ÁGUA-ÁFRICA DO SUL: Perde água pelos encanamentos

Cidade do Cabo, 22/10/2009 – Quando um encanamento perde água, se conserta. Mas, e quando são dezenas de milhares de vazamentos? Seria necessário dispor de dezenas de milhões de dólares. Algo desse tipo ocorre na África do Sul, onde muitas casas possuem torneiras e ligações baratas que não se ajustam aos padrões, segundo Ronnie McKenzie, gerente da consultoria de engenharia Water Resource Planning & Conservation (WRP). Isso foi “uma bomba de tempo” por não estarem projetadas para suprotar as características da pressão de água nem as mudanças de temperatura desta zona do sul do África. Mas, é preciso fazer algo porque este escasso recurso, literalmente, escapa pelo cano. Isto aconteceu na localidade de Sebokeng, na província sul-africana de Gauteng, onde vivem 420 mil pessoas e há 84 mil ligações à rede de fornecimento de água, disse McKenzie.

O custo de reciclar as casas com novos aparelhos, canos e conexões seria de US$ 21 milhões, afirmou McKenzie. Era impossível fechar todos esses pontos de fuga, mas se poderia reduzir a pressão da água e também seu desperdício. A WRP instalou válvulas para reduzir a pressão na tubulação principal da rede de fornecimento de Sebokeng e, dessa forma, a municipalidade economizou US$ 4 milhões ao ano, bem mais do que os US$ 600 mil que custo construir o sistema de regulagem e pressão, há quatro anos e meio.

Os municípios gastam muita água e carecem de um sistema de gestão adequado para detectar as perdas, mas do ponto de vista do consumo total do país, é insignificante, destacou Geraldine Hochman, especialista da organização não-governamental Mvula Trust. “O que acontece é que o vazamento doméstico é muito visível”, explicou. É mais fácil ver como se perde água através dos canos que ficam abertos nas cidades do que a perdida devido aos ineficientes sistemas de irrigação no meio rural.

A agricultura responde por 64% do consumo de água na bacia do rio Orange-Senqu, um sistema hídrico-chave na região, enquanto o das cidades corresponde a 23% do total, incluindo o uso doméstico e o industrial. Cerca de 180 mil litros são perdidos ao ano devido a ligações ilegais de irrigação na zona alta do rio Vaal, parte da bacia do Orange-Senqu, segundo o Ministério de Assuntos da Água. Em junho, a titular da pasta, Buyelwa Sonjica, mostrou-se preocupada pela grande quantidade mal aproveitada no setor agrícola.

Sonjica explicou as dificuldades para controlar o volume de água extraída de represas e rios. Além disso, o ministério revelou que as medições do fornecimento e uso de água no setor agrícola são más ou inexistentes. Estão sendo implementadas medidas para conseguir maior eficiência na agricultura, anunciou a porta-voz do ministério, Linda Page, mas destacou que todos os setores devem ser considerados igualmente importantes quando se trata de minimizar as perdas.

A água para consumo doméstico é mais cara do que a extraída para a irrigação, e é um setor, além do industrial, onde se prevê aumento da demanda, por isso tem sentido visar um uso eficiente, disse Page. É urgente gerir a demanda e conservar o recurso, porque, do contrário, muitas pessoas sofrerão as conseqüências nos próximos 20 ou 30 anos, pode-se ler em um site da Internet destinado a conscientizar sobre o Protocolo de Cursos de Água Compartilhados da Comunidade para o Desenvolvimento da África Asutral (SADC), para a Comissão do rio Orang-Senqu.

Os países da bacia (Botswana, Lesoto, Namíbia e África do Sul) devem gerar consciência sobre a finitude do recurso se pretendem conseguir fornecimento adequado de água. Além disso, devem resolver dificuldades como tarifas inadequadas e dificuldades para cobrar as contas, diz o site. Mas, a “grande prioridade” deveria ser deter o roubo de água por agricultores que carecem de autorização de extração, segundo o especialista Anthony Turton, para quem isso afeta o fornecimento de energia elétrica da gigante Eskom e da petroquímica Sasol. “A África do Sul tem a mais avançada legislação do mundo na matéria, mas deve ser respeita. A resposta é colocar fazer cumprir a lei que já existe”, disse.

As soluções técnicas, como medidores pré-pagos, devem considerar aspectos sociais e informar a população sobre as medidas para lidar com os problemas da demanda, segundo Hochman, da organização Mvula Trust. As inovações tecnológicas podem ajudar na solução do problema do desperdício, afirmou Hameda Deedat, integrante do comitê diretor da rede de organizações South African Water Cauucs. Uma possibilidade é recuperar a água de chuva mediante tanques colocados nos telhados das casas na Cidade do Cabo, propôs Deedat. Isso já é feito em outras partes do mundo. “Há soluções sustentáveis”, ressaltou. IPS/Envolverde

Patrick Burnett

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