Nova York, 05/05/2005 – Policiais e promotores dos Estados Unidos utilizam um termo que não existe nos códigos mas que, igualmente, pode arruinar vidas e carreiras, criando uma condição a meio caminho entre a inocência e a suspeita: "pessoa de interesse". Essa expressão foi cunhada na década de 70 e, embora não haja estatísticas disponíveis, é comum sua utilização em investigações policiais. Funcionários encarregados da aplicação das leis afirmam que se trata de um adjetivo neutro, porque pode significar um suspeito potencial ou uma testemunha.
"Lamentavelmente, esta prática continuará enquanto beneficiar quase todos os envolvidos", disse Brian Foley, professor da faculdade de direito Florida Coastal School of Law, em Jacksonville, no Estado da Flórida. "As autoridades ganham, porque aparentam progredir na investigação. O público ganha, ao se sentir mais seguro, acreditando que alguém foi identificado e é vigiado. E a imprensa ganha por ter uma pessoa, além de um fato, sobre quem escrever. Só perde a "pessoa de interesse", disse Foley à IPS. Os resultados do uso desse termo são variados. No ano passado, dois cadáveres foram encontrados em uma estrada do condado de Hillsborough, na Flórida. Os detetives concentraram sua investigação em um ex-detento com inúmeros antecedentes penais, que passaram a considerar "pessoa de interesse", mas que logo foi inocentado.
Outro caso é o de Steven Hatfill, ex-pesquisador de doenças infecciosas do exército, que esteve sob investigação do FBI desde os atentados com vírus de antraz ou carbunco, em 2001, que mataram cinco pessoas e deixaram outras 17 enfermas. O então promotor-geral, John Ashcroft, o chamou publicamente de "pessoa de interesse", embora Hatfill nunca tenha sido formalmente acusado. O ex-pesquisador negou qualquer participação nos ataques, que consistiram no envio de esporões de antraz por correio a funcionários de veículos de comunicação e órgãos governamentais, e afirmou que foi demitido de seu emprego devido à cobertura jornalística do caso.
Seu apartamento e lixeiras foram vistoriados várias vezes, e esteve sob vigilância as 24 horas do dia. Hatfill processou Ashcroft e o FBI pelo que chamou de uma "campanha de perseguição" contra sua pessoa. Também processou a The Nova York Times Co. e o colunista Nicholas Kristof, argumentando que esse jornal o difamou em uma série de artigos que o identificaram como o principal suspeito. Até agora, ninguém foi acusado formalmente pelos atentados. No final de setembro de 2003, quase dois anos depois dos ataques, o novo chefe da investigação considerou preocupante que alguns funcionários tivessem chamado publicamente Hatfill de "pessoa de interesse". A "investigação sobre o antraz foi obstruída por uma série de vazamentos", lamentou. No entanto, Hatfill permanece desempregado.
Os críticos do uso oficial do termo "pessoa de interesse" citam outro caso notório como prova do dano que pode causar. Trata-se de Richard Jewell, que trabalhava como guarda de segurança nos Jogos Olímpicos de 1996 em Atlanta, Estado da Geórgia. Jewell viu um objeto suspeito, que se verificou ser uma bomba, e chamou a polícia, que não chegou a desativá-la. A bomba explodiu, causando a morte de um espectador e ferimentos em vários outros. Inicialmente, Jewell foi considerado um herói por ter impedido danos maiores, mas, apenas três dias depois da explosão, o jornal The Atlanta Journal-Constitution afirmou que a polícia investigava a possibilidade de o próprio guarda ter colocado a bomba.
Agentes do FBI o interrogaram e revistaram seu apartamento, diante de repórteres e câmeras de televisão. Jewell sempre defendeu sua inocência. No mês de outubro seguinte, um juiz federal determinou que ele não era suspeito, e os promotores o informaram de que já não estava mais sob investigação. Uma vez eximido de culpa, iniciou um processo com o argumento de que sua reputação foi arruinada e ganhou uma indenização de centenas de milhares de dólares (a quantia exata não foi revelada). Rotular alguém com "pessoa de interesse" é "enviar um sinal sem palavras", disse Kin Wood, advogado de Jewell. "Não se deveria discutir em público o nome de uma pessoa simplesmente porque está sendo investigada. Milhões de pessoas inocentes são investigadas", afirmou. Mesmo assim, o polêmico termo começou a ser mais usado a partir do caso de Jewell. (IPS/Envolverde)

