Nações Unidas, 01/10/2009 – O Chile lidera a corrida entre os países latino-americanos e caribenhos rumo aos Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio da Organização das Nações Unidas, enquanto Honduras está muito atrás, afirmou a secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Alicia Bárcena
Redução da pobreza, saúde infantil, educação primária estão entre as metas que mais provavelmente serão alcançadas a tempo por, pelo menos, um terço das nações latino-americanas e caribenhas. A pobreza em todo o continente caiu de 48,3% em1990 para 34,1% em2007. Isto significa que o número de pobres passou de 200 milhões para 184 milhões nesse período.
A Cepal, uma das cinco comissões regionais da Organização das Nações Unidas, não se baseia na renda para definir pobreza e indigência, como faz o Banco Mundial, mas avalia a capacidade das pessoas para terem acesso a uma cesta básica de alimentos ou consumir uma dieta mínima de calorias. A crise financeira representa desafios que podem reduzir ou reverter as melhorias constatadas nos últimos seis anos, alertou Bárcena.
“Em tempo de escassez e crise enfrentamos um duro ato de equilíbrio”, disse Bárcena à IPS. “Por um lado, necessitamos de recursos para curar a economia, por outro devemos investir em uma rede de segurança para os pobres e os vulneráveis”, acrescentou. Embora haja sinais de uma recuperação econômica, a social terá um ritmo mais lento, afirmou. Em uma crise, “os grupos de menor renda perdem relativamente mais do que os de rendas maiores, e demoram mais tempo para recuperar suas perdas”.
Apesar destes desafios, o continente parece melhor preparado para a grande agitação econômica do que na década de 80. A atual crise chegou quando havia uma inflação significativamente menor, bem como menos dívida e mais espaço fiscal comparado com a hiperinflação e as enormes dívidas que caracterizaram a chamada “década perdida” de 80. Bárcena destacou que as políticas governamentais não deveriam permitir a repetição do passado. “Os ganhos sociais podem ser rapidamente perdidos e são difíceis de recuperar. Devemos proteger esses êxitos. A crise é um desafio, mas também é uma oportunidade para lançar a base de uma plataforma de proteção social para nosso povo e nossas sociedades”, acrescentou.
IPS- Quando falamos dos Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio, quais países da América Latina e do Caribe podem alcançar quais metas e quais nações estão atrasadas?
Alicia Bárcena- O Chile caminha muito bem, e o mais provável é que seja o primeiro a alcançar as metas, reduzindo em 50% a extrema pobreza. Em Honduras, por outro lado, a situação é preocupante, com 49,4% da população vivendo em extrema pobreza. Brasil, Uruguai, Argentina, Costa Rica, Panamá, Venezuela e México conseguiram consideráveis melhoras em termos de redução da pobreza e investimento nos pobres. Mas, a distribuição da riqueza e a redução da desigualdade continuam sendo grandes desafios, particularmente no Brasil e no México.
Um dos maiores êxitos do continente na luta contra a pobreza são os programas de Transferência Condicional de Efetivo (CCT), que dá dinheiro diretamente às famílias em troca de compromissos dos beneficiários, como enviar os filhos à escola e aos centros de saúde. O dinheiro é ajuda de emergência, enquanto as condições promovem investimentos de longo prazo em capital humano.
O CCT mostrou ser de notável sucesso quando é destinado às mulheres. O programa não só as torna mais independentes, mas também promove outros Objetivos de Desenvolvimento para o Milênio, com comparecimento à escola primária de meninos e meninas, e os cuidados médicos com a infância. Espero que a maioria dos países alcance estas metas. Lamentavelmente, a mortalidade materna continua alta. A meta sobre este item não será facilmente alcançada. Primeiro, e antes de tudo, nas nações com um grande setor rural as mulheres têm limitado acesso a cuidados médicos ou escolhem resolver por si mesmas seus problemas de saúde íntimos.
IPS- Como a crise afetou os países latino-americanos e caribenhos e suas populações, e qual o papel da Cepal para mitigar os efeitos?
AB- A diferença fazem os países que realmente se comprometeram a reduzir a pobreza e que continua fazendo isso durante a crise. Como observador sócio-econômico, a Cepal lembra os governos a não desperdiçarem o momento e não desampararem os pobres. O gasto social tende a diminuir em época de crise financeira, e seguimos aconselhando os governos sobre suas boas práticas.
Prevejo que o desemprego será o maior problema. Nos últimos cinco anos caiu de 11% para 7%, mas certamente crescerá outra vez para, pelo menos, 9%. As mulheres perderam seus trabalhos mais rápido e mais facilmente do que os homens, cerca de 73% de todas as mulheres trabalham no setor doméstico e informal, sem assistência social. Felizmente, um exemplo positivo vem do Chile. A presidente, Michele Bachelet, pressiona pela assistência social e pensões para as mulheres que trabalham no setor doméstico. É um grande avanço.
IPS- O que a senhora pensa da nova agência da ONU para as mulheres que acaba de ser aceita pela Secretaria Geral?
AB- Estou segura de que elevará e colocará em primeiro plano a questão de gênero. ) secretário-geral, Ban Ki-moon, realmente fez a diferença ao mudar a arquitetura de gênero na administração da ONU. Também penso que as mulheres têm diferentes qualidades que podem ser úteis em certas áreas, como a construção e manutenção da paz. O Departamento de Apoio no Terreno, por exemplo, mudou de form positiva desde que está encabeçado pela subsecretária-geral Susana Marocra. A Cepal também se equilibrou mais em matéria de gênero, como o Banco Mundial. Mas, o Fundo Monetário Internacional realmente precisa de mais algumas mulheres. IPS/Envolverde


