Jerusalém, 15/09/2009 – A atitude de Israel diante do potencial desenvolvimento atômico do Irã gera rumores e perguntas que se propagam em todas as direções. As especulações se referem ao Irã ter, ou não, suficiente urânio enriquecido para produzir armas nucleares, como alertou um diplomatanorte-americano. Cria grande expectativa a reunião urgente que as grandes potências –Alemanha, China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia –pediram na sexta-feira à República Islâmica após considerarem insuficiente o informe sobre seu programa nuclear que Teerã apresentou à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Também é uma incógnita a intenção da visita feita pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a Moscou na semana passada e que pretendeu manter em segredo. Além disso, existem rumores de que a inteligência israelense esteve por trás do desaparecimento do navio Artic Sea, por suspeita de transportar sistemas de defesa russos destinados ao Irã.
Teerã afirma que seu programa nuclear não tem fins militares, mas existe uma crescente campanha internacional a favor da tese de que o Irã está em processo de desenvolver a bomba atômica. A questão é em que etapa o programa nuclear iraniano passará a ser uma ameaça para o resto do mundo. A posição de Israel a respeito foi explicitada pelo assessor em matéria de segurança nacional, Uzi Arad. Se terá cruzado o limite “quando o Irã puder completar o ciclo de produção de combustível nuclear, o ponto no qual tenha todos os elementos para obter material fissionável”. Isto é, não necessariamente precisa chegar a possuir a arma atômica.
Israel sustenta que não se trata de um problema apenas seu. A negativa de Teerã em responder a perguntas relevantes sobre seu programa nuclear exige uma análise mais profunda sobre suas pretensões. O Irã continua enriquecendo urânio contrariando as sanções das Nações Unidas e não se pode descartar que não obedeça a fins militares, diz um informe da AIEA divulgado em agosto.
O enviado norte-americano junto à AIEA, Glyn Davies disse na semana passada: “Nos preocupa seriamente o fato de o Irã tentar manter uma mínima possibilidade de dotar-se da arma atômica. O Irã está muito perto, ou já tem suficiente urânio pouco enriquecido, para quando decidir enriquecê-lo até o grau necessário para fabricar uma bomba atômica”. Davies acrescentou que dessa forma a República Islâmica fica mais próxima de ter a perigosa possibilidade de fabricar a arma. A declaração dos Estados Unidos conseguiu incidir na avaliação feita pelas seis potências sobre a proposta enviada pelo Irã à AIEa, no sentido de romper o prolongado impasse. “Esperamos que o conteúdo da resposta seja sério, substancial e construtivo”, disse a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice.
No início, funcionários israelenses negaram de maneira categórica que Netanyahu houvesse viajado a Moscou, inventando que esteve visitando uma instalação de segurança em Israel. Posteriormente, confirmou-se que o primeiro-ministro viajara à capital russa a bordo de um avião privado alugado a um empresário. Círculos próximos a Netanyahu explicaram que sua missão se deu no contexto de um esforço para convencer a Rússia a não vender ao Irã o sistema de mísseis antiáreos S-300. A negativa do governo russo em quebrar um acordo selado há pouco tempo parece que foi o motivo da visita relâmpago feita por Netanyahu à capital russa. “São aparatos de guerra, não de paz”’, disse uma fonte do governo ao jornal israelense Haaretz.
Essa tecnologia praticamente impede que seja lançado um ataque contra as instalações nucleares do Irã. Funcionários israelenses nunca descartaram essa possibilidade. A resposta habitual era “todas as opções estão na mesa”. A conversa entre Netanyahu e altos funcionários russos também versou sobre a insistência de Moscou em apoiar um endurecimento das sanções contra o Irã, segundo Haaretz. Em junho, várias notícias indicavam que o presidente russo, Dimitri Medvédev, teria dito ao chanceler israelense, Avigdor Leiberman, que devido à crise econômica estava considerando seriamente seguir em frente com o acordo sobre os mísseis, recuando em suas declarações a respeito.
Continua sendo uma incógnita se o movimento diplomático israelense para obrigar a Rússia a manter seu compromisso sobre a venda de mísseis a Teerã tem a ver com o misterioso desaparecimento em julho do navio Artic Sea, de bandeira maltesa, cuja tripulação era integrada por 15 marinheiros russos. Várias versões de imprensa afirmam que Israel teve participação no ocorrido. O barco foi finalmente encontrado em meados de agosto pela marinha russa na costa da África ocidental. Segundo os rumores, Israel teria dito à Rússia que sabia a natureza da carga do navio. Por sua vez, o chanceler russo, Sergei Lavrov, negou que a bordo houvesse mísseis S-300.
A Israel preocupa o fato de o Irã esticar o assunto para ganhar tempo e evitar mais sanções, enquanto leva adiante sua política nuclear, uma estratégia ambígua empregada com êxito pelo próprio Estado judeu. Especula-se- que Israel tem um grande arsenal nuclear, apesar de suas declarações de que “não será o primeiro” a introduzir armas atômicas na região. Algumas pistas de como seguirá este assunto talvez surjam nos próximos dias durante a reunião anual da Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Só o que se sabe é que Netanyahu e o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, não se olharão. O primeiro-ministro israelense previa assistir o discurso do presidente norte-americano, Barack Obama, amanhã. Mas, quando soube que Ahmadinejad estará presente, Netanyahu adiou em um dia sua chegada. Não quer estar sentado “perto de uma pessoa que nega o Holocausto judeu e de alguém que pediu para pagar Israel do mapa”, disse um porta-voz do dirigente israelense. Na sala de sessões da Assembléia Geral, os países se encontram em ordem alfabética. Irã e Israel estão separados por apenas dois países. IPS/Envolverde

