Direitos Humanos: EUA e Arábia Saudita só falam de negócios

Nova York, 03/05/2005 – Grupos de direitos humanos expressaram sua decepção pelo fato de na última cúpula entre Estados Unidos e Arábia Saudita o presidente norte-americano não ter se referido aos direitos humanos nesse país rico em petróleo. "Aparentemente, George W. Bush está mais interessado em falar sobre barris de petróleo do que a respeito dos presos, torturados e oprimidos dentro das fronteiras sauditas", lamentou Alexandra Arriaga, diretora de relações governamentais da Anistia Internacional/Estados Unidos. "ao se concentrar nos preços do petróleo em sua reunião com o príncipe herdeiro (Abdulá), o presidente perdeu a oportunidade de pedir urgência a um de seus aliados-chave na "guerra contra o terrorismo no sentido de deixar de aterrorizar seus próprios cidadãos", acrescentou Arriaga em entrevista à IPS.

Antes da cúpula, no dia 25 de abril, no rancho de Bush em Crawford, no Estado do Texas, grupos defensores das liberdades civis solicitaram ao presidente que exigisse a libertação de dissidentes, a designação de mulheres para os conselhos municipais e o fim da pena de morte na Arábia Saudita. A pauta da reunião incluiu alguns pontos relacionados com a reforma política nesse país, entretanto, se concentrou nas medidas que o governo está disposto a tomar para reduzir o preço do petróleo e na cooperação contra o terrorismo. "Lamentavelmente, como dependemos tanto do petróleo Saudita, o presidente tem pouca influência para falar de democracia e liberdade aos saudistas opressores", afirmou Brian Foley, professor de direito da Florida Coastal Scholl of Law, uma faculdade com sede em Jacsonville, no Estado da Florida.

Foley recordou que em um discurso feito em 2003, Bush disse que "a liberdade é o paraíso para a humanidade e a melhor esperança aqui na Terra". Mas, a concentração da cúpula nos preços do petróleo "envia uma mensagem diferente à parte da humanidade que vive na Arábia Saudita: o paraíso pode esperar", disse o professor. Em um comunicado conjunto divulgado após a cúpula, Bush e Abdulá declararam que "Os Estados Unidos consideram que cada país constrói instituições que refletem sua história, sua cultura e as tradições de sua sociedade, e não pretende impor seu próprio estilo de governo ao governo e ao povo de Arábia Saudita. Os Estados Unidos comemora as recentes eleições municipais realizadas no reino e aspira uma participação maior de acordo com o programa de reforma Saudita", acrescentaram.

Neil Hicks, diretor de programas internacionais da Anistia Internacional, considerou o comunicado "muito diferente". Segundo ele, "teria sido melhor que Bush pedisse uma participação mais ampla, em lugar de elogiar a reforma dos sauditas de acordo com seu próprio programa. Os sauditas interpretarão isto como uma autorização para continuar negando os direitos universalmente reconhecidos das mulheres, das minorias e de outros grupos", acrescentou. Outras entidades defensoras das liberdades civis haviam exortado o presidente Bush a exigir de Abdulá a imediata libertação de três dissidentes que estão presos há mais de um ano por reclamarem uma monarquia constitucional.

A organização Human Rights Watch advertiu que a promessa de participação feminina nas próximas eleições municipais não é tranqüilizadora, e pediu a Bush que exija de Abdulá a designação de mulheres para as vagas não preenchidas dos conselhos municipais e também do Conselho Consultivo (Shura) nacional, cujos membros são todos nomeados de forma direta. Alem disso, o grupo recordou que na Arábia Saudita foram decapitadas pelo menos 40 pessoas este ano, dois terços delas procedentes da Ásia meridional, do sudeste asiático e da África e exortou Bush a pedir uma moratória de todas as execuções judiciais nesse país.

Sam Husseini, diretor de comunicações do grupo Institute for Public Accuracy, assinalou que as conversações entre os dois mandatários não refletiram a opinião pública dos Estados Unidos nem da Arábia Saudita. "Se fosse pelo público norte-americano, Bush deveria ter pressionado Abdulá quanto à questão dos direitos humanos, democracia e igualdade de gênero na Arábia Saudita. Se fosse pelo público Saudita, Abdulá teria pressionado Bush pela agressão ao Iraque o pelo apoio às agressões de Israel nas terras palestinas que ocupa", afirmou Husseini. (IPS/Envolverde)

William Fisher

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