Rio de Janeiro, 15/09/2009 – O Brasil tem com a França “interesses semelhantes em geopolítica mundial”, e com Índia e África do Sul “afinidades em circunstâncias econômicas e valores”. Deste modo o chanceler Celso Amorim explica as novas alianças que transcendem os limites continentais. A “vocação de defender o multilateralismo”, porque um mundo unipolar não interessa a nenhum dos dois países, justifica a “aliança estratégica” com a França, afirmou Amorim em entrevista a correspondentes estrangeiros no Rio de Janeiro. Essa aproximação com a França foi selada com a visita do presidente Nicolas Sarkosy ao Brasil por ocasião da comemoração do 7 de Setembro.
Nessa oportunidade também foram assinados acordos que farão da França o fornecedor de cinco submarinos, um deles a propulsão nuclear, helicópteros e provavelmente aviões militares. Ao Brasil interessa a aproximação com uma “potência tecnológica que possa assumir compromissos de transferência de tecnologia e cumpri-los”, acrescentou o chanceler, referindo-se a um fator decisivo para essas compras de equipamentos bélicos, disputadas por outras potências como Estados Unidos, Suécia e Alemanha.
Sobre a coalizão formada com Índia e África do Sul no chamado Fórum de Diálogo IBSA, Amorim disse que se trata de uma iniciativa “inovadora” para romper com “os modelos tradicionais de política externa” das nações em desenvolvimento de apenas se aliar com vizinhos e, fora da região, somente com países ricos. O grupo reúne “três grandes democracias multiculturais”, além de mercados importantes e algum tipo de liderança regional. Uma iniciativa que começou a ser desenvolvida no começo do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, recordou o chanceler.
Desde então, já foram realizadas três cúpulas, pondo fim a quatro décadas sem o Brasil receber um chefe de governo indiano, acrescentou Amorim. Essa aproximação permite, além da intensificação das relações econômicas, uma posição uniforme em organismos internacionais, combinando a visão de líderes de variados continentes, destacou. Os três países também criaram mecanismos de cooperação que beneficiam nações muito pobres, como Haiti, Guiné-Bissau, Burundi e os povos palestinos, escolhidos também por terem saído de recentes conflitos. É uma prova de solidariedade, de que “não é necessário ser rico para ser solidário”, que pode servir de exemplo para o mundo industrializado, afirmou.
A presença do Brasil como um ator global foi reconhecida especialmente por sua participação nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e agora como membro do Grupo dos 20, de países ricos e emergentes, que ganhou força como instancia de acordo para superação da crise econômico-financeira internacional. O G-820 é mais eficaz do que o Grupo dos Sete países mais ricos, por sua “diversificação e maior representatividade”, cujas decisões são tomadas “ouvindo os pobres”, afirmou Celso Amorim. O Brasil participa desse contexto levando visões de outras nações latino-americanas e africanas, acrescentou. É que o G-20 “tem o formato mais adequado e permanecerá”, prosseguiu, recordando que reflete o dinamismo de economias emergentes, em contraste com a recessão no mundo industrializado.
Amorim disse também que o Brasil atua no mundo buscando soluções negociadas. Os submarinos e aviões militares cuja compra negocia destinam-se a uma força “dissuasiva, de defesa ativa”, necessária para um território com riquezas como a Amazônia e as gigantes jazidas de petróleo descobertas recentemente no subsolo do oceano Atlântico, na camada pré-sal, justificou. O chanceler disse que não teme uma corrida armamentista na América Latina devido ao fortalecimento militar do Brasil. O País “não se sente ameaçado nem ameaçará ninguém”, garantiu. As últimas críticas ao aumento da presença militar norte-americana na Colômbia não questionam os acordos entre os dois países, mas reclamam “transparência e garantias” efetivas, explicou. Seu temor é que tal presença introduza na região reflexos dos conflitos externos em que está envolvida a potência que envia seus militares, ressaltou.
De acordo com o chanceler, a compra de aviões militares franceses ainda não está decidida. O governo europeu ofereceu “condições tecnológicas favoráveis”, disse, referindo-se à transferência de tecnologia que, no caso norte-americano, não é segura, como ficou demonstrado em experiências anteriores. Mas o preço francês “deixa a desejar” e se trata de concretizar a “promessa de um valor competitivo”.
Sobre a disputa com Washington por sua política de subsídios ilegais aos algodoeiros que a OMC decidiu a favor de Brasília, Amorim explicou que o governo do Presidente Lula estuda aplicar seu direito contra “produtos, serviços ou outras formas de interesse econômico” que melhor impulsionarem a correção da política norte-americana a respeito. O Brasil queixou-se há vários anos pelos subsídios dos Estados Unidos aos seus produtores que distorcem o comércio mundial do algodão, com efeitos extremamente prejudiciais especialmente para milhões de camponeses pobres da África.
Sobre a mudança climática, Amorim anunciou que o Brasil levará à Conferência de Copenhague uma “posição de vanguarda”, assumindo compromissos de forte redução de suas emissões de gás estufa. Também aceitará a inclusão da redução do desmatamento entre os mecanismos de mitigação, mas, de uma maneira que efetivamente reduza os gases que aquecem a Terra, e não que “os ricos possam comprar o direito de continuar contaminando”, concluiu o chanceler. IPS/Envolverde

