ALIMENTAÇÃO: Crise econômica mundial é um soco no estômago

Washington, 20/10/2009 – A crise econômica global agravou a fome e a desnutrição nos países mais pobres, com dramáticas consequências para a segurança internacional e a estabilidade política, segundo dois informes divulgados sexta-feira passada, Dia Mundial da Alimentação.

 - Julio Angulo/IPS

- Julio Angulo/IPS

Mais de um bilhão de pessoas sofrem fome crônica em todo o mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA). Esse número inclui 643 milhões de pessoas na Ásia do Pacífico, 265 milhões na América Latina e Caribe, 42 milhões no Oriente Médio e África setentrional e 15 milhões em países industrializados.

“A conclusão mais comovente do informe é que mais de um bilhão de pessoas sofrem fome”, disse à IPS a porta-voz do PMA, Bettina Luescher. A tendência à alta da desnutrição dura uma década, e se manteve constante mesmo no período de baixos preços e prosperidade econômica, no começo desta década, quanto na atual fase de encarecimento e queda do produto bruto, segundo o estudo das agências da Organização das Nações Unidas. Tudo isto deixa evidente problemas no “sistema mundial de gerenciamento da segurança alimentar”, acrescentou Luescher.

“Os líderes mundiais reagiram à crise financeira e econômica mobilizando com sucesso milhares de milhões de dólares em um curto espaço de tempo. Afora, são necessárias ações igualmente fortes para combater a fome e a pobreza”, disse o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf. “O crescimento da população faminta é intolerável. Temos os meios econômicos e técnicos para fazer a fome desaparecer. O que falta é uma vontade política mais forte para erradicá-la”, acrescentou Diouf cobrou “investimentos na agricultura nos países em desenvolvimento”, dizendo que é “essencial não apenas para derrotar a fome e a pobreza, mas também para garantir o crescimentoeconômico, a paz e a estabilidade do mundo”.

A FAO destacou que a situação enfrentada pelos países mais pobres do mundo se deteriorou ainda mais pela crise econômica. Populações já vulneráveis à insegurança alimentar sofrem cada vez mais dificuldades, devido ao encarecimento da comida e à queda das remessas dos imigrantes, do emprego e dos salários. “Aqueles que têm menos responsabilidade na crise financeira são os mais afetados. Primeiro são atingidos pelos altos preços dos alimentos e depois pela crise”, disse Luescher. Nas últimas duas décadas consolidou-se a integração dos países em desenvolvimento à economia global, o que aumentou sua vulnerabilidade às idas e vindas financeiras.

“As 17 maiores economias latino-americanas, por exemplo, receberam US$ 184 bilhões em fluxos financeiros em 2007, quantia que diminuiu para US$ 89 bilhões em 2008, e a previsão é de que deve cair para US$ 43 bilhões no final de 2009”, diz o estudo do PMA. “Isto implica redução do consumo, e para algumas nações de baixa renda e com déficit alimentar significa reduzir as muito necessárias importações de comida, equipamento sanitário e medicamentos”, acrescenta.

Outro informe conhecido na sexta-feira, elaborado pelo não-governamental Instituto para a Pesquisa de Políticas Alimentares Internacionais (IFPRI), constata tendências semelhantes às do estudo da FAO e do PMA, e detalha a situação de regiões e países em seu habitual Índice Global da Fome (IGF). O estudo destaca o lento avanço na tarefa de reduzir a fome, evidente na queda o IGF em apenas um quarto desde 1990, e alerta que a situação em 33 países é “extremamente alarmante”.

O IFPRI também detectou importantes avanços no sudeste asiático, Oriente Médio, África setentrional e América Latina. Por outro lado, a incidência da fome continua alta na Ásia meridional e África subsaariana. Os países onde houve melhorias destacáveis foram Kuwait, Tunis, Fiji, Malásia e Turquia, e as piores situações em Angola, Etiópia, Gana, Nicarágua e Vietnã. Na outra ponta situam-se Burundi, Cadê, República Democrática do Congo, Eritréia e Serra Leoa.

A maioria dos países com IGF mais alto sofreu guerras ou conflitos violentos que agravaram a pobreza e a insegurança alimentar, segundo o IFPRI. Este informe coincide com o da ONU ao assinalar o vínculo entre a crise financeira e a instabilidade alimentar como um problema complexo. O IFPRI também enfatizou que combater a fome mundial é um passo crucial na mudança para a igualdade de gênero.

A preocupação pela segurança alimentar é compartilhada não apenas pela ONU e as organizações não-governamentais especializadas, mas também por instituições de assistência, com a Fundação Bill e Melinda Gates, que investem milhares de milhões de dólares em projetos de saúde pública e desenvolvimento em alguns dos países mais pobres. “Melinda e eu acreditamos que ajudar os pequenos agricultores mais pobres para que produzam melhores colheitas e tenham acesso aos mercados é a ferramenta mais poderosa para reduzir a fome e a pobreza”, afirmou Bill Gates ao anunciar um projeto de US$ 120 milhões com esse objetivo. “A próxima Revolução Verde precisa ser mais verde do que a anterior”, acrescentou o empresário. “Deve ser guiada pelos pequenos agricultores e adaptada às circunstâncias locais, bem como ser ambiental e economicamente sustentável”, acrescentou. IPS/Envolverde

Eli Clifton

Eli Clifton is a national security reporter for ThinkProgress.org. Eli holds a bachelor's degree from Bates College and a master's degree in international political economy from the London School of Economics. He previously reported on U.S. foreign policy for IPS, where he served as deputy Washington, D.C. bureau chief. His work has appeared on PBS/Frontline's Tehran Bureau, the South China Morning Post, Right Web, Asia Times, LobeLog.com, and ForeignPolicy.com. Website: http://thinkprogress.org/author/eclifton Blog: http://thinkprogress.org/security/issue/

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *