Jornalismo: O império da propaganda e o secretismo dos EUA

Nova York, 03/05/2005 – A liberdade de imprensa está em baixa nos Estados Unidos, submersa por uma onda governamental de secretismo e propagada, advertem veteranos dos meios de comunicação, analistas e ativistas. Apesar de cerca sabedoria convencional indicar que a mídia norte-americana é a mais livre do mundo, este país sofre "destacáveis retrocessos" nesse campo, a tal ponto que caiu na lista de países qualificados pela organização especializada Freedom House. Esta instituição com sede em Nova York indicou, em seu relatório anual divulgado às vésperas do Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, comemorada nesta terça-feira, que os jornalistas que em 2004 trabalharam com menos obstáculos foram os da Finlândia, Islândia e Suécia.

Por outro lado, as piores restrições se registraram na Coréia do Norte, Birmânia, Cuba e Turcoministão. Os Estados Unidos ficaram, junto com Barbados, Canadá, Dominica, Estônia e Letônia, no 25º lugar entre os 194 países analisados no informe. As nações foram qualificadas de acordo com a observação de três parâmetros: o âmbito legal em que operam os meios de comunicação, as influências políticas sobre a reportagem jornalística e o acesso à informação, e as pressões econômicas para determinar o conteúdo e a divulgação de notícias. A Freedom House considerou que a qualificação dos Estados Unidos caiu, em parte, devido a "vários casos legais em que os promotores procuraram obrigar os jornalistas a revelarem suas fontes ou entregar suas notas ou outros materiais obtidos por eles durante a investigação".

Judith Miller, do jornal The Nova York Times, e Matthew Cooper, da revista Time, por exemplo, se arriscaram a penas de prisão por se negarem a identificar suas fontes de reportagens que levaram à identificação pública de uma agente secreta da Agência Central de Inteligência (CIA). Nem Miller nem Cooper escreveram matérias para suas publicações pelo caso, mas o colunista Robert Novak identificou a agente. De todo modo, o governo exige desses dois jornalistas que entreguem toda informação que possuam. Ambos perderam seus casos nos tribunais de primeira instância, e agora apelarão para a Suprema Corte de Justiça.

Por outro lado, as dúvidas a respeito da influência governamental sobre a mídia aumentaram quando se soube que o governo de George W. Bush pagava a jornalistas para que apoiassem desde seus espaços posições oficiais sem esclarecer que eram subalternos de Washington. Em um caso, o governo pagou US$ 240 mil ao colunista negro Armstrong Williams para que promovesse um plano educacional oficial em seu programa de televisão, transmitido para todo o país, e em sua coluna publicada por uma rede de jornais. Williams, que pediu desculpas publicamente por não ter percebido o conflito de interesses, também teve a missão de convencer outros jornalistas negros a participarem da cruzada.

Outros dois jornalistas conhecidos em todo o país, Maggie Gallagher e Michael McManus, também admitiram que aceitaram milhares de dólares para manifestarem em seus meios de comunicação adesão a diversos programas governamentais. Outros jornalistas conhecidos em todo o país confessaram ter aceito milhares de dólares para se mostrarem favoráveis aos programas de governo. Steven Aftergood, do Projeto sobre Secretismo Governamental da Federação de Cientistas dos Estados Unidos, considerou que "o apoio clandestino de comentaristas" e a divulgação de pacotes de notícias em vídeo "reforça as suspeitas de que o que ocorre com a notícia hoje é, na realidade, comprado e pago. Pagar jornalistas para que escrevam notícias positivas é parte do padrão governamental de secretismo e manipulação pública que ameaça nossa segurança e nossa democracia", disse Aftergood á IPS.

Por outro lado, mais de 20 diferentes agências federais utilizaram fundos fiscais para produzir segmentos televisivos promovendo as políticas do governo Bush. Esses vídeos foram transmitidos por centenas de emissoras locais que não revelaram suas fontes, o que incentiva os telespectadores a acreditarem que assistem notícias verdadeiras, segundo a Freedom House. A Controladora Geral dos Estados Unidos, agência que opera independentemente dentro do Poder Legislativo, considerou que os chamados "pacotes de notícias" produzidos por organismos do governo constituíam "propaganda encoberta?. O presidente Bush respondeu que a prática era legal e que não tinha planos de acabar com ela.

"As agências do Poder Executivo não estão obrigadas" a cumprir "as normas legais" da Controladora, afirmou o governo em um comunicado. Porta-vozes da Casa Branca costumam responder às críticas afirmando que a política em relação aos meios de comunicação é honesta e transparente. Mesmo assim, Jack Behrman, ex-subsecretário de Comércio, acusou o governo de hipocrisia. "Nosso governo promove, nas declarações, a liberdade no estrangeiro, mas tenta com êxito limitá-la nos eu através do secretismo e da manipulação dos meios", disse Behrman à IPS. (IPS/Envolverde)

William Fisher

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