Washington, 23/10/2009 – No dia 24 de setembro uma pessoa que caminhava pela praia perto da cidade galesa de Swansea, na Grã-Bretanha, informou ter encontrado uma peça de equipamento militar abandonada na areia. Três dias depois, dois membros da equipe que foi se desfazer do artefato mostraram sintomas compatíveis com os efeitos do gás mostarda, agente químico usado nas duas guerras mundiais e em outros conflitos. A preocupação sobre as armas químicas abandonadas no leito marinho aumenta, particularmente no mar Báltico, onde foram jogadas 40 mil toneladas desse tipo de armamento excedentes o apreendidos após a Segunda Guerras Mundial (1939-1945) e onde hoje se pretende construir um gasoduto entre Rússia e Alemanha.
Após uma série de apresentações na Organização das Nações Unidas na semana passada e no Congresso norte-americanos esta semana, o embaixador da Lituânia na Holanda e perante a Organização para a Proibição das Armas Químicas, Vaidotas, Verba, espera criar consciência sobre este problema e apresentar uma resolução na ONU a respeito. “O completo alcance das armas químicas jogadas no mar nunca será conhecido porque os registros são inadequados e outros foram destruídos”, disse Verba na segunda-feira a funcionários e especialistas nos escritórios em Washington da organização ambientalista Global Green USA. Além do mar Báltico, também foram jogadas armas químicas nos oceanos Atlântico e Pacífico, nos mares do Norte e Mediterrâneo e nas costas da Austrália e da ilha havaiana de Oahu. O projeto do gasoduto, chamado “Nord Stream”, trouxe novamente à tona o problema. A Comissão Helsinque, encarregada de proteger o Báltico da contaminação, não detectou grandes ameaças à vida marinha por parte de armas químicas abandonadas em 1994, e determinou que a melhor forma de tratar esse material no solo marinho é simplesmente identificar onde estão e não tocá-los. Mas, a instalação do gasoduto poderia causar problemas em pelo menos dois depósitos submarinos, apesar dos contínuos esforços da companhia construtora para desviar a rota de locais onde existem arsenais abandonados conhecidos.
Verba explicou que é difícil detectar os lugares onde estão as armas porque muitos objetos se amontoam no solo marinho. Em 1995, cerca de 4.500 bombas incendiárias apareceram flutuando ao longo da costa ocidental da Escócia poucos dias depois de terem começado as escavações para um duto até a Irlanda. “Muitos pensam que se estão na água, estão fora de nossas visas, fora de nossa mente”, disse Rick Stauber, técnico aposentado em tratamento de bombas. Mas os acontecimentos em Gales e no ocidente da Escócia sugerem outra coisa. A pesca de arrastão, as obras de dragagem e a extração de areia e cascalho representam sérios riscos, disse Verba, bem com a instalação de dutos e cabos submarinos. O caso do Nord Stream é apenas o de maior repercussão, ressaltou.
Embora alguns agentes se decomponham e finalmente se tornam inofensivos na água salgada, outros se mantêm ativos e perigosos. O gás mostarda, por exemplo sofre um processo pelo qual suas camadas superiores se solidificam enquanto o líquido interno permanece ativo. Se um pescador retira uma porção deste agente solidificado pode sofrer sérios problemas de saúde. “Como nem a água nem o ar alcançam o interior do agente químico, este continua perigoso”, explicou Stauber.
Nos Estados Unidos, o jornal Daily Press desatou uma onda de preocupação e de investigações em 2005 após informar que 29 mil toneladas de armas químicas e 400 mil bombas com agentes perigosos foram jogadas perto das costas dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. “Os artigos publicados em 2005 geraram interesse no Departamento de Defesa, porque havia dúvidas e ninguém realmente tinha uma resposta”, disse Stauber.
Uma das muitas descobertas que esta e outras investigações fizeram foi que, em 1919, o navio de guerra USS Elinor fez uma viagem de Baltimore a Nova York jogando armas excedentes no mar. A localização atual de algumas destas armas é conhecida, de outras não. Na Operação Davy Jones Locker, os Estados Unidos lançou uma tonelada de armas químicas alemãs que se acumulavam em depósitos, especialmente o estreito de Skagerrak, no norte da Dinamarca, onde também foram afundados navios alemães carregados de gás mostarda e agentes nervosos.
Mas o tema mais preocupante hoje é o projeto Nord Stream, aprovado na terça-feira na Dinamarca mas que ainda precisa do aval da Filandia e da Suécia, já que o duto passará por suas águas. Markus Binder, analista independente e ex-vice-diretor do Programa contra a Proliferação de Armas Químicas e Biológicas do Centro James Martin de Estudos contra a Proliferação, dos Estados Unidos, expressou algumas reservas sobre os motivos de Estados como a Lituânia trazerem à luz este tema. A Lituânia expressou preocupação pela possibilidade de um gasoduto para a Europa ocidental atravessar seu território e, portanto, que a Rússia possa tomar seus recursos gasíferos.
O governo lituano poderia estar citando o perigo das armas químicas para dissuadir este projeto e assim defender seus interesses econômicos. É provável que as armas sejam de preocupação para a Lituânia, “mas o fato com o qual se preocupam seguramente é mais estratégico”, disse Binder. Quando se ouve os países bálticos, parece que qualquer movimento nos lugares onde estão as armas provocaria uma explosão de gás, mas a ameaça, na realidade, não é mais grave do que um problema ambiental ou de saúde causado pelas velhas fábricas da agora desaparecida União Soviética, disse Binder. “É um tema manejável”, acrescentou. Mas, ainda resta saber como será manejado.
Os Estados não estão obrigados a declarar arsenais abandonados antes de 1985. Portanto, casos como o de uma série de armas alemãs lançadas por um navio russo no Báltico em 1946 e deslocadas no ano seguinte por uma construtora italiana supõem uma grande incerteza sobre quem tem a responsabilidade sobre esse lixo perigoso. O mais provável, disse Stauber, é que as armas permaneçam no mar para evitar atrasos e complicações legais de uma operação de limpeza.
Apesar disso, a preocupação da Lituânia sobre os potenciais perigos dos químicos é pelo menos suficientemente genuína para pressionar por uma resolução da ONU e impulsionar novos projetos de investigação para educar o público sobre os perigos das armas abandoadas. “O maior objetivo de nossos esforços é estimular o diálogo entre as nações afetadas”, disse Verba. IPS/Envolverde

