Bangcoc, 09/09/2009 – A crise financeira mundial atenta contra os esforços pelas metas do milênio na Ásia. A recessão que começou nos Estados Unidos e se espalhou a outras economias industrializadas esgotou os mercados para as exportações desta região. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem pobreza e fome, em relação aos índices de 1990, garantir a educação primaria universal, promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e a materna. Também constam dessas metas combater a Aids, a malária e outras doenças; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento, tudo isto até 2015.
“O tamanho da recessão das economias no mundo industrializado e a dívida pública significam que esses países irão demorar algum tempo a mais do que o previsto para voltarem a crescer”, disse Tiziana Bonapace, da Comissão Econômica e Social para a Ásia e o pacifico, uma agência da ONU com sede em Bangcoc. “O que preocupa nossa região é que possa ocorrer uma diminuição na redução da pobreza”, acrescentou. A atual crise é muito mais desanimadora para a região do que a que enfrentou em 1997, que começou na Tailândia e se propagou a outras partes do sudeste asiático. Nessa ocasião foram as economias regionais que diminuíram.
Alguns países, como a Tailândia, passaram de um crescimento de dois dígitos para uma contração. “A crise de 1997 teve forma de V: a profundidade foi dramática, embora a recuperação tenha sido rápida”, afirmou Bonapace em uma entrevista. “As economias voltadas à exportação na região exportaram a si mesmas da crise porque as economias industrializadas não foram afetadas. Mas, desta vez é diferente. A oportunidade de sair da crise pela exportação não existe. Esta crise financeira significará que os governos terão menos recursos para investir no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, acrescentou.
Um informe do Banco Asiático de Desenvolvimento apresenta um ponto de vista semelhante, argumentando que a região Ásia-pacífico enfrenta um desafio para cumprir suas Metas do Milênio em matéria de pobreza, devido ao colapso econômico mundial. “Com a recente crise mundial, que causou grandes reduções das exportações, na produção e na demanda agregada, o crescimento regional continuará sob severa pressão à baixa”, afirmou o economista-chefe do Banco, Jong-Wha Lee, em um comunicado que acompanhou o informe.
“Um crescimento mais lento no curto prazo dificultará os avanços no êxito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para muitos países na Ásia e no Pacifico”, acrescentou a instituição. “No ano passado, os investimentos estrangeiros diretos caíram fortemente em várias economias, devido à crise econômica mundial”, prosseguiu o Banco, com sede em Manila, em sua publicação anual “Indicadores-chave 2009”. Informes divulgados no início deste ano indicavam as épocas problemáticas que a região enfrenta. Em maio, por exemplo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelava que a crise econômica poderia elevar o número de desempregados na região Ásia-Pacífico em 2009 a 26,3 milhões de pessoas.
Essa previsão pode significar que “a quantidade de desempregados na região em sua totalidade chegue a 112,2 milhões”, constituindo-se a maior taxa da Ásia-Pacífico, segundo a OIT. “A crise deixou claro o quanto é vulnerável o setor exportador”, afirmou o economista Gyorgy Sziraczki, do escritório da OIT para Ásia-Pacífico, em Bangcoc. “No passado, a Ásia se beneficiou de seu dinamismo exportador, mas, em consequência disso, agora ficou vulnerável”, acrescentou.
“As mulheres são as mais afetadas, porque constituem a maior força de trabalho no setor exportador da região. Elas ajudaram suas famílias a saírem da pobreza trabalhando em fabricas de áreas urbanas”, disse Sziraczki à IPS. A China, o gigante asiático que nos últimos 15 anos surgiu como a fábrica do mundo, teve um papel significativo na redução da pobreza na região. Foi responsável por cerca de 68% da queda geral o número de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. Estima-se que em 1990 377 milhões de chineses viviam na pobreza absoluta, número que baixou atualmente para 173 milhões.
Agora, cerca de 640 milhões de pessoas na Ásia-Pacífico (ou quase um quinto da população dos países em desenvolvimento da região) vivem com menos de um dólar diário. A maioria reside na Índia, o outro gigante asiático, com cerca de 330 milhões de habitantes. “Nos últimos 15 anos, a Ásia conseguiu rápidos progressos na luta contra a pobreza, reduzindo a quantidade de pobres em cerca de uma em cada duas pessoas para uma em cada quatro”, diz o Banco Asiático de Desenvolvimento em seu informe. “Porém, grandes bolsões de pobreza extrema persistem, embora muitas economias tenham registrado crescimento recorde nesse tempo”, acrescenta.
A atual preocupação em torno da crise financeira mundial e sua relação com os Objetivos do Milênio sobre a pobreza faz eco às preocupações semelhantes surgidas nos últimos dois anos. Outro fator que contribuiu para a preocupação foi o aumento nos preços do petróleo e dos alimentos. Estima-se que cem milhões de pessoas em todo o mundo foram empurradas para a pobreza absoluta devido ao encarecimento dos alimentos, revelou a ONU no ano passado. IPS/Envolverde

