TABACO-ÁSIA: Multinacionais querem o Sul asiático

Bangcoc, 28/08/2009 – Empresas multinacionais de cigarros realizarão um congresso na Tailândia como parte de uma ofensiva para dobrar as vendas nos países do Sul em desenvolvimento, agora que as políticas contra consumo de tabaco lhes fecham as portas dos mercados do Norte industrializado. Os organizadores do encontro que promoverá o consumo de cigarros, denominado Tabinfo Asia 2009, não escondem o motivo pelo qual escolheram a capital tailandesa para sede do “show do tabaco” na Ásia-Pacífico. “Esta região não escapou da crise financeira mundial. Mas seu mercado de cigarros é mais forte do que em outras partes e continua sendo um dos mais promissores do mundo”, afirma a publicação comercial Tobacco Reporter em seu site na Internet.

O congresso, que acontecerá entre 11 e 13 de novembro, oferecerá “uma grande diversidade de atores da indústria. A lista de participantes faz deste um evento imprescindível para trabalhar em rede, descobrir, comprar e vender”, acrescenta o site. As oportunidades que apresentam Filipinas, Indonésia, Malásia e Tailândia são destacadas pela publicação. “Com vendas em 2007 de 231 bilhões de cigarros, a Indonésia é o maior mercado do sudeste da Ásia. Também é um dos mais promissores em função do valor”, explica Tobacco Reporter.

A escolha de um país em desenvolvimento para sede do congresso e a exposição das fabricas de cigarro ocorrem quando o mercado do tabaco no Norte industrializado diminui devido a uma bateria de políticas contra seu consumo. Esta tendência se reflete nos lugares onde a indústria do setor se reuniu nos últimos tempos, a cada dois anos. A feira comercial do tabaco 2007 aconteceu em São Paulo (Brasil). Antes, em 2005, teve lugar em Kuala Lumpur, na Malásia. A última feira desse tipo em um país industrializado aconteceu em 2003 em Barcelona (Espanha), em 2003.

“Esta mudança ocorreu para identificar as oportunidades de mercado que as companhias de tabaco têm nos países em desenvolvimento”, afirmou Mary Assunta, presidente da Framework Convention Alliance (FCA). Quando a Tabinfo foi realizada na Malásia, descreveu a Ásia como o “mercado de maior crescimento” e qualificou Kuala Lumpur de “porta de entrada” para o continente. A FCA é uma rede de 200 organizações de todo o mundo que vigia o cumprimento da Convenção Marco para o Controle do Tabaco, o primeiro tratado de saúde pública internacional. O acordo, adotado em 2005 no contexto da Organização Mundial da Saúde (OMS), pretende reduzir a mortandade e as enfermidades causadas pelo tabaco.

“Como o governo tailandês fez tanto e tão bem pelo controle do tabaco, é provável que as empresas mundiais do setor também desafiem as medidas”, afirmou Assunta, em entrevista desde Sidney. “Provavelmente, tentem enviar à comunidade internacional a mensagem de que continuam sendo fortes e que se atrevem a ingressar nos meios mais rigorosos para exibir seu poderio”, acrescentou. O papel do Monopólio Tabaqueiro da Tailândia, órgão estatal que abrange quase 75% do mercado local de cigarro, também é questionado já que é um forte patrocinador da feira comercial de novembro.

“O fato de o Monopólio Tabaqueiro da Tailândia apoiar esta iniciativa revela que as empresas estão colocando o governo tailandês em uma situação comprometedora”, afirmou Bungthon Ritthipharkdee, diretor da organização South-east Asia Tobacco Control Alliance. “A Tailândia é uma parte da Convenção Marco para o Controle do Tabaco, da OMS”. Portanto, o governo não pode, por um lado, aplicar políticas de redução do consumo de cigarros, de acordo com suas obrigações na Convenção Marco e, por outro, ajudar a elevar o consumo através destas feiras, disse Bunghton à IPS. “Esta é uma contradição flagrante e que fere o artigo 5.3 da Convenção”, acrescentou.

Esse artigo estipula a necessidade de proteger as políticas de Estado da influência das empresas tabaqueiras, com a Convenção Marco que restringe todas as formas de publicidade, comercialização, patrocínio e promoção do tabaco. As fortes restrições da Convenção Marco protegem as pessoas da exposição ao tabaco, como a inclusão de advertências gráficas nos maços de cigarro e fortes taxações sobre os mesmos. Esta realidade se reflete na crescente lista de lugares que proíbem o cigarro, como bares e restaurantes com ar-condicionado, mercados ao ar livre e edifícios públicos. A Tailândia conta com 10 milhões de fumantes entre seus 65 milhões de habitantes.

Como Brasil e Canadá, a Tailândia também surge como um dos líderes do movimento pelo controle do tabaco em outros âmbitos: imagens de pulmões afetados cobrem a metade superior dos maços de cigarro. Para controlar a venda proibi-se toda forma de publicidade e os pontos de venda não podem exibir abertamente os maços. Estas medidas contribuem para a queda no número de fumantes na Tailândia, em comparação com vizinhos da região como Vietnã, Camboja e Indonésia. No Vietnã, 73% dos homens fumam. Em seguida estão Camboja e Indonésia com 70%.

Em todo o mundo há 1,3 bilhão de fumantes, dos quais 600 milhões morrerão prematuramente devido a doenças causadas pelo tabaco, segundo a OMS. “Lutamos para controlar o cigarro na Tailândia e a conferência prevista para novembro será um desafio para nós”, disse a doutora Prakit Vathesatogkit, secretaria da Action on Smoking and Health Foundation for Thailand, uma organização não-governamental que combate o consumo de cigarro. IPS/Envolverde

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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