BIODIVERSIDADE-ÍNDIA: Lontras à espera de um santuário

Krishnagiri, Índia, 29/09/2009 – As lontras de água doce da Índia, cuja pele tem, grande demanda comercial, estão desaparecendo. Para fugirem desse destino necessitam rapidamente de um santuário, mas não parece haver nenhum à vista. A criação de uma área protegida para estes animais ameaçados se tornou uma questão difícil devido à falta de vontade política e de pesquisas, afirmou Sanjeev Kumar, da sociedade Kenneth Anderson para a Natureza. As lontras de água doce foram dizimadas por caçadores ilegais nas planícies do norte da Índia. As poucas que restam são encontradas unicamente no sul do país, particularmente no Estado de Tamil Nadu.

Um estudo de 2006 intitulado “Contra a corrente”, realizado pelo pesquisador Kaushalya Shenoy, do não-governamental Fundo para a Natureza da Índia, documentou 40 locais onde foram avistadas lontras de água doce. Mas no país resta apenas um par de lugares onde estes animais podem se reproduzir e alimentar-se em ambientes seguros. O rio Kaveri, que corre através do distrito de Krishnagiri, é um deles. Um santuário de lontras ou da natureza em geral garantiria a conservação destes exemplares no longo prazo. Seu habitat ideal são os rochosos leitos de rios e os rios de correntes rápidas, de preferência em densas florestas.

Estas lontras são mamíferos que habitam ambientes fluviais, como os rios que serpenteiam através das florestas. Podem ser cinzas ou marrons, com patas palmeadas, cauda espessa e bigode. Alimentam-se de peixes e são consideradas uma espécie fundamentalmente para estes ecossistemas, pois têm um papel vital na limpeza do leito dos rios. Portanto, a presença de lontras é um bom sinal de saúde de um ecossistema fluvial ou ribeirinho. “Por serem importantes predadoras dos ecossistemas aquáticos, as lontras moldam as comunidades de espécies aquáticas, particularmente as de peixes”, disse à IPS S. A. Hussain, especialista em plantanos do governamental Instituto da Natureza da Índia.

Ao que parece, o governo de Tamil Nadu somente cuidará das espécies em processo acelerado de extinção se houver pesquisas que documentem o fenômeno. E as lontras não são as únicas que sofrem esta falta de vontade política. “O maior inimigo das florestas é a falta de uma documentação adequada e detalhada”, disse V. Ganeshan, funcionário da divisão florestal do distrito de Krishnagiri, em Tamil Nadu. A demanda pela muito apreciada pele de lontra é responsabilizada pelo desaparecimento de numerosos animais desde a década de 90. D acordo com a Sociedade de Proteção da Natureza da Índia, em 2006 foram confiscadas 766 peles destes mamíferos, objetivo de comércio ilegal.

“Embora as lontras estejam amplamente distribuídas e tenham um papel importante no ecossistema de pântanos como espécie carnívora, não se deu muita atenção à compreensão de sua ecologia”, disse Shenoy em seu estudo. As lontras de água doce nos ecossistemas da bacia do rio Kaveru, Tamil Nadu, compartilham seu ambiente com uma ampla gama de seres vivos. Entre os mamíferos que habitam as florestas vizinhas ao rio há elefantes asiáticos, leopardos, cães selvagens, bicho-preguiça e hienas rajadas, junto com uma variedade de outros animais. Outras 13 variedades de serpentes venenosas e não venenosas, entre elas as de água, bem como lagartos monitor e crocodilos, consideram seu lar este ambiente de florestas secas e arvores de folha velhas.

O estudioso das florestas Anthony Kariappa calculou que o rio Kaveri abriga cerca de 700 crocodilos. Apesar da grande biodiversidade, os funcionários de Tamil Nadu ainda não se decidiram em declarar o rio como santuário de lontras nem da natureza em geral. Sem um status de área protegida para o habitat das lontras, as ameaças ao ecossistema se agravarão, devido a fatores antropogênicos como corte de árvores e pastagem. Outros aspectos que prejudicam o frágil ecossistema incluem a pesca ilegal com explosivos e os assentamentos humanos que equivalem à ocupação de 21.358,5 hectares de florestas, que cobrem a densa vegetação de Kaveri e, portanto, ameaçam as nutrias.

A pastagem e as conseqüentes doenças transmissíveis entre animais, os incêndios florestais causados pelos seres humanos e a caça ilegal de mamíferos como javali e veado pintado também ameaçam o ecossistema. A mineração ainda não constitui uma ameaça, mas é um fator potencial se as florestas continuarem sem proteção legal, disse Ganeshan. Na falta de um santuário, as poucas lontras de água doce que restam estão cada vez mais ameaçadas pelos caçadores ilegais.

As lontras também são sensíveis às mudanças climáticas, com a má qualidade da água, a toxidade da cadeia alimentar aquática e a perturbação dos habitat terrestres vizinhos aos cursos de água. “Frequentemente associa-se o desaparecimento das lontras com – entre outras coisas – a degradação de habitat pantanoso”, disse Hussain em seu informe, que aborda os hábitos de alimentação destes animais de pele suave e também seu significado para as populações de peixes. “Acredita-se que as espécies de lontras estão diminuindo, em boa parte devido à destruição de seu habitat e à redução na disponibilidade das presas”, acrescentou Hussain. IPS/Envolverde

Malini Shankar

Malini Shankar is an investigative wildlife photojournalist, radio and TV producer and documentary filmmaker based in Bangalore, India. Malini writes about anthropogenic conflict and quantifies its impact on wildlife conservation. She has written extensively about biodiversity hotspot Western Ghats, the WTO regime and its impact, indigenous peoples’ rights, wildlife crime, wildlife crises, developmental polemics in protected areas, habitat loss, wildlife veterinary infections, census methods and wildlife advocacy. Malini writes for IPS, indiatogether.org, PTI, AIR, Gyandarshan and Gyanvani, Terrascape, Getty Images and others. Malini also runs Media Content Production House, the Weltanschauung Worldview Media Centre that is dedicated to communications for a cause.

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