ADIS ABEBA, 15/09/2009 – Em 2001/2002, a Etiópia beneficiou de uma abundante colheita de milho – tão boa que os preços caíram e muitos agricultores simplesmente deixaram a sua produção nos campos. Quando não houve chuvas na estação seguinte, surgiu a fome. Eleni Gabre-Madhin, antiga economista superior do Banco Mundial e autora de um livro sobre reformas de mercado e transformação estrutural em África, foi um dos muitos observadores que ficaram perturbados com o que aconteceu.
Ela utilizou o seu doutoramento em economia e 15 anos de experiência em mercados agrícolas em África para fundar a Bolsa de Mercadorias da Etiópia (ECX).
O objectivo da Bolsa é prestar informações e acesso a mercados nacionais e internacionais aos pequenos agricultores – permitindo-lhes negociar melhores retornos pelos seus produtos e tomar decisões, com confiança, sobre o que plantar, com base nos preços futuros.
Ela falou à IPS em Adis Abeba. Seguem-se excertos da entrevista:
IPS: Através da Bolsa de Mercados da Etiópia, a senhora quer transformar a Etiópia – o maior recipiente de ajuda alimentar do mundo – num celeiro regional. Acha que a fome e a inanição só têm a ver com sistemas de marketing ineficientes?
Eleni Gabre-Madhin: Não só sistemas de marketing ineficientes. Julgo que, quando falamos de fome e inanição, o que normalmente se esquece é o marketing. Pensamos imediatamente na produção como factor importante. Embora isso seja verdade, o outro elemento é a distribuição.
Tivemos muitas exemplos – o mais famoso, penso, foi a fome absoluta em 1984 – em que não sabíamos, a não ser vários anos mais tarde, que havia bolsas de produção excedentária na Etiópia.
A mesma história repetiu-se em 2003, quando houve regiões na Etiópia que tiveram uma tal produção excedentária que os preços entraram em colapso em 80 por cento nas zonas de Arsi e Bale (áreas de grande produção de trigo e milho no sudoeste da Etiópia); contudo, alguns meses mais tarde, houve um apelo de ajuda alimentar de emergência para 14 milhões de pessoas no leste e norte do país.
Portanto, temos problemas de distribuição. Se conseguirmos distribuir o que temos, julgo que estaremos no caminho certo para alcançarmos a segurança alimentar.
Não é coincidência o facto do Programa de Alimentação Mundial (PAM) obter uma grande parte das suas operações de auxílio e ajuda alimentar junto de fontes locais. Está a aumentar a percentagem da sua ajuda alimentar proveniente de fontes locais.
Se o PAM pode comprar produtos alimentares numa zona da Etiópia e distribuí-los noutra zona do país, ou comprar na Etiópia e distribuir no Quénia, então podemos fazer o mesmo com um sistema de marketing.
A ECX é o canal ideal para se conseguir isto, e até o PAM está agora a comprar produtos através da ECX.
IPS: Mas como é que isso funciona para as pessoas que se encontram no fundo do sistema: quando grandes instituições, como o PAM, ou exportadores privados, compram produtos através da ECX ou através de distribuidores na sala de mercado da ECX. Não são realmente os produtores, não são realmente os agricultores. Os seus agricultores fazem as suas transacções através da Bolsa?
EG: A ECX não é exclusiva a qualquer entidade particular. A primeira transacção de milho foi feita por agricultores.
Actualmente, 12 a 14 por cento dos membros são agricultores. Os agricultores estão representados pelos seus próprios sindicatos cooperativos ou então através de algum grupo colectivo, porque é muito difícil para um pequeno agricultor obter os recursos necessários para estar na Bolsa.
No nosso caso, uma vez que a terra está tão fragmentada, é necessário agrupar os agricultores na área do comércio. Vir ao mercado com dois ou três sacos de cada vez indica que o agricultor não tem poder de mercado, sendo também dispendioso transportar cada saco ao longo de grandes distâncias para vender o produto.
Os agricultores podem ser membros de duas formas: ou se tornam membros a nível individual e através de cooperativas, ou então podem ser clientes dos membros. Nesta altura, temos 496 membros, e estes têm 2.000 clientes.
IPS: Este é um número pequeno quando comparado à quantidade de agricultores na Etiópia.
EG: Absolutamente. O caminho a seguir é obter mais clientes e membros e conseguir um maior envolvimento institucional. Em relação ao café, já fomos bastante longe. Com as outras mercadorias, estamos a exercer pressão no sentido de alcançarmos um maior envolvimento.
IPS: Estão a planear expandir o âmbito da ECX por toda a Etiópia, com a instalação de cerca de 200 registadores de preços na Bolsa pelo país nos próximos dois anos. Considerando o elevado nível de analfabetismo dos agricultores e os seus conhecimentos muito limitados sobre o sistema, como é que isso vai ajudá-los?
EG: Nunca achei que o analfabetismo fosse um problema quando as pessoas estão a tentar ganhar dinheiro, porque todos nós encontramos uma maneira de lidar com as nossas limitações no nosso próprio interesse. Se se disser a um agricultor que existe uma maneira de ganhar mais dinheiro com os produtos que ele e a família passaram vários meses a produzir, de forma a compensar o seu tempo e esforço, ele vai acabar por descobrir como isso funciona.
IPS: A senhora está também a considerar a expansão para outros mercados africanos. Pode explicar em mais pormenor?
EG: Penso que o potencial existe. Há muitas economias em África que não têm o volume suficiente para apoiar uma Bolsa nacional. Se olharmos para a África Ooriental, a produção de milho da Etiópia é duas vezes superior ao volume total produzido no Uganda, Tanzânia e Quénia. Por isso, faz mais sentido que estes países adiram à nossa plataforma, porque são países estruturalmente deficitários em relação ao milho, enquanto que a Etiópia tem excedentes estruturais.
Faz sentido tentar estabelecer laços porque, sempre que os quenianos têm um défice, compram os produtos da África do Sul ou da Argentina, quando temos excedentes mesmo ao lado. Isto é algo que tem feito parte da minha visão nas últimas duas décadas.
IPS: Onde é que pensa que a ECX estará daqui a 20 anos?
EG: A nossa visão é transformarmo-nos num mercado de mercadorias mundial preferido para mercadorias como café Arábica e sésamo.
Acreditamos que a ECX tem o potencial de se transformar em algo semelhante a uma Kuala Lumpur em relação à borracha ou à Bolsa de Mercadorias DaLian na China em relação à soja ou à Bolsa sul africana em relação ao milho.
Tanto o café Arábica como o sésamo são mercadorias onde a Etiópia tem predomínio, e por isso, pode tornar-se num importante ponto central para essas mercadorias em África. A Etiópia é o segundo ou terceiro produtor de sésamo. Não existe um mercado mundial organizado para o sésamo. A ECX pode tornar-se uma referência em relação a estes produtos.
IPS: Quais são os maiores desafios que a senhora enfrenta para implementar a sua visão?
EG: O desafio principal é a mentalidade do público. Enfrentamos o desafio de tentar mudar o sistema de marketing que as pessoas usam há séculos.
O mau estado das infra-estruturas nos sectores financeiro e das telecomunicações são outros dois grandes desafios.
Além da atitude de resistência à mudança prevalecente no público, outro desafio consiste em encontrar o equilíbrio certo entre os sectores público e privado.

