MAPUTO, 05/11/2009 – A menos de 100 quilómetros da segunda maior barragem em África, as mulheres andam a pé com os bébes amarrados às costas e baldes de água equilibrados na cabeça. Caminham devagar, com corpos cansados. Quando a noite cai e a escuridão chega à areia vermelha da estrada poeirenta, elas desaparecem no escuro.
“Faço isto desde que me casei e vim viver para aqui hà 10 anos. Às vezes tenho de esperar muitas horas na fila até ter acesso à água. De dois em dois dias, saio de casa às quatro horas da manhã e só regresso para descansar quando o sol desaparece,” explica Benedita Cadeado, de 32 anos, e mãe de três filhos.
Cadeado anda perto de 20 quilómetros desde a sua pequena aldeia nos arredores do Songo até chegar ao lugar mais próximo com água canalizada. E depois tem de calcorrear o caminho de regresso.
“Tenho de levar a água em três baldes com vinte litros – o suficiente para as necessidades da minha família durante dois dias. Isso obriga-me a subir e descer a montanha três vezes por dia. Já estou habituada. Andamos em grupos e, assim, a distância na estrada da minha aldeia parece mais curta,” acrescentou.
Ao longo das mesma estrada, emergindo por entre a floresta verde que envolve as montanha moçambicanas atravessadas pelo rio Zambezi, está localizada a grandiosa barragem de Cahora Bassa, a segunda maior infra-estrutura hídrica e de electricidade de África.
A barragem hidroeléctrica situada no distrito de Cahora Bassa, na província central de Tete, está perto da aldeia do Songo.
Aqui existem casas com piscinas e jardins irrigados. Ao longo das estradas asfaltadas há restaurantes e estações de serviço, construídos para proporcionar conforto aos residentes locais – a maior parte dos quais trabalha na barragem.
A electricidade de Cahora Bassa não cobre todo o planalto da aldeia de Songo, ou até mesmo todo o distrito. E ainda tem de chegar a todos os distritos da província de Tete.
“Disseram-nos que a barragem produz energia… pensei que a casa grande (barragem) só podia conter água. No ano passado, disseram que Cahora Bassa já não era dos portugueses mas que agora nos pertencia…e, por isso, teríamos finalmente electricidade em casa…ainda estou à espera,” explica Cadeado.
Em Novembro de 2007, Moçambique assumiu o controlo total da barragem de Cahora Bassa das mãos de Portugal, terminando décadas de um processo negocial entre os dois países.
Depois da independência de Moçambique em 1975, os Portugueses entregaram o poder político do país aos Moçambicanos, mas retiveram o controlo de 82 por cento da barragem.
Contudo, dois anos depois de Cahora Bassa ter revertido a favor de Moçambique, as pessoas no sul, na aldeia do Songo, ainda não têm acesso a electricidade. Em vez disso, dependem de painéis solares, velas ou candeeiros de petróleo.
São obrigadas a ver a vizinha África do Sul comprar aquilo que devia ser a sua electricidade. A electricidade é transferida ao longo de mais de 1.000 quilómetros, enquanto que a menos de 100 quilómetros de distância, as pessoas não têm electricidade.
A água canalizada proveniente da barragem só cobre uma pequena área em seu redor. A maioria da população de Songo usa a água do rio como fonte de água potável e de lavagem.
Aqui, como acontece na maior parte do distrito de Tete em redor do rio Zambezi, a população depende da pesca e da agricultura. Ambos estes meios de sobrevivência são afectados quando o Zambezi transborda as suas margens todos os anos.
Saindo-se de Songo, a 60 quilómetros do rio, encontra-se a aldeia de Changara, que vai assistir à construção de um outro grande projecto hidroeléctrico em 2011, a barragem de Mphanda Nkuwa.
Prevê-se que a barragem de Mphanda Nkuwa ocupe uma área de 100 metros quadrados e acredita-se que ela poderá representar uma solução para a actual falta de electricidade em certas partes da África Austral.
“Nós (a região) temos conhecido interrupções de energia. Uma barragem como Mphanda Nkuwa em Moçambique vai ajudar a melhorar a distribuição de electricidade na região,” disse Phera Ramoeli, do Secretariado dos Recursos Hídricos da SADC.
A nova barragem vai produzir 1.350 megawatts de energia. Moçambique consome perto de 900 megawatts – o suficiente para iluminar 400.000 casas. A barragem de Cahora Bassa, também localizada no rio Zambezi, já produz mais de 2.000 megawatts de electricidade, a maioria da qual é enviada para a Eskom, na África do Sul.
Ramoeli disse que a barragem de Mphanda Nkuwa irá ajudar a evitar cheias e apoiar o desenvolvimento das áreas circundantes ao rio Zambezi.
“Pode ver-se a quantidade de água que passa pelas quedas de Vitória. Precisamos de encontrar uma forma de usar aquela água para benefício dos habitantes locais. A água, se for bem gerida, pode aumentar o desenvolvimento das pessoas que vivem na área do Zambezi,” explicou Ramoeli.
No entanto, os activistas do meio ambiente moçambicanos estão contra a construção da barragem, que acreditam apenar irá piorar as condições de vida da população de Changara e de outras aldeias por todo o Zambezi.
“A construção da barragem de Mphanda Nkuwa vai obrigar ao reassentamento de mais de 1.400 pequenos agricultores que receberam pouquíssimas informações sobre a sua situação futura,” disse um grupo ambientalista, a Justiça Ambiental.
O grupo sustenta que Moçambique já tem barragens suficientes e que, se estas forem bem geridas, podem trazer benefícios consideráveis para a população que, de acordo com o grupo, até agora beneficiou muito pouco da barragem de Cahora Bassa.
“A construção vai causar flutuações no nível do rio Zambezi, já afectado pela barragem de Cahora Bassa, prejudicando a actividade piscatória, o tráfico fluvial e a agricultura na bacia do Zambezi, e tornando a população mais vulnerável a calamidades como a seca, as cheias e a fome,” sustenta a Justiça Ambiental.
O grupo ambientalista afirma também que a comunidade local deve ser informada sobre os riscos da construção de uma barragem numa zona propensa a terramotos. A barragem de Mphanda Nkuwa vai ser construída no centro de Moçambique, perto do distrito de Machaze, na província de Manica, epicentro do terramoto que ocorreu em 2006 e que registou 7.5 na escala de Ritcher.
“Não pode haver desenvolvimento sem impactos negativos,” explicou Ramoeli do Secretariado dos Recursos Hídricos da SADC, cujo mandato consiste em garantir uma distribuição justa dos recursos hídricos na região da África Austral.
“Neste momento, nós (a SADC) estamos realizar projectos juntamente com os nossos engenheiros, estudando a melhor forma de minimizar os impactos negativos no meio ambiente local. Esses projectos levam em linha de conta todos os grupos, política, ciência, sociedade…Temos de tomar em consideração todos os aspectos que envolvem o meio ambiente e o desenvolvimento,” acrescentou aquele especialista da SADC.
A construção da barragem de Mphanda Nkuwa tornou-se uma das prioridades do governo moçambicano.
Num relatório de Dezembro de 2008, o Ministério da Energia de Moçambique descreveu a barragem “como um dos mais importantes projectos para a produção e fornecimento de electricidade para a região da África Austral.”
O Ministro da Energia, Salvador Namburete, sublinhou o empenho do governo na construção da barragem. Afirmou também que “o projecto iria seguir as recomendações dos estudos de impacte ambiental.”
Os resultados do estudo de impacte ambiental preliminar referente à construção da barragem de Mphanda Nkuwa foram entregues ao governo no início de Setembro.
O documento, que ainda não foi tornado público, deverá indicar se existem ou não barreiras à implementação do projecto e apresentar recomendações sobre aspectos de engenharia ou do meio ambiente que se devem ter em consideração durante o processo de construção, cuja conclusão está prevista até 2015.

