ISRAEL-PALESTINA: Rabinos contra assentamentos

Awarta, Palestina, 23/10/2009 – Longe da atenção dos meios de comunicação, um grupo de humanistas israelenses trabalha em silêncio para derrubar as barreiras que os separam de seus vizinhos palestinos. O clérigo judeu Arik Ascherman, diretor da organização israelense Rabinos pelos Direitos Humanos, foi usado como escudo humano, preso e golpeado várias vezes pelas forças israelenses enquanto defendia os palestinos. Ele também foi apedrejado pelos palestinos que o confundiram com um colono.

Anualmente, durante a temporada de colheita de azeitonas nos meses de outono, os agricultores palestinos são vítimas de uma escalada de violência por parte de alguns dos meio milhão de colonos israelenses que vivem em assentamentos ilegais por toda a Cisjordânia, que inclui Jerusalém oriental. Boa parte da terra dos produtores palestinos foi expropriada pelas autoridades israelenses para ampliar os assentamentos e criar novos. O governo de Israel acaba de lançar as bases de 12 novas colônias, enquanto prosseguem as obras em outras 34.

As áreas próximas aos assentamentos foram declaradas zonas militares e estão cercadas pelas forças armadas de Israel. Grupos de colonos vigilantes, frequentemente sob proteção de soldados israelenses, incendiaram áreas de terras agrícolas palestinas, cortaram árvores, baterem em produtores e mataram parte de seus animais. Partidários israelenses e internacionais dos agricultores palestinos foram presos por soldados do Estado judeu por supostamente infringirem as zonas militares cercadas, e também foram atacados pelos colonos. A violência dos colonos é em represália para cada um de seus pequenos postos avançados que são evacuados pelas forças israelenses.

Ascherman e Rabinos pelos Direitos Humanos estão na primeira linha da luta pela justiça para as comunidades vulneráveis, tanto dentro de Israel como em territórios palestinos ocupados. A cada ano, na temporada das azeitonas, Ascherman lidera u,m grupo de estudantes rabínicos, bem como voluntários israelenses e de outras nacionalidades, que acompanham os agricultores palestinos enquanto tentam colher seus produtos. A IPS uniu-se a esta tarefa nas aldeias de Awarta e Jit, na Cisjordânia.

A israelense Hellela Siew, de 65 anos, que agora reside na Grã-Bretanha, viaja todos os anos para participar da colheita de azeitonas. Durante uma colheita anterior teve de ser hospitalizada depois que um guarda de segurança israelense de um dos assentamentos próximos bateu em sua cabeça com uma barra de ferro. Em outra ocasião, os colonos atirara contra ela, e outros voluntários, pedras e excremento humano, enquanto disparavam par ao ar. “Sou isralense, Israel é meu país e não me agrada o que a ocupação está fazendo em meu nome. Vim aqui porque é isto que devo fazer. Não temo os palestinos, temo os colonos. De fato, me sinto melhor com os palestinos do que com muitos israelenses”, disse Siew à IPS.

A alemã Suzanne Moses, de 80 anos, fugiu dos nazistas quando criança, depois que sua mãe morreu no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia. Após passar anos como refugiada em vários países, sendo jovem assentou-se em Israel. Moses trabalha como voluntária nas oliveiras há anos. Passa horas extenuantes sob o sol abrasador colhendo azeitonas. “Faço isso porque me agradam as azeitonas”, brinca. “Falando serio, estou contra a ocupação. Não gosto dos colonos e realmente me preocupa muito a guerra civil no futuro. Os colonos estão armados, e apesar de haver um governo israelense disposto a evacuar os assentamentos, os colonos não partirão sem lutar”, disse Moses à IPS.

O israelense Shy Halatzi, de 23 anos, estuda física e astronomia na Universidade de Telavive. Já realizou o serviço militar. Esta foi sua terceira viagem à Cisjordânia para colher azeitonas. “Antes nunca estivera na Cisjordânia, a não ser para visitar o mar Morto. No começo estava um pouco receoso sobre as condições de segurança. Mas, quis compreender melhor os palestinos e ver sua perspectiva. Os israelenses não compreendem realmente o que está ocorrendo aqui a partir de nossos meios de comunicação”, afirmou à IPS. “Caso se escrevesse contra cada violação dos direitos humanos dos palestinos, seria possível publicar um livro. Sinto que minha presença aqui é uma pequena compensação pelo que meus compatriotas estão fazendo”, acrescentou.

Entre os voluntários há alguns jovens israelenses que se autodefinem como objetores de consciência, negando-se a fazer o serviço militar obrigatório e se preparando para ser preso por esta razão. Mas, apesar da dedicação e do compromisso destes voluntários, os assentamentos continuam crescendo, e os colonos implementando sua própria lei. A IPS perguntou a Ascherman considera que sua organização fez alguma diferença. “Hoje, às vezes, os palestinos podem ter acesso a algumas de suas terras. Há 10 anos isto era quase impossível. As forças armadas israelenses também os protegem mais dos colonos do que antes”, respondeu.

“Também notei mudança em alguns membros do Partido Trabalhista israelense nos kibutzim (comunidades agrícolas), que antes eram agricultores. Apesar de sua política, podem ter contato com a luta dos produtores palestinos”, disse Ascherman à IPS. “Creio firmemente que estamos ajudando a derrubar estereótipos e a construir o diálogo. Há vários anos fiquei surpreso ao saber que um dos rapazes palestinos com os quais estava trabalhando pertencera à Guarda Presidencial de Yasser Arafat, que teve entre seus membros alguns que fizeram sérios ataques contra israelenses”, contou. “Ele ficou igualmente surpreso ao saber que sou um rabino israelense. Não sou tão ingênuo para acreditar que no futuro ele não considerará a violência. Mas, penso que pode ter uma nova perspectiva se chegar a ver-se nessa encruzilhada”, disse Ascherman. IPS/Envolverde

Mel Frykberg

Mel Frykberg began her journalism career reporting on unrest in black townships, including Soweto, in South Africa during the apartheid era. She later worked as a journalist in Sydney, Australia. Mel has worked as a journalist in the Middle East for over a decade. She has reported for a number of major international publications from Gaza, Jerusalem, Beirut, Cairo, and Amman where she has lived. Mel also edited local magazines and newspapers in the region and is a frequent commentator on the Israeli/Palestinian conflict on National Public Radio in the United States. Frykberg studied journalism in the U.K.

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