Genebra, 09/09/2009 – A especulação ameaça novamente a débil economia mundial, afundada em uma crise de grandes proporções que parece repercutir com efeitos diferentes em distintos países em desenvolvimento, diz um documento da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Esta agência especializada da Organização das Nações Unidas vai contra os anúncios das últimas semanas sobre o surgimento de sinais de recuperação após a crise que eclodiu há um ano com a bancarrota de empresas financeiras e seguradoras dos Estados Unidos, primeiro, e depois de países europeus.
Ainda nos encontramos diante de uma situação muito frágil da economia global e só podemos pedir que as políticas em todo o mundo sejam muito cautelosas, preveniu Heiner Flassbeck, diretor da divisão de globalização e estratégias da Unctad. Também seu secretário-geral, Supachai Panitchpakdi, recomendou sobriedade na hora de avaliar as notícias sobre indícios de restabelecimento da economia mundial.
Esses “brotos verdes”, como a Unctad traduz a expressão em inglês “green shorts”, podem ser apenas um ressurgimento temporário, uma resposta aos baixos níveis de preços registrados antes do segundo quadrimestre deste ano, disse Supachai. A queda dos preços e da produção determinou tal profundidade da recessão e da paralisação, e “naturalmente pode haver algum novo ressurgimento”, disse o chefe da Unctad. Mas, essa recuperação deve ser comparada com a profunda contração dos níveis de preços de valores, produtos básicos, e também da produção, insistiu.
Assistimos um aumento do desemprego e nessas condições não cremos que seja possível manejar uma recuperação real, pois os consumidores ainda continuam seriamente endividados e dispõem de menos recursos para comprar produtos, ressaltou Supachai. Flassbeck confirmou a tendência do desemprego em todas as partes, excluídos alguns grandes países da Ásia, como China e Índia. A isso se soma uma enorme pressão sobre os salários, que estão diminuindo nos Estados Unidos e em outras nações encontram-se à beira de uma redução.
Tampouco é melhor o panorama no plano dos investimentos, uma variável que, junto ao consumo, pode contribuir para a recuperação, afirmou o especialista da Unctad. Um único dado, que a utilização da capacidade instalada é a menor dos últimos 30 anos, representa por si só o quadro dos investimentos, acrescentou. Diante dessa perspectiva se recorre aos investimentos dos governos, como ocorre na China, onde se realiza um enorme esforço para manter os investimentos em infraestrutura, disse Flassbeck.
As baterias da agência da ONU apontam principalmente para o fenômeno da especulação, que foi alvo das análises da instituição e que já nos últimos previam a atual crise, atribuída ao predomínio do setor financeiro sobre as atividades produtivas. A especulação foi alimentada pela transferência de capitais investidos em valores financeiros aos produtos básicos e a outros mercados, disse Supachai.
O Informe sobre o Comércio e o Desenvolvimento 2009, distribuído ontem pela Unctad, observa que alguns preços-chave, de itens como moradia, ações, bônus, produtos básicos e as taxas de câmbio de várias divisas determinantes, se moveram de maneira uniforme. Não deveria ser assim, afirmou Supachai. Mas esse comportamento análogo se origina em um fluxo de fundos especulativos injetados nesses mercados. E agora, quando se menciona a aparição de alguns sinais positivos na economia, a especulação retorna.
Flassbeck comentou que alguns mercados de produtos muito diversos, como os papeis financeiros, petróleo ou açúcar, mostraram nos últimos seis meses curvas aparentemente sincronizadas. O especialista disse que a correlação desses preços no movimento diário dos mercados foi tão estreita que resta uma única explicação: todos esses mercados estão claramente regidos pela especulação financeira. Nos países em desenvolvimento, a crise golpeou através de fatores diferentes. Em alguns casos, pela dependência da situação de sua conta corrente e dos ativos externos líquidos de que dispunham.
Outros países do Sul foram afetados pelo grau de dependência dos capitais privados internacionais. Também influiu a composição e a orientação do comércio internacional em produtos manufaturados e em serviços. Outras categorias se ressentiram da dependência de exportações de produtos primários e pela entrada de remessas de dinheiro enviado pelos imigrantes.
Ao analisar os efeitos da crise no mundo em desenvolvimento, o informe da Unctad deduz que contrações das economias, como ocorrerá este ano na África, determinarão que seja praticamente impossível alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos em 2000 pela Assembléia Geral da ONU, com prazo terminando em 2015.
O informe também se ocupa do subtema “A mitigação da mudança climática como processo de mudança estrutural”. Para que os países em desenvolvimento se beneficiem das oportunidades que oferece a Conferência de Copenhague sobre Mudança Climática não vale deixar as mudanças estruturais à mercê exclusiva das forças do mercado, diz a Unctad. Pelo contrário, deve-se empreender políticas industriais para entrar no mercado da “tecnologia verde” e dos “bens ambientais”, que cresce rapidamente, observa.
Supachai disse que os países em desenvolvimento necessitarão de ajuda e compensação pelos recursos que terão de investir para assumir as políticas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa e assim limitar o aquecimento do planeta. O chefe da Unctad disse à IPS que será preciso uma declaração ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) reconhecendo flexibilidades para que os países em desenvolvimento tenham acesso às novas tecnologias ambientais.
A iniciativa deveria ser incorporada ao acordo sobre Aspectos da Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio (Adpic), um dos tratados internacionais que a OMC administra. A declaração seria semelhante ao texto adotado pela OMC, durante a conferência ministerial de 2001 em Doha, capital do Qatar, que estabeleceu um status prioritário para a saúde acima do comércio. Dessa forma, ficou aprovado no Adpic o princípio de que o acesso aos remédios por parte dos países em desenvolvimento não pode ser trabalho por interesses comerciais. IPS/Envolverde

