões, as fugas e os atos violentos. Há cerca de seis mil jovens internos no Estado, a imensa maioria de homens.

Além de música, fazem teatro, dança, esportes e cursam o ensino regular. Entre as adolescentes, o tráfico de drogas é o crime mais comum, mas Celina (nome fictício escolhido por ela), uma negra forte e tímida de 19 anos, está ali por homicídio. Matou o homem que tentava violentar sua sobrinha, justifica. Em poucos meses sairá livre, ao completar três anos de internação educacional. Consideradas por seus colegas e funcionários do centro como “a mais musical e melhor cantora” do grupo, onde é a principal percussionista, seu sonho é cuidar da mãe, voltar à sua igreja evangélica e gravar um disco de música religiosa.

DEIXAM DE SER POBRES

“O Projeto Guri poderia ter grandes orquestras se de fato se acreditasse nas crianças”, diz o diretor da Orquestra Sinfônica da Bahia, Ricardo Castro, que impulsiona uma iniciativa de educação musical com os mesmos objetivos. Nascida em julho de 2007 em Salvador, capital baiana, seu projeto já conta com uma orquestra que encantou o público de São Paulo e mais sete capitais do nordeste em julho e agosto. Seu objetivo, expresso no nome Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá), é reproduzir o sistema venezuelano, que conta com mais de 220 orquestras e 180 núcleos dos quais participam 350 mil crianças e jovens.

“Toda criança pode tocar bem um instrumento”, afirma Castro, pianista de sucesso na Europa que voltou à Bahia para assumir a direção artística da estatal OSBA em janeiro de 2007, com a condição de poder construir os Neojibá. “Em três meses pode-se executar peças simples” com um grupo de jovens, acrescentou, enquanto a necessidade de talento especial é “apenas para os solistas”. Às críticas de que a formação musical erudita não tira as crianças da pobreza nem das favelas, Castro responde prontamente: “Quem passa por essa experiência deixa de ser pobre, porque ganha riqueza interior, orgulho e autoestima, e volta à favela para transformá-la”. IPS/Envolverde

* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.

(Envolverde/IPS)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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