Jornalismo: Páginas que vão além do crime e do escândalo

Nações Unidas, 05/05/2005 – Tarzie Vitacchi, que foi diretor-executivo-adjunto do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), certa vez contou a história de um funcionário africano que lhe perguntou o que deveria fazer para que a imprensa ocidental cobrisse assuntos que tinham profundo efeito em seu continente. "Meu primeiro-ministro vai falar na Assembléia Geral das Nações Unidas sobre questões sociais e econômicas cruciais para a sobrevivência da África. O que posso fazer para o New York Times publicar isso?", lhe perguntou em seu escritório. "Mate-o, e terá a primeira página", foi a resposta de Vitacchi, que foi colunista da revista Newsweek de diretor de jornais no Sri Lanka, seu país natal.

O falecido Vitacchi afirmava que a imprensa ocidental raramente cobria com profundidade assuntos como pobreza, fome, mortalidade materna e doenças de fácil prevenção que atormentam mais de dois terços dos 191 países-membros da Organização das Nações Unidas. Dizia que esses temas que não são suficientemente atraentes para as redações. Shashi Tharoor, subsecretário-geral da ONU para comunicações e informação pública, compartilha desse ponto de vista. "Ainda existe uma tendência de que um reduzido grupo de assuntos tome conta das manchetes", afirmou Tharoor ao divulgar a lista anual das Nações Unidas sobre os 10 assuntos mundiais aos quais a imprensa menos presta atenção.

Divulgada nesta terça-feira, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a lista destaca temas sobre os quais "o mundo deveria saber mais", mas que são ignorados ou minimizados pelas redes de televisão e outros canais comerciais de notícias. Esses temas incluem o progresso para a paz na Somália, o problema da fístula obstétrica em países pobres, a crise humanitária no norte de Uganda, o desarmamento de ex-combatentes em Serra leoa, a proliferação de organizações de direitos humanos e a violência contra as mulheres. Também não é dada atenção às escassas possibilidades de os pequenos agricultores de países pobres obterem um preço justo por sua produção, à luta de Granada para se recuperar da devastação do furacão Ivã, ao desenvolvimento como ferramenta de luta contra as drogas, e à preservação ambiental para proteger potenciais curas para numerosas doenças.

"Os meios de comunicação convencionais ignoram ou minimizam determinados assuntos por razões específicas", disse Tharoor á IPS. "Primeiro, porque, segundo os diretores, não vendem; segundo, porque não são notícia", explicou. "Nosso contra-argumento é que o público se interessará mais se as informações forem apresentadas de uma maneira persuasiva, que destaque sua importância", acrescentou o subsecretário da ONU. "Por que o tsunami da Ásia é mais digno de uma cobertura do que as vítimas do furacão Ivã em Granada? Por que o horror da fístula obstétrica não interessa a todas as mulheres do mundo, e a todos os homens também, já que todos nós nascemos?", perguntou. Sem cobertura jornalística, as emergências de menor impacto simplesmente não existiriam para os governos doadores, afirmou Tharoor.

"Deus sabe que nossos 10 assuntos são cruciais, mas, as guerras e os grandes desastres, como do Iraque e o tsunami, se impõem. Além disso, o ano passado foi tremendamente competitivo em matéria de notícias", acrescentou. Perguntado sobre a utilidade de os jornais dedicarem uma página a assuntos do Terceiro Mundo, como faz um jornal londrino há anos, Tharoor disse que essa medida "implicaria uma guetização das notícias que não corresponde com os méritos intrínsecos de cada tema. Pior ainda, faria com que aqueles que não estão interessados em temas do Terceiro Mundo pulassem a página, enquanto nós acreditamos que são assuntos de interesse para todos", concluiu. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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