AMBIENTE-CHINA: Represas entre a proteção ambiental e o desenvolvimento

Manila, 09/09/2009 – O governo da China deve atrair a colaboração de comunidades locais para aproveitar os vastos recursos hídricos e conseguir um desenvolvimento sustentável, segundo o ambientalista Yu Xiaogang “O produto interno bruto (PIB) chinês é o terceiro do mundo (US$ 3,86 trilhões). Este país também é o mais contaminado. É hora de o governo pensar no próximo passo” com vistas ao desenvolvimento sustentável, disse Yu no fórum da Universidade das Filipinas.

A IPS conversou com este ambientalista de 57 anos em Manila, onde se encontrava para receber o prêmio Ramon Magsaysay, considerado na Ásia tão importante quanto o Nobel. Yu teve reconhecido seu trabalho em comunidades afetadas por represas na China e por promover a reflexão sobre seu impacto social. A China conta com 85 mil represas, quase a metade das existentes no mundo, segundo a organização não-governamental Green Watershed (Bacia Verde), com sede em Manila. O governo chinês está desejoso de atenter as necessidades de uma economia em crescimento, mas isso prejudica o meio ambiente e causa o deslocamento de milhões de pessoas.

Yu, originário da província de Yunnan, com a maior quantidade de projetos hidrelétricos do país, estudou o impacto social da represa Manwan em Lancang, ou a parte mais alta do rio Mekong. Suas conclusões sobre as consequências negativas do projeto levaram o primeiro-ministro chinês, Zhu Rongyi, a ordenar uma investigação a respeito. O governo de Yunnan, por sua vez, tomou medidas para aliviar a difícil situação dos moradores. Yu explicou à IPS os desafios que a China tem pela frente para equilibrar as necessidades energéticas com a proteção do meio ambiente.

IPS- O senhor se opõe à construção de represas?

YX- A represa funciona como qualquer outra tecnologia. Não se pode simplesmente dizer que somos contra. Trazem muitos benefícios. Servem para irrigar terras agrícolas e gerar eletricidade. Mas, várias das construídas na China são, social e ambientalmente, inaceitáveis. As pessoas recebem uma indenização (da construtora) e abandona o local. Mas, perdem suas tradições, seus recursos naturais, sua cultura e seu capital social. A indenização não é suficiente. O dinheiro acaba. Depois de gastar tudo, já não têm do que viver.

IPS- O que o governo faz para resolver a situação?

YX- Existe o seguro social. Se perdem seu sustento por causa da construção de uma represa, o governo lhes dá um subsidio, cerca de US$ 50 por mês. Mas as pessoas devem ser produtivas. Não podem depender desse seguro, precisam ter seu próprio trabalho. Psicologicamente lhes faz mal.

IPS- Qual é a alternativa? Existe alguma boa represa?

YX- As pessoas devem participar e saber desde o começo como a comunidade será afetada. A represa pode resultar benéfica. Por exemplo, as pessoas podem ser acionistas da empresa construtora. Isto significa que o projeto pode servir ao desenvolvimento local e reduzir as consequências sociais negativas. IPS- Como fez para convencer as pessoas de que devem proteger sua comunidade dos efeitos negativos?

YX- A maioria das pessoas que se aproximam de nossa organização vive em comunidades que já contam com uma represa construída. O projeto tem um grande impacto em suas vidas: perdem sua terra, sua casa e seu sustento. Também convidamos pesquisadores e meios de comunicação, e as pessoas lhes contam seus problemas. Quando vamos às comunidades, vemos que elas discutem energicamente sobre as avaliações de impacto social. Organizam-se em grupos de trabalho e painéis onde aprendem a fazer suas próprias análises. Também convidamos funcionários locais, e os moradores podem apresentar-lhes seu informe de impacto. Além disso, convidamos pessoas de outras comunidades que já possuem represas para que saibam o que aconteceu com elas.

IPS- Qual a opinião do governo chinês sobre uma avaliação de impacto social?

YX- Eles consideram que não é necessária, é um conceito ocidental. Eles pensam: “Meu partido é o Partido Comunista, é o partido do povo. Meu governo é o governo do povo. Meu tribunal se chama tribunal do povo”. Tudo é par ao povo, então, para que fazer uma avaliação de impacto social? O governo central segue a filosofia tradicional sobre liderança: como líder, deve cuidar do povo, mas o povo não deve dizer-lhe como fazer isso. Se o povo de diz como fazer melhor uma tarefa, então não você não é um bom líder. IPS/Envolverde

Prime Sarmiento

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