União Européia: Os obstáculos de maio

Miami, 04/05/2005 – A existência da União Européia é um paradoxo. Durante alguns ciclos de sua vida esteve atormentada pelo que se chamou de euro-esclerose, superada pelo Tratado de Maastricht, o euro e a ampliação para 25 membros. Mas o euro-ceticismo continuou latente e paira como inimigo formidável. O momento é sério. Entretanto o alarme não se centra nos dardos envenenados lançados de Washington, onde a atual administração está cuidadosa pela potencial autonomia exterior da UE. O câncer é interno. Embora não seja da mesma natureza que a razão original para a fundação da União Européia (cessar as guerras européias), o mal está intimamente ligado à desconfiança européia e ao sentimento de não pertencer a um projeto comum.

Os europeus (e especialmente os que aparentemente nunca se adaptaram a sê-lo plenamente) freqüentemente tropeçam na mesma pedra. A delicada conjuntura em que a União Européia está imersa pode desembocar em uma das mais perigosas crises de seu longo meio século de história. Os causadores serão dois (ou três, se a Holanda cair na armadilha) Estados-membros cruciais. Um é previsível, o reticente sempiterno: o Reino Unido. O outro é, insolitamente, o fundador insubstituível com o qual sempre se conta e sem o qual a UE não tem sentido: a França. Para completar, há a ameaça do veto holandês no dia 1º de junho. Este drama se desenvolverá em maio.

Inicialmente, no dia 5, o primeiro-ministro britânico Tony Blair tentará conseguir a reeleição. Desgastado por sua polêmica aliança com Bush na guerra do Iraque e enfrentando a dupla pinça de conservadores e liberais, o possível triunfo de Blair será uma revalidação para a terceira via que transformou uma social-democracia irreconhecível, mas que ainda conta com a lealdade do núcleo trabalhista. Porém, depois da eleição, o Reino Unido enfrentará um duplo desafio: no segundo semestre de 2005 estará presidindo a UE e no primeiro semestre de 2006 deverá cumprir a promessa de um referendo sobre a Constituição européia. Em qualquer caso, estará terminado o ciclo que começou com os trabalhistas contrários à entrada na União Européia, os conservadores a favor do que sempre consideraram um projeto comercial, para depois mudar em uma opinião dividida entre uma direita contrária a uma UE federalizante e alguns trabalhistas reciclados e vacilantes.

Se, improvavelmente, ganhassem os conservadores, aproveitariam para frear o trem europeu e fazê-lo regressar à estação do puro livre comércio, longe do caminho federalista. Se Blair vencer, deverá convencer os britânicos a ingressarem verdadeiramente na Europa. Em qualquer caso, se em 2006 a Constituição for vetada, não será o fim da UE, mas poderá ter chegado o momento de escolher: fora do euro, negando a Constituição, a saída deveria ser elegante.

Problema diferente existe em relação à França, se no dia 29 de maio rejeitar a Constituição. Nesse caso se tratará do sócio insubstituível: a pátria de Schuman e Monnet, que plasmaram compartilhar o aço e o carvão com a Alemanha para selar a reconciliação, de Jacques Delors, o presidente da Comissão mais decisivo da história, e Valery Giscard d?Estaing, que dirigiu a Convenção que aprovou o texto constitucional.

Com mais fronteiras com outros países europeus do que qualquer outro Estado, a rejeição do hexágono gaulês desencadearia uma cascata de danos colaterais. Mau exemplo para os novos países, decepção na Alemanha, erosão lenta do euro e insignificância à política externa. Nem mesmo se salvaria a alternativa da Europa econômica, ligada aos compromissos políticos.

Sem a perspectiva de uma verdadeira União Européia, a justificativa da moeda comum cairia pelo seu próprio peso. Os países mais ricos, com a Alemanha à frente, não só podem considerar o euro como um mecanismo temporário, como também se opor a que sirva apenas para proteger os novos sócios, mais pobres.

E sem a Constituição, já não terá muito sentido uma política externa comum, e menos ainda uma defesa autônoma, independente da Otan. Para isso, que os Estados Unidos a paguem. Estranhamente, esta catástrofe terá sido causada por uma insólita coalizão francesa formada por uma direita xenófoba e uma esquerda dividida, mal freada por uma liderança errática. Charles de Gaulle teria preferido agora uma grandeza sujeita à UE. Agora, a França pode ficar sem uma e outra. (IPS/Envolverde)

(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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